O futebolista português Cristiano Ronaldo voltou este ano a dar voz a uma campanha publicitária internacional do Turismo da Arábia Saudita, narrando um vídeo de 45 segundos centrado na ideia de que foi para o país “pelo futebol”, mas ficou “por mais”.

Num comunicado enviado às redações em nome da Autoridade do Turismo da Arábia Saudita, é explicado que esta campanha “se concentra na experiência pessoal do atleta no país, explorando a sua dimensão cultural, territorial e humana”.

A Arábia Saudita tem sido repetidamente acusada de recorrer ao sportswashing para desviar as atenções das acusações de graves violações dos direitos humanos de que o regime de Riade é acusado, incluindo um forte aumento das condenações à morte, a sistemática discriminação das mulheres e das pessoas LGBT, as ameaças à liberdade de imprensa e de expressão e a existência de julgamentos ilegítimos e de tortura contra os detidos.

O futebolista português, que é considerado um dos melhores atletas de todos os tempos e que em 2023 se mudou do Manchester United para o clube saudita Al Nassr, tem sido um dos grandes símbolos do esforço do regime saudita para melhorar a sua imagem junto da comunidade internacional através da promoção do desporto no país. A Amnistia Internacional já apelou a Ronaldo que usasse a sua voz global para denunciar as violações de direitos humanos que acusa Riade de cometer, mas o futebolista tem-se mostrado repetidamente ao lado da elite política saudita e elogiado o país.

Em novembro, essa proximidade ficou particularmente evidente quando Cristiano Ronaldo integrou a comitiva oficial do príncipe herdeiro saudita, Mohammad bin Salman, numa visita à Casa Branca. Na ocasião, Ronaldo foi mesmo recebido na Sala Oval por Donald Trump, que se disse fã do futebolista. A visita ficaria marcada, entre outras situações, pelo momento de tensão no encontro entre Trump e Bin Salman em que uma jornalista lançou uma pergunta sobre a morte do jornalista Jamal Khashoggi, crítico do regime, que de acordo com os serviços de informações norte-americanos terá sido diretamente ordenada pelo príncipe herdeiro.

A Arábia Saudita já foi, entretanto, confirmada como país anfitrião do Mundial de 2034 — e também nesse contexto os principais futebolistas do planeta, incluindo Ronaldo, têm sido acusados de se manter em silêncio perante o uso da competição desportiva como instrumento de soft power do regime saudita.