Após 11 meses de tumulto e redução, a Nasa terá um líder permanente. O Senado americano confirmou nesta quarta-feira (17) Jared Isaacman, o empresário bilionário que viajou para a órbita duas vezes em missões espaciais privadas, para o cargo de administrador da agência espacial.
Com Isaacman no cargo, alguns dizem acreditar que a Nasa tem uma oportunidade de reinvenção semelhante a uma encruzilhada que a agência enfrentou após a queda do Muro de Berlim em 1989 e a dissolução da União Soviética dois anos depois.
Naquele período, a Nasa também foi liderada por um administrador que era um executivo trazendo ideias do setor privado para a agência espacial federal, em vez de um ex-astronauta da Nasa ou um representante do governo.
Ele era Daniel Goldin, que foi nomeado pelo presidente George H.W. Bush e acabou também servindo aos presidentes Bill Clinton e George W. Bush durante seu mandato de quase uma década. Os altos e baixos da liderança de Goldin podem ser instrutivos para Isaacman.
Em maio, Isaacman escreveu um documento chamado “Plano Estratégico do Projeto Athena”, que ofereceu ideias sobre como ele espera reorganizar e revigorar a Nasa.
“A Nasa voltará a se concentrar em alcançar o quase impossível —fazendo o que nenhuma outra agência, organização ou empresa é capaz de fazer”, escreveu ele na introdução.
Foram destacados três objetivos: exploração espacial humana da Lua, Marte e espaço profundo; desbloquear uma economia espacial maior; e se tornar um “multiplicador de força” para missões científicas, aproveitando parcerias com empresas comerciais e academia para reduzir custos.
Ele recebeu amplo apoio da comunidade espacial. “Acho que isso coloca a Nasa de volta em um bom caminho”, disse Todd Harrison, analista do American Enterprise Institute.
Mas Isaacman poderia ter iniciado essa agenda mais cedo no ano se tivesse sido confirmado para o cargo da Nasa em junho. Então, Donald Trump subitamente retirou a nomeação apenas dias antes de o Senado provavelmente confirmá-lo. O republicano mudou de ideia novamente em novembro e renomeou Isaacman.
A Nasa que ele liderará hoje é muito diferente daquela que ele teria assumido em junho. Quase 4.000 funcionários da Nasa —cerca de um quinto da força de trabalho— saíram ou sairão em breve, parte da redução federal. E a agência está enfrentando uma feroz competição global enquanto a China promete que pousará astronautas na Lua até 2030.
Para levar astronautas de volta à Lua na missão Artemis 3, a Nasa está contando com um módulo lunar sendo desenvolvido pela SpaceX, de Elon Musk. Mas o veículo é uma variante do foguete Starship e ainda está em desenvolvimento. Enviá-lo para a Lua requer uma série inteira de lançamentos para dar ao módulo lunar combustível suficiente para deixar a órbita da Terra. Mover milhões de quilos de líquidos ultrafrios entre espaçonaves na ausência de gravidade é uma façanha de engenharia de foguetes nunca antes alcançada.
A complexidade do Artemis 3 levou membros do Congresso e Sean Duffy, o secretário de Transportes, que vinha atuando como administrador interino da Nasa desde julho, a expressar preocupações sobre os atrasos da SpaceX e a crescente probabilidade de que a China supere a Nasa na corrida espacial.
Satisfazer prioridades frequentemente concorrentes destaca a “posição burocraticamente difícil” na qual Isaacman se encontrará, segundo Eric Romo, presidente e diretor de operações da Impulse Space, empresa que está desenvolvendo espaçonaves orbitais.
Durante uma discussão em painel na Cúpula Global do Espaço do Deutsche Bank em novembro, Romo advertiu que Isaacman enfrentaria restrições sobre a rapidez com que poderia mudar a Nasa.
“O Congresso basicamente diz a eles com extrema clareza em que gastar dinheiro”, disse Romo. “A Casa Branca tem suas próprias prioridades.”
Um exemplo são as prescrições da lei de impostos e gastos de Trump que o Congresso aprovou. Ela inclui disposições adicionadas pelo senador Ted Cruz, republicano do Texas, que acrescentam bilhões de dólares para a Nasa. Mas esses fundos devem ser gastos em projetos grandes e caros como o SLS, um foguete construído por empreiteiros aeroespaciais tradicionais.
Em contraste, no documento Athena, Isaacman pediu “trabalhar ao lado da indústria para determinar uma arquitetura mais acessível e replicável que se aplique à Lua, Marte e espaço profundo.”
Enquanto Isaacman lida com essas pressões, alguns especialistas dizem que ele pode olhar para a experiência de Goldin nos anos 1990.
A Nasa, então liderada por Richard Truly, um ex-astronauta, queria um grande aumento de orçamento para os planos de Bush de enviar astronautas de volta à Lua e depois a Marte, enquanto continuava a trabalhar, sem mudanças, na Estação Espacial Freedom, um projeto iniciado sob o presidente Ronald Reagan que estava anos atrasado e muito acima do orçamento.
Havia também o constrangimento do Telescópio Espacial Hubble, que foi lançado em 1990 com um espelho que produzia imagens desfocadas.
“A Nasa estava em uma crise total naquela época”, disse Mark Albrecht, que serviu como secretário executivo do Conselho Nacional do Espaço sob o presidente George H.W. Bush.
No início de 1992, Truly anunciou que renunciaria.
Na busca por um novo administrador da Nasa, Albrecht lembrou-se de Goldin, um executivo conhecedor de tecnologia na TRW Inc. Ele liderou o programa de satélites daquela empresa.
Quando Bush perdeu para Clinton nas eleições mais tarde naquele ano, a administração Clinton manteve Goldin.
Ele conseguiu reformular o projeto Freedom na Estação Espacial Internacional. Astronautas repararam o telescópio Hubble em órbita, e ele tem enviado imagens nítidas do Cosmos desde então.
Goldin também promoveu a filosofia de “mais rápido, melhor, mais barato” —mais missões com objetivos mais modestos e preços menores para que um fracasso não fosse catastrófico.
A primeira dessas missões de menor custo —Mars Pathfinder— colocou com sucesso o primeiro rover, do tamanho de uma caixa de pão, no planeta vermelho em 1997.
Então, em 1999, duas missões a Marte —o Mars Climate Orbiter e o Mars Polar Lander— falharam.
Ainda assim, essas duas missões juntas custaram cerca de metade do que uma missão anterior a Marte que falhou, construída de maneira mais tradicional, e a Nasa foi capaz de se recuperar mais rapidamente.
“Dan foi o primeiro a realmente pensar, ‘Como você poderia fazer uma cadência de missões científicas licitadas competitivamente?'”, disse Lori Garver, que trabalhou para Goldin na sede da Nasa de 1996 a 2001 e depois se tornou administradora adjunta da Nasa durante o governo Obama. “E hoje tomamos isso como garantido.”
Albrecht disse: “Minha esperança é que Jared seja outro Dan”.
Goldin recusou um pedido de entrevista para falar sobre a Nasa e Isaacman.
Mas, no mês passado, ele postou alguns pensamentos e recordações na plataforma social X sobre a Nasa. Ele disse que tinha três grandes objetivos quando começou na agência: construir satélites pequenos e acessíveis; tornar os custos de lançamento mais baratos; e tirar o governo da órbita terrestre. Estes compartilham semelhanças com o plano Athena de Isaacman.
“Há muito mais a fazer no espaço”, como minerar asteroides próximos à Terra, escreveu Goldin, acrescentando: “Temos uma compreensão da ciência básica e tecnologia para isso. A questão é: temos o desejo?”