O tema da letargia europeia está cada vez mais saturado. Um facto que apenas serve para provar, uma vez mais, que a abordagem exaustiva de um assunto não implica que seja compreendido, muito menos resolvido. E correndo o risco de aborrecimento, não há como escapar à questão.
J. D. Vance veio a Munique em fevereiro do ano passado com uma mensagem clara: o principal problema da Europa não é a Rússia, a China ou os Estados Unidos; é, sim, a sua deriva burocrática e censória. À data escrevi neste espaço que o discurso do VP norte-americano deveria «forçar uma dura autorreflexão na cúpula da UE que acredita ser guardiã da democracia, mas que se esquece, de forma bastante frequente, que a democracia tem no Estado-nação, e na sua inerente soberania, um dos seus mais indispensáveis balões de oxigénio», independentemente de ter sido encarado como uma afronta ou como uma tentativa de ingerência. Hoje estamos numa posição confortável para afirmar que essa autorreflexão não aconteceu. A UE decidiu ficar-se pelos rants anti-Trump. É, de facto, o caminho mais fácil.
Assim, ao analisar a nova estratégia de segurança nacional americana, não se pode deixar de sentir uma clara sensação de déjà vu. A primeira farpa à União Europeia é lançada no ponto 1.5 do capítulo IV: «A unidade política fundamental do mundo é e continuará a ser o Estado-nação». «É natural e justo», continua o documento, «que todas as nações coloquem os seus interesses em primeiro lugar e protejam a sua soberania». Mais, a administração americana defende «os direitos de soberania das nações, contra as incursões das organizações transnacionais mais intrusivas que minam a sua soberania» e vai tornando o ataque à UE cada vez mais explícito: «Opomo-nos às restrições antidemocráticas impostas pelas elites às liberdades fundamentais na Europa, na Anglosfera e no resto do mundo democrático, especialmente entre os nossos aliados».
Mas é na parte final do documento que a Casa Branca eleva o discurso de Vance em Munique ao estatuto de estratégia nacional. Depois de mencionar o declínio económico das nações europeias, Washington considera, de forma completamente justificada, que o problema é mais profundo: «este declínio económico é ofuscado pela perspetiva real e mais sombria do desaparecimento da civilização». Certo. Porque, e voltando a citar aquilo que escrevi em fevereiro – um exercício pouco recomendável, mas neste caso inevitável –, «as matérias económicas e de segurança só podem florescer com uma base cultural e de valores forte». O dilema europeu que expus em fevereiro apenas tinha duas opções de saída: ou a União Europeia continuava adormecida, ou decidia, por fim, arregaçar as mangas. À data escrevi que a primeira opção era a mais provável. Infelizmente, confirma-se.
Por isto, os Estados Unidos – que, goste-se ou não, são o nosso mais importante e natural aliado –, como qualquer europeu que zele pelos reais interesses do Velho Continente, querem «que a Europa continue europeia, recupere a sua autoconfiança civilizacional e abandone o seu foco falhado na sufocação regulatória».
Estou ciente de que estas posições podem encontrar repouso na enorme tenda à qual hoje se dá o nome de ‘euroceticismo’, sobretudo porque está de acordo com algo que Donald Trump disse, quando a maioria da elite bien-pensant se refere à Estratégia de Segurança Nacional americana como uma grande ameaça para a Europa. Bem, se considerar com preocupação que nos transformámos num herdeiro imprudente, que corre o risco de deitar fora tudo o que resta da grandeza civilizacional que lhe foi confiada pelos seus antepassados, merece o rótulo de eurocético, que assim seja. Mas sugeriria o termo ‘bruxelocético’. Porque o afeto pela Europa e a esperança de que pode ser muito mais são inquestionáveis e o ceticismo reside apenas naqueles que tentam estrangulá-la. A elite de Bruxelas não está adormecida, nem tampouco está cega. Mas, como costuma dizer-se, o pior cego é aquele que não quer ver.