A maior lua de Saturno, Titã, pode estar escondendo um mundo habitável de gelo marinho, conforme indicam novas pesquisas.
Em 2008, a sonda Cassini da NASA coletou dados que sugeriam a existência de um oceano aberto sob a crosta congelada de Titã. No entanto, a análise recente indica que, na verdade, o que se encontra abaixo da superfície são “túneis lamacentos e bolsas de água de degelo“, segundo os pesquisadores envolvidos no estudo.
Os resultados deste trabalho, publicados na quarta-feira, 17 de dezembro, na revista Nature, possuem grandes implicações para a compreensão da presença de água em outros corpos celestes. Se confirmados, esses achados podem também impactar as investigações sobre a vida fora da Terra, uma vez que a água é um componente essencial para a existência de vida.
“Em vez de um oceano aberto como o que temos aqui na Terra, provavelmente estamos falando de algo mais parecido com gelo marinho do Ártico ou aquíferos, o que tem implicações para o tipo de vida que podemos encontrar, [e] também para a disponibilidade de nutrientes, energia e assim por diante”, afirmou Baptiste Journaux, coautor do estudo e professor assistente das ciências da Terra e do espaço na Universidade de Washington, em comunicado.
A história começa com a Cassini, uma sonda lançada em 1997 que passou duas décadas observando Saturno e suas luas. Durante suas investigações, Cassini detectou que a forma de Titã estava “se esticando e comprimindo” enquanto orbitava Saturno. Os autores do novo estudo propuseram que a presença de um oceano profundo poderia permitir essa flexibilidade na crosta sob a influência gravitacional do planeta gigante.
Entretanto, o novo estudo considera o tempo das deformações de Titã. A equipe descobriu que as mudanças na forma do satélite ocorrem cerca de 15 horas após Saturno exercer sua máxima atração gravitacional durante a órbita de Titã. Com base nisso, os cientistas estimaram a energia necessária para alterar a forma da lua, revelando mais sobre seu interior enigmático.
Flavio Petricca, autor principal do estudo e pesquisador pós-douto’ral no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, comentou: “Ninguém esperava uma dissipação de energia tão forte no interior de Titã. Essa foi a prova cabal de que o interior de Titã é diferente do que se inferia de análises anteriores.”
Historicamente, Titã tem sido difícil de observar devido à sua atmosfera espessa e alaranjada, rica em compostos químicos que podem ser precursores da vida. As observações realizadas por Cassini revelaram uma superfície peculiar onde o metano cai como chuva, mares mudam constantemente e as temperaturas ficam em torno de -183 graus Celsius.
O novo estudo sugere que abaixo da camada congelada existe um ambiente com gelo e bolsões de água derretida, criando uma condição mais lamacenta do que se acreditava anteriormente em 2008. Essa consistência viscosa parece explicar o atraso nas alterações na forma da lua. Embora haja água presente nessa mistura, ela não seria tão líquida quanto um oceano aberto.
Além dos dados antigos obtidos pela Cassini, os pesquisadores utilizaram novos modelos termodinâmicos desenvolvidos no laboratório de Journaux para estudar como água, minerais e outros componentes se comportam em mundos como Titã.
Journaux explicou: “A camada aquosa em Titã é tão espessa, a pressão é tão imensa, que a física da água muda. A água e o gelo se comportam de maneira diferente da água do mar aqui na Terra.”
Ainda que à primeira vista essa ausência de um oceano completo possa parecer um revés na busca por vida extraterrestre, a equipe enfatizou que “isso amplia a gama de ambientes que podemos considerar habitáveis“, disse Jones.
Os cientistas também identificaram que podem existir “bolsões de água doce” dentro de Titã em temperaturas favoráveis à vida, em torno dos 20 graus Celsius. Além disso, nutrientes estariam concentrados em pequenos reservatórios dessa água, potencialmente criando condições mais ricas para a vida do que em um oceano menos concentrado, repercute o Live Science.
Futuras observações poderão enriquecer nosso entendimento sobre Titã. A missão Dragonfly da NASA está programada para ser lançada em 2028 e deve chegar ao satélite em 2034. Este será o segundo veículo voador explorando outro mundo além da Terra, após o helicóptero Ingenuity em Marte. Espera-se que as observações da superfície feitas pelo Dragonfly revelem mais sobre onde pode haver vida e quanta água estaria disponível para organismos.
Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.