A possibilidade de os EUA poderem vir a declarar guerra à Venezuela não foi excluída pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, dias depois de Washington ter dado uma ordem de bloqueio a todos os navios petroleiros que queiram entrar ou sair dos portos do país sul-americano.

“Não excluo, não”, afirmou Trump, questionado pela NBC News sobre o cenário de uma declaração de guerra dos EUA à Venezuela, algo que tem estado em cima da mesa desde que o Pentágono começou a abater embarcações alegadamente ligadas ao narcotráfico.

Desde Setembro que foram destruídos 28 barcos no mar das Caraíbas, deixando mais de cem mortos. Na quinta-feira, o Comando Militar Sul dos EUA anunciou que outras duas embarcações foram visadas, causando cinco mortos.


A Administração Trump acredita que estas operações letais são cruciais para neutralizar o fluxo de drogas provenientes da América Latina para os EUA e identificou o líder venezuelano Nicolás Maduro como o cabecilha de um cartel internacional designado como organização terrorista pelo Departamento de Estado.

Nas últimas semanas, o foco inicial da operação contra o narcotráfico dá sinais de crescente expansão, levando muitos analistas a especular sobre a possibilidade de Washington se estar a preparar para um conflito declarado com a Venezuela com o objectivo de derrubar Maduro.

A possibilidade de uma invasão norte-americana da Venezuela tem reacendido os receios de uma nova era de crescente intervencionismo de Washington nos assuntos dos países latino-americanos, reminiscente da Guerra Fria. O Governo brasileiro prontificou-se a mediar conversações diplomáticas entre os dois países para evitar uma subida da tensão.

Esta semana, Trump ordenou um bloqueio a todos os petroleiros que foram alvo de sanções dos EUA, impedindo-os de entrar ou sair da Venezuela, acusando Caracas de ter retirado às empresas norte-americanas os direitos de exploração de petróleo no país. Dias antes, um petroleiro já tinha sido apreendido pelas forças navais dos EUA e Trump, na entrevista à NBC, disse não excluir novas apreensões. Caracas acusa Washington de querer estrangular o sector petrolífero venezuelano, que está na base da economia nacional.

“Se eles forem suficientemente tontos para continuarem a navegar, irão navegar directamente para um dos nossos portos”, afirmou o Presidente norte-americano.

Na quarta-feira, Trump tinha marcado uma comunicação ao país que gerou uma enorme especulação de que poderia servir para anunciar uma invasão terrestre. No entanto, o discurso centrou-se em questões económicas e nada foi dito sobre a Venezuela.

Maduro pede resistência

Em Caracas, a mensagem dominante é de denúncia do que Maduro considera ser uma tentativa de derrube do Governo bolivariano e de submeter a Venezuela aos interesses económicos de Washington. “Não estamos nos tempos da colónia, nem de trocar a liberdade como povo livre que somos pela escravatura, para sermos escravos na nossa terra”, declarou o Presidente venezuelano, citado pelo jornal El Universal.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, confirmou que os EUA não reconhecem a legitimidade de Maduro como chefe de Estado, mas garantiu que o objectivo das operações levadas a cabo na Venezuela é assegurar a “estabilidade regional”.


Embora mantenha as opções em aberto, incluindo a possibilidade de uma declaração formal de guerra, a Administração Trump está pressionada pela opinião pública e pelos próprios compromissos assumidos durante a campanha eleitoral. Para se demarcar das alas mais intervencionistas, mesmo dentro do Partido Republicano, Trump prometeu reduzir o nível de envolvimento externo dos EUA e, ao longo dos primeiros meses do segundo mandato, tem adoptado um perfil de mediador de soluções pacíficas de conflitos.

“Os MAGA adoram fazer explodir barcos, [mas] não querem uma guerra terrestre com a Venezuela”, disse à NBC News a vice-presidente do Conservative Partnership Institute, Rachel Bovard, referindo-se aos apoiantes mais radicais de Trump.

As sondagens mostram que a opinião pública norte-americana não vê com bons olhos um conflito mais alargado com a Venezuela, o que poderá funcionar como um importante factor de dissuasão junto da Casa Branca. Uma sondagem divulgada esta semana mostrava que 63% estão contra acções militares contra a Venezuela, embora entre os eleitores republicanos a maioria apoie esse cenário.

“Podemos ter políticas externas ousadas e loucas quando os custos são baixos, e os custos têm sido baixos aqui até agora, mas, se entrarmos num conflito por mudança de regime, o custo irá aumentar, e a atenção e a oposição também”, disse ao canal televisivo Justin Logan, analista do think tank libertário Cato Institute.