A cimenteira Secil vai mudar de mãos, vai mudar a nacionalidade do seu accionista, mantendo-se num grupo de matriz familiar. Vai deixar de pertencer ao grupo português Semapa, controlado pela família Queiroz Pereira, e passará a integrar a carteira do grupo espanhol Cementos Molins, da família Molins. A operação, anunciada nesta sexta-feira, 19 de Dezembro, e que se deverá concretizar nos próximos quatro meses, está avaliada em 1,4 mil milhões de euros.
A transacção foi divulgada à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários a minutos da abertura da bolsa: “A Semapa – Sociedade de Investimento e Gestão, SGPS, S.A. informa que assinou hoje [sexta-feira] um acordo vinculativo relativo à venda da totalidade do capital social que detém na Secil – Companhia Geral de Cal e Cimento, S.A. (“Secil”) à Cementos Molins S.A. (“Molins”)”, segundo a nota.
De momento, está em causa um acordo vinculativo (o que quer dizer que qualquer cancelamento implica, à partida, compensação), mas ainda precisa de luz verde do ponto de vista concorrencial: “O fecho desta operação está previsto ocorrer no primeiro trimestre de 2026, estando sujeito às condições habituais para este tipo de operações”, aponta o comunicado.
A aquisição é feita por 1,4 mil milhões de euros, que é precisamente a capitalização bolsista da vendedora, da Semapa, no fecho de quinta-feira — por ser detida a 100% pela Semapa, a Secil, que conta com mais de 2500 trabalhadores, não é cotada em bolsa.
Na negociação desta sexta-feira, após a divulgação da operação, a Semapa segue a disparar mais de 15%, com cada acção a valer mais de 19 euros (fecharam a cotar nos 17 euros na quinta-feira). Chegou já a subir 25%, tendo a cotação superado os 20 euros, conseguindo puxar pelo índice português PSI. A capitalização bolsista já ultrapassou os 1,6 mil milhões de euros.
Os compradores vão combinar dinheiro fresco com financiamento conseguido junto de um “acordo de crédito” com várias entidades e ainda um financiamento por via de uma emissão obrigacionista.
Venda para “investir, inovar e acelerar”
“A Secil faz parte da génese da Semapa e terá sempre um lugar especial na nossa história”, segundo indica Ricardo Pires, o presidente executivo da Semapa, no comunicado do grupo português. Porém, a empresa vai deixar o grupo antes de a Secil completar o centenário, em 2030.
“A transacção é um passo estratégico para o grupo, que nos permite fortalecer a nossa capacidade de investir, inovar e acelerar a estratégia que temos vindo a implementar”, continua, no comunicado do grupo espanhol. O comunicado do grupo português menciona a criação de uma “plataforma de investimento industrial diversificada”
Directamente ou através de diversas sociedades, as herdeiras da família Queiroz Pereira (Filipa, Mafalda e Lua Queiroz Pereira) detêm 83% dos direitos de voto na Semapa. A cimenteira Secil é um dos principais activos da Semapa, sendo que o principal é a papeleira Navigator: são os dois activos consolidados. Tem, depois, participadas como a empresa da área de venture capital, Semapa Next, da área de ambiente (ETSA), de sistemas de combustão (UTIS) e a produtora de quadros em alumínio para bicicletas eléctricas (Triangle’s).
A cimenteira — em que a família Queiroz Pereira chegou a ter uma parceria com irlandeses, que acabou em 2012 — tem localização em zonas especialmente sensíveis e ecologicamente protegidas no país: na Arrábida, Sesimbra, e na Madeira. Arrábida e Maceira (e, aqui, não Madeira) são as localidades onde tem fábrica.
Entrada no Brasil interessa aos espanhóis
Esta é mais uma empresa relevante do sector cimenteiro a deixar as mãos portuguesas: o maior exemplo foi a Cimpor quando, há mais de uma década, foi comprada pela brasileira Camargo Corrêa, onde acabou desmembrada e deixou de ser uma poderosa multinacional, depois transitou para um grupo turco, e hoje pertence ao grupo Taiwan Cement Corporation.
Além de Portugal, é para sete países que a Secil vende as suas operações de cimento e betão, entre outros: Angola, Brasil, Cabo Verde, Espanha, Líbano, Países Baixos e Tunísia. A presença no Brasil é um dos pontos que mais agradam aos compradores, “o único grande mercado” da América Latina em que não opera.
Igualmente especializada na produção de cimentos, betão e derivados, a Cementos Molins opera na América (México, Argentina, Uruguai, Bolívia, Colômbia), Ásia (Tunísia, Bangladesh e Índia) e Europa (Espanha), tendo recentemente reforçado a presença em Portugal, com a compra da Concremat, em Palmela, este ano.
(notícia actualizada com referência à evolução das cotações)