Quando recebeu uma fotografia sua no telemóvel, mal se reconheceu. Estava a trabalhar de câmara nas mão, em tronco nu, a tentar suportar o calor tailandês, quando teve uma epifania. “Se continuar assim, não vou aguentar muito mais anos”, recorda Leonardo Viegas, fotógrafo de 32 anos.
Nesse dia, em 2023, tomou a decisão de começar a cuidar mais de si, perder peso, ganhar qualidade de vida. No fundo, trabalhar a sua saúde com a mesma dedicação com que encarava a profissão. “Esqueci-me de mim”, admite. Foi o que fez e, em oito meses, fez uma revolução total: perdeu 40 quilos.
Não era só uma questão estética. O corpo pesava, o cansaço acumulava-se. A obesidade, já em grau dois, não se resumia a números: dificultava tarefas simples e retirava-lhe energia. Essa viagem à Tailândia foi o ponto de viragem. Assim que regressou a Portugal, deu início ao plano, sem estratégias mirabolantes, mas com um objetivo muito claro.
A bicicleta que estava esquecida em casa ganhou uma nova função. O fotógrafo, que trabalha por conta própria, fez um acordo consigo próprio: só podia ver séries enquanto pedalasse. “Quando um episódio acaba, queremos sempre ver o próximo. Ao longo do tempo, comecei a ver mais episódios e prometi a mim mesmo que as séries que eu estava mesmo a gostar só as via na bicicleta”, explicou à NiT.
Começou por sessões de 30 minutos. Depois, uma hora. Mais tarde, já fazia três a quatro horas na bicicleta estática. Não por obrigação, mas por prazer. A consistência começou ali.
A mudança na alimentação seguiu-se com o mesmo pragmatismo. “Comia praticamente tudo com massa, era massa com qualquer coisa”, recorda. Passou a começar as refeições com um prato de alface e cenoura ralada, que o ajudavam a controlar o apetite antes de atacar as proteínas.
A rotina foi simplificada e passava por um café com bebida vegetal e meia torrada ao pequeno-almoço e ao lanche; alface com frango ou peixe ao almoço e jantar. Um hábito, contudo, mantém-se até hoje: comer uvas à noite. “Têm tanto açúcar como um chocolate, mas duram mais tempo, entretêm-me e satisfazem-me”.
O processo do Leonardo Viegas.
Nos momentos de desmotivação, recorreu a um truque quase infantil, embora extremamente eficaz: comprou vários pares de calças no mesmo modelo, mas em tamanhos diferentes. De 15 em 15 dias experimentava um novo. E mesmo quando o espelho teimava em não mostrar grandes mudanças, o cinto a fechar mais um furo ou as calças a servirem melhor davam-lhe provas tangíveis de progresso.
Depois de perder 30 quilos, percebeu que precisava de tonificar o corpo. Entrou no ginásio com um personal trainer e assumiu um novo compromisso. “Sempre detestei ginásios, por isso comecei pela bicicleta. Mas sabia que precisava de ajuda”, recorda. Fazia dois treinos semanais, com foco na parte superior e inferior do corpo. O acompanhamento foi sempre essencial para manter o foco.
Hoje, a corrida já ocupa grande parte dos treinos. Em apenas um ano, correu mais de 1600 quilómetros, cerca de 50 por semana. “Encontrei um refúgio na corrida”, admite. A bicicleta continua a fazer parte da rotina, mas apenas nos dias em que a chuva não dá tréguas.
Apesar dos resultados visíveis, manter o peso tornou-se o verdadeiro desafio. “Chegado ao objetivo, pensas: ‘E agora?’”. O açúcar, conta, continua a ser a maior tentação. “O cérebro diz que podemos comer porque já emagrecemos, mas amanhã vai voltar a dizer o mesmo. É viciante. Se não tiveres controlo emocional, vais voltar sempre para trás.”
Ao longo do último ano, foi partilhando o percurso no Instagram. Recebeu mensagens, testemunhos e perguntas. Muitas pessoas compraram bicicletas estáticas inspiradas no seu exemplo. E, para ajudar ainda mais quem quer seguir este caminho, decidiu escrever um ebook. Começou em fevereiro, quando completou um ano desde a perda dos primeiros 30 quilos, e foi publicado no início de dezembro. Está à venda por 11,99€.
No livro, partilha os hábitos, a alimentação, o plano de exercícios e tudo o que aprendeu. Eros incluídos. “Queria ter tido acesso a algo assim quando comecei”, diz. E quanto à pele a mais? Está lá e não é para esconder. “Hoje vejo-a como um lembrete de onde vim.”