Há milhares de anos, em uma caverna onde hoje fica o território da República Dominicana, corujas devoravam os restos de suas presas e, depois, regurgitavam no chão pelotas ricas em ossos. E, sem querer, dessa forma elas ajudavam abelhas.
Recentemente, ao analisarem fósseis encontrados nessa caverna, pesquisadores se depararam com estranhos sedimentos alojados nas cavidades dentárias de crânios de roedores. Em um artigo publicado na última quarta-feira (17) na revista Royal Society Open Science, eles sugerem que esses vestígios de formato oval são na verdade ninhos petrificados de abelhas pré-históricas.
Lazaro Viñola López, do Museu Field em Chicago (Estados Unidos), afirmou que as camadas de ossos eram ideais para as abelhas que viviam na caverna. “Essas câmaras proporcionavam proteção para os ninhos delas”, disse o paleontólogo, que é o autor principal da nova pesquisa.
Ele soube do local em meio aos seus estudos de doutorado no Museu de História Natural da Flórida. Um colega sugeriu a ele que escavassem a Cueva de Mono, uma caverna no país carinbenho onde uma pessoa havia tentado, sem sucesso, instalar uma fossa séptica.
O paleontólogo e o colega Mitchell Riegler decidiram, então, aventurar-se na caverna e descobriram milhares de ossos, depositados ao longo dos últimos 20 mil anos.
A equipe identificou restos de cerca de 50 espécies de vertebrados, incluindo preguiças, lagartos, tartarugas e até crocodilos. A Cueva de Mono é particularmente rica em fósseis de parentes extintos de um grupo de roedores caribenhos robustos.
As evidências sugerem que esses fósseis parcialmente digeridos foram levados para a caverna por parentes pré-históricos das corujas-das-torres.
Conforme o solo foi sendo arrastado para dentro da caverna, acabou enterrando a mistura de fósseis e preencheu as cavidades ósseas com sedimentos. Enquanto a equipe limpava a sujeira dos ossos no laboratório, Viñola López notou que algumas cavidades dentárias dos roedores continham estruturas estranhamente lisas que lembravam casulos de vespas fossilizados.
Para descreverem as estruturas, os pesquisadores realizaram microtomografias computadorizadas dos crânios dos roedores e criaram cópias digitais tridimensionais das estruturas de sedimento, menores que a borracha de um lápis.
Uma inspeção mais detalhada revelou que as estruturas de multicamadas eram fruto do cuidadoso trabalho de abelhas.
A grande maioria das abelhas constrói ninhos subterrâneos que variam de simples tocas a complexos agrupamentos. Elas frequentemente os revestem com uma substância cerosa e impermeável que protege as larvas e o pólen que elas comem.
As estruturas encontradas nas mandíbulas dos roedores eram surpreendentemente semelhantes aos ninhos de abelhas modernas. Algumas até continham grãos de pólen antigo. A equipe também observou ninhos na vértebra de um roedor e em uma cavidade dentro do dente de uma preguiça-gigante.
Nenhuma das próprias abelhas foi preservada, tornando difícil identificar as espécies que deixaram os ninhos para trás.
Mas de acordo com Phillip Barden, biólogo evolutivo do Instituto de Tecnologia de Nova Jersey que não esteve envolvido no estudo, os ninhos fossilizados em si fornecem uma riqueza de dados sobre a ecologia e o comportamento da espécie.
Os pesquisadores propõem que uma espécie solitária de abelha deixou os fósseis. Ela foi batizada de Osnidum.
A existência de ninhos em múltiplas camadas de ossos revela que as abelhas teriam retornado à caverna por centenas ou até milhares de anos. O alvéolo de um dente de roedor tinha seis gerações de ninhos empilhados uns sobre os outros.
Embora as abelhas sejam conhecidas por construir ninhos dentro de lama, de esterco e até mesmo de conchas de caracóis preenchidas com areia, a criadora do Osnidum é a primeira conhecida a fazer isso dentro de ossos de animais.
Os espécimes analisados no estudo são apenas a segunda espécie de abelhas conhecida por nidificar em cavernas. É provável que elas não tivessem escolha, segundo Riegler, coautor do novo artigo e ligado ao Museu de História Natural da Flórida. Ele observou que a área circundante está situada sobre calcário, e o pouco solo que se acumula é levado para cavernas como a Cueva de Mono.
Barden não está surpreso que as abelhas continuassem voltando à caverna depois de terem encontrado um lugar seguro para enterrar sua prole. “É como um porto em uma tempestade.”