Um médico francês acusado de envenenar e matar dezenas de pacientes foi condenado à prisão perpétua perante o tribunal nesta quinta-feira.
Os procuradores usaram o termo “Dr. Morte” para se referirem ao médico anestesista que manipulava bolsas de anestesia e doses de paracetamol, provocando ataques de coração. As vítimas variam entre os 4 e os 89 anos de idade.
“Este trata-se de um dos maiores criminosos na história do sistema legal francês”, afirmaram os procuradores, que descreveram Frédéric Péchier como “um assassino em série”.
De acordo com o The Guardian, uma das procuradoras estatais, Thérèse Brunisso, disse que Péchier não se tratava de um médico, mas sim de “um criminoso que usou a medicina para matar”. E acrescentou que as acções do médico anestesista tinham dois objectivos: “a morte física dos seus pacientes” e “o astuto ataque psicológico aos colegas”.
Durante as audiências no tribunal, foi dito que, para além de disputas com outros colegas, Frédéric Péchier envenenava as vítimas para depois poder ressuscitá-las, aproveitando-se do reconhecimento deste acto para lidar com sentimentos de frustração. Alguns dos seus colegas conheciam-no como um “médico brilhante”.
Outra procuradora, Christine de Curraize, disse que por detrás dos crimes estava “sede de poder”, razão fútil que levou a que o assassínio se tornasse “num modo de vida” para o acusado.
O julgamento durou cerca de três meses e teve como objectivo desvendar os motivos que levaram o anestesista a cometer os crimes, que ocorreram em clínicas particulares na cidade de Besançon, no Nordeste de França.
Filho de um anestesista, Péchier cresceu num ambiente privilegiado. Vivia com a mulher, também cardiologista, e os três filhos, até ao divórcio. Praticou em duas clínicas privadas durante o período de 2008 a 2017, onde doentes entraram em paragem cardíaca sob circunstâncias duvidosas. Doze pessoas não resistiram aos esforços de reanimação e morreram. Ao longo da investigação, as autoridades examinaram acima de 70 registos de “eventos adversos graves” — o termo clínico usado para mortes ou complicações imprevistas em doentes. Em 2014 e 2021, por duas vezes, tentou tirar a própria vida.
A vítima mais nova, na altura uma criança de 4 anos, Tedy, sofreu duas paragens cardiorrespiratórias em 2016 durante uma operação de rotina a uma amigdalite. O pai do menino, que acabou por sobreviver, disse ao tribunal: “O que nos aconteceu foi um pesadelo. Nós confiámos na medicina e sentimo-nos traídos.”
Sandra Simard, 36 anos, foi outra das vítimas. Durante uma simples operação às costas, o seu coração parou depois de uma bolsa de anestesia ter sido adulterada. Acabou por ficar semanas no hospital após entrar em estado de coma, que se prolongou durante vários dias. Simard disse ao tribunal que as consequências deste episódio ficarão para toda a vida: “Todo o meu corpo está em dor, como se vivesse no corpo de uma pessoa idosa.”