Mas qual é o momento ideal para que exista uma decisão? Quanto tempo mais é que o F-16 aguenta?

Não se trata de uma questão de “aguentar”. Tem a ver com a evolução dos sistemas e com o obsoletismo de algumas das capacidades atuais. Estou convicto de que essa decisão irá decorrer ao longo do próximo ano. Neste momento, estamos a trabalhar em paralelo nas duas dimensões — a quinta e a sexta geração — porque, historicamente, a Força Aérea sempre operou com dois aviões de defesa aérea em simultâneo, o que é normal em praticamente todos os países.

Tivemos um atraso no passado, mas finalmente estamos agora a entrar nos ritmos certos. Estou convencido de que, durante o próximo ano, teremos novidades sobre a substituição dos F-16.

Tem acompanhado o posicionamento do mercado e da indústria, nomeadamente a concorrência europeia aos fabricantes norte-americanos. O senhor general já afirmou publicamente que o F-35 seria a escolha mais natural. Tendo em conta que, no programa SAFE, o ministro sublinhou que as escolhas foram técnicas e não políticas, isso deixa-o mais tranquilo quanto à decisão que venha a ser tomada?

Claro. Vamos ver: compete a um ramo, a uma força militar, identificar a melhor opção do ponto de vista estritamente militar. Como dizem os anglo-saxónicos, the best military option. Cabe à Força Aérea dizer qual é a melhor solução militar para uma determinada capacidade. Naturalmente, compete depois ao poder político tomar a decisão final, ponderando vantagens, desvantagens e riscos, e decidir se avança ou não por esse caminho.

Penso que existe aqui uma convergência de ideias entre as diferentes áreas. Como já referi, este processo não começou no tempo certo no passado e, por isso, tem agora de ser enquadrado no momento adequado, em articulação com outros sistemas e com outras capacidades que dão sentido a essa opção.

Conhecemos bem o posicionamento muito forte da maioria dos países. Mas também temos de considerar fatores como os prazos de entrega, quer das aeronaves de quinta geração, quer das de sexta geração. Estas opções não são incompatíveis entre si. Se Portugal fizer as coisas corretamente, poderemos ter aeronaves de quinta geração e, mais tarde, de sexta geração a começar a operar dentro desse horizonte temporal.

Não podemos olhar para estas decisões numa perspetiva imediatista. Temos sempre de pensar a 20 anos. Os sistemas da Força Aérea são altamente tecnológicos e obrigam-nos a ser visionários, a olhar à frente. A sexta geração, por exemplo, já incorpora sistemas de energia dirigida. Já não estamos a falar apenas de aeronaves que lançam mísseis, mas de tecnologias completamente disruptivas. Temos de pensar nelas hoje — e já temos pessoas a trabalhar nessas áreas.

Isto significa que há um caminho intermédio a percorrer e que o essencial é a capacitação das forças. Portugal é, muitas vezes, visto apenas na sua dimensão territorial de norte a sul, mas a realidade estratégica é outra. A distância entre a fronteira a oeste dos Açores, para lá das Flores, e a fronteira terrestre com Espanha é semelhante à distância entre Lisboa e a Ucrânia.

Se olharmos para o espaço europeu, para o número de sistemas e de aeronaves que nele operam, percebemos que temos de projetar a Força Aérea e as Forças Armadas para responder aos conflitos do futuro, que tendem a ser cada vez mais regionais. Começámos com a Ucrânia em 2022, temos Israel, conflitos no Mali, na República Centro-Africana, tensões no Mar da China Meridional entre a China e as Filipinas, e a questão de Taiwan entre os Estados Unidos e a China.

Tudo isto está interligado. Portugal encontra-se no cruzamento das maiores linhas de comunicação aéreas e marítimas entre os Estados Unidos, a América do Sul e a Europa. A nossa área estratégica está no centro dessas rotas e, por isso, temos de dimensionar as forças de forma a garantir capacidade de atuação e presença ativa naquilo que é, em primeiro lugar, a soberania nacional.