O presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar Branco, despediu-se de Mariana Mortágua e abriu uma ronda excecional para que todos os partidos pudessem deixar uma mensagem final. A ainda deputada do Bloco de Esquerda ouviu elogios de todas as bancadas com exceção do Chega e do CDS. No final, garantiu que vai “continuar a luta política”, elogiou os trabalhadores do Parlamento e pediu que sejam “reconhecidos como trabalhadores da Assembleia”.

A iniciativa partiu do Livre, com a líder parlamentar, Isabel Mendes Lopes, a aproveitar os últimos segundos disponíveis nesta última sessão plenária do ano para deixar a Mariana Mortágua a pergunta retórica sobre se “vai continuar a lutar” pelos ideais. Na resposta, Mariana Mortágua disse que “as vozes que se ouvem daquele lado [numa referência à bancada do Chega] são o maior elogio ao trabalho feito” e que, também por isso, “podem continuar a contar com empenho e com luta política”.

No final da ordem do dia, Aguiar Branco juntou-se à homenagem para destacar a “lealdadade” no combate político, recordando os tempos do Governo liderado por Passos Coelho e que “a visão diferente não impede de respeitar a forma como defendeu as ideias e a forma como honrou o mandato” recebido pelos portugueses, desejando felicidade à agora antiga líder do Bloco de Esquerda.

Também o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, não deixou de referir as diferenças entre os dois partidos e até de responsabilizar Mariana Mortágua “por várias decisões que prejudicaram o país e os portugueses” mas que este momento é de “encontrar o chão comum” e, por isso, “com respeito e consideração pessoal dizer que foi de grande lealdade no debate político e que engrandeceu a casa da democracia pela qualidade técnica”, não desejando sorte ao partido mas sim à deputada.

Pelo PS, foi Marina Gonçalves a usar da palavra para “agradecer por todos os momentos” e por ter sido “uma voz ativa com soluções” e discordando do PSD para vincar que “algumas das decisões foram fundamentais para os portugueses” e que “a marca fica”.

A Iniciativa Liberal, pelo presidente da bancada, Mário Amorim Lopes avisou que “há um oceano que nos separa mas que não apaga a forma como, com combatividade e convicção, serviu todos os que votaram no BE”, enquanto Rui Tavares diz que se “orgulha” por saber que “há mais que nos une do que aquilo que nos separa”, despedindo-se com um “até amanhã e até sempre, camarada”.

Já o PCP não deixou de recordar os “muitos momentos em que existiu convergência de posições”, com Paula Santos a dizer que foi possível trabalhar “com cordialidade e respeito pelo debate”. Filipe Sousa, do Juntos pelo Povo, apesar do pouco tempo em que coincidiu com o mandato de Mariana Mortágua desejou também felicidades à deputada.

Na despedida, Mariana Mortágua desejou “paciência e firmeza aos bravos que insistem em defender a democracia na sua casa” e destacou os funcionários da Assembleia da República deixando uma última vontade de que “todos os trabalhadores possam ser reconhecidos dentro da carreira da Assembleia da República”.

Mariana Mortágua foi aplaudida de pé por todas as bancadas da esquerda e pela Iniciativa Liberal e também por vários deputados do PSD.

Em sentido inverso ao tom geral, Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, critica a “alteração clara à ordem de trabalhos” recordando que “vários deputados já saíram e não tiveram esta deferência, incluindo o deputado Pedro Nuno Santos”, levando Aguiar Branco a recordar que o antigo líder do PS tem apenas o mandato suspenso. Pedro Pinto acrescentou que Mariana Mortágua “devia ter cumprido o seu mandato até ao fim porque foi para isso que foi eleita” e agradeceu por “quase ter acabado com o Bloco de Esquerda”.

No mesmo tom, Paulo Núncio, líder da bancada do CDS admitiu não ter “nada de bom a dizer na despedida” e fez uma menção ao polémico gesto que Mortágua dirigiu a Paulo Núncio desejando um “feliz e santo Natal e um bom futuro na cultura rock”, o que mereceu um curto puxão de orelhas de Aguiar Branco.

Mariana Mortágua vai renunciar ao mandato depois de ter deixado a liderança do Bloco de Esquerda, tendo sido eleita deputada pela primeira vez em 2013, cumprindo seis legislaturas. A ex-coordenadora vai ser substituída no Parlamento por Fabian Figueiredo e, a espaços, por Andreia Galvão.