No mundo da arquitetura, a inovação também pode estar no lugar onde se ergue uma casa. É o que tenta provar a dupla Maria João Andrade e Ricardo Cordeiro, cujo trabalho parte sempre do reconhecimento da envolvente, da vegetação dominante e das várias formas como um projeto poderá fazer sentido em determinado terreno.

O resultado desta investigação paisagística está em provas como a Wood House, uma pequena moradia de férias localizada no vale do rio Douro, em Baião, que está farta de somar prémios. A distinção mais recente foi na categoria Jury Winner – House of the Year (Rural) dos Archello 2025.

Este título junta-se a outros reconhecimentos do gabinete dentro e fora de Portugal. Só este ano, o mesmo projeto valeu-lhes o LOOP Design Award 2025 e o Prémio CONSTRUIR 2025 na categoria de Sustentabilidade.

Desde o início, foi pensada como uma residência modular, feita de madeira, guiada pelos princípios da chamada arquitetura verde. “O desafio que nos foi colocado foi projetar um edifício que tivesse o mínimo impacto possível na zona”, explicam os sócios-fundadores da MJARC Arquitectos.

Por detrás deste pedido está um casal português que já conhecia a linguagem e a filosofia do gabinete, acrescenta Maria João. No fundo, queriam um refúgio de pequena dimensão para passar alguns fins de semana em comunhão com a natureza.

A preocupação ambiental definiu a escolha dos materiais usados e do revestimento. Destaca-se o uso da madeira de florestas sustentáveis que, “cromaticamente, nos aproxima da textura das próprias árvores”, quase como se estivesse a criar-se uma estrutura “invisível”. 

A ligação com a envolvente desenvolve-se também da cobertura ajardinada com espécies autóctones, para funcionar como uma “extensão natural do terreno”. “Ao mesmo tempo, permite-nos camuflá-la. Na vista área, nota-se a pertença aquele lugar e vai-se adaptando numa espécie de metamorfose”; acrescenta.

Além de invisível, a estrutura está suspensa sem que tenha sido necessário recorrer a escavações. Esta solução, segundo o atelier, respeita o relevo natural e permite a livre circulação da água e da fauna.

A cobertura ajuda a camuflar.

Quanto ao formato modular, Maria João justifica que se deve ao “período de transição” que se vive na arquitetura, marcado pela falta de mão de obra, sobretudo no interior. “Procuramos métodos construtivos que exijam o mínimo de recursos, respeitando o ambiente e dando resposta ao pedido.”

Concluída em 2024, usa como solução um método que “ainda tem pouca oferta” em Portugal. Na prática, permitiu que a intervenção fosse circunscrita a um período de tempo muito curto. Em dois meses, a casa estava totalmente pronta, uma das maiores vantagens.

O interior também “tentou trazer o máximo do exterior para dentro”, seguindo aquela que à definição do atelier de um verdadeiro refúgio. O chão foi tonalizado em madeira e nas paredes optaram por tons neutros. “Não há obras de arte que quisessem nas paredes, porque aquela paisagem soberba do vale cumpre com essa função”, diz.

Como se trata de uma pequena casa, vários dos espaços assumem uma função dupla. A kitchenette, por exemplo, também é uma zona de leitura e biblioteca, enquanto o quarto inclui uma área de estar que se prolonga para o exterior.

“Há um forte aproveitamento do espaço para que, ao longo do dia, cada área se vá ajustando às necessidades dos proprietários”, continua. “Quisemos dar continuidade a esse aspeto sensitivo e tátil.”

Segue-se a instalação de sanitária que é descrito como “um espaço de tratamento mais sensorial”. A dupla colocou um chuveiro exterior para os donos da casa tirarem partido de estarem num ambiente natural e conseguirem tomar um duche no meio da floresta. “Quisemos provocar as sensações que fazem as pessoas a abandonar a cidade.”

Além disso, colocaram um pátio interior. O objetivo está à vista: estamos dentro da residência e vemos as copas dos pinheiros e das restantes árvores, além de sentirmos a ventilação natural.

“Numa era tecnológica, a arquitetura e a arte devem fazer com que as pessoas reflitam e regressem às origens. Tem a grande vantagem de nos voltar a fazer sentir, olhar ou pensar”, conclui Maria João, refletindo sobre a importância dos prémios: “Mostram que é possível intervir de forma menos intrusiva e sem danificar as áreas”.

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