Astrônomos que estudam o sistema estelar Fomalhaut, localizado a apenas 25 anos-luz da Terra na constelação Piscis Austrinus, fizeram uma descoberta notável: testemunharam o resultado de duas colisões catastróficas envolvendo planetesimais, os blocos de construção de planetas. Este evento cósmico é considerado sem precedentes pela equipe de pesquisa.

Nas últimas duas décadas, observações meticulosas revelaram que não apenas uma, mas duas colisões devastadoras ocorreram ao redor de Fomalhaut. Esses planetesimais, maiores do que o asteroide que extinguiu os dinossauros, colidiram violentamente, resultando em nuvens massivas de detritos brilhantes.

De acordo com o portal Live Science, o sistema Fomalhaut é conhecido por sua aparência peculiar, sendo comparado ao “Olho de Sauron” devido à forma do seu cinturão de poeira. Esta estrutura, que se estende a 133 unidades astronômicas (UA) – equivalente a 93 milhões de milhas ou 150 milhões de quilômetros, a distância média entre a Terra e o Sol – oferece uma visão impressionante da juventude do nosso próprio sistema solar há mais de 4 bilhões de anos.

Um estudo recente liderado por Paul Kalas, astrônomo da Universidade da Califórnia em Berkeley, descreveu em detalhes esses dois eventos catastróficos com o objetivo de resolver um mistério planetário. No início dos anos 2000, uma observação revelou um objeto luminoso que foi inicialmente interpretado como um exoplaneta coberto de poeira e denominado Fomalhaut b.

No entanto, com o desaparecimento repentino deste objeto e o surgimento de outro ponto brilhante nas proximidades ao longo de 20 anos, ficou claro para os pesquisadores que estavam observando nuvens de detritos geradas por um “choque cósmico” e não um planeta.

Os eventos de colisão agora identificados como Fomalhaut cs1 e cs2 surpreenderam os cientistas devido à sua frequência inesperada; teoricamente, tais colisões devem ocorrer apenas uma vez a cada 100 mil anos. Contudo, as observações indicam que pelo menos duas ocorreram em um intervalo relativamente curto.

Baseando-se nessa nova linha do tempo, os pesquisadores estimam que cerca de 22 milhões de colisões semelhantes podem ter ocorrido durante os 440 milhões de anos da vida do sistema Fomalhaut. Kalas afirma que se fosse possível retroceder apenas 3 mil anos na história do sistema, ele estaria repleto dessas colisões impressionantes.

A análise dos fatores envolvidos nas colisões sugere que as nuvens de detritos foram formadas por planetesimais com cerca de 60 quilômetros de diâmetro, quatro a seis vezes maiores do que o asteroide que causou a extinção dos dinossauros.

Os dados indicam também que o sistema Fomalhaut pode abrigar cerca de 1.8 massas terrestres desses planetesimais primordiais, totalizando aproximadamente 300 milhões deles. Além disso, existem outras 1.8 massas terrestres em corpos menores que medem menos de 0.3 quilômetros. Esses pequenos fragmentos são essenciais para manter o cinturão de poeira ativo e brilhante ao redor da estrela.

Embora Fomalhaut b já não exista como um planeta reconhecido, é possível que um corpo oculto ainda resida no sistema. A pesquisa sugere que existe uma chance de 10% de que as colisões cs1 e cs2 não sejam eventos aleatórios; sua proximidade temporal e espacial pode indicar a presença gravitacional não visível de um exoplaneta desconhecido.


Giovanna Gomes

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.