André Ventura chegou a votar em José Sócrates quando o socialista, na altura líder do PS, se candidatou a primeiro-ministro e venceu. No livro Dias de Raiva, do jornalista Alexandre R. Malhado, o presidente do Chega não só o assumiu como confessou que se sentiu enganado, como recorda a revista Sábado, que publica um áudio dessa mesma gravação.

O agora líder do Chega, na altura candidato à Câmara Municipal de Loures pelo PSD, revelou pela primeira vez o sentido de voto em 2017: “Era jovem e parecia uma voz do povo. Aqui entre nós, fui um dos muitos que votou nele.” E na entrevista para o livro Dias de Raiva (gravada e divulgada pela revista Sábado aqui) André Ventura confirmou-o:

Alexandre R. Malhado (AM): Havia dentro do PS um discurso populista, na medida em que tivemos o líder José Sócrates.

André Ventura (AV): Enganou-me a mim.

AM: Pois, exato. Chegaste a votar e lembro-me de teres dito que te enganou.

AV: Mas enganou mesmo. Foi o único líder socialista que me enganou. Porque na altura, de facto, via-o com firmeza, coragem. Gostava da forma de ele se exprimir e tudo. Mas depois com a questão da licenciatura e do caso Freeport, fiquei com um pé atrás. Enganou-me uma vez, mas não me enganou mais.”

O tema surgiu no debate entre André Ventura e João Cotrim Figueiredo, onde  ambos tentaram capitalizar com um trunfo já usado por outros protagonistas presidenciais nesta pré-campanha: José Sócrates. O primeiro a fazê-lo foi o ex-presidente da IL que, depois de ouvir que era o “candidato do Príncipe Real” e que “fala para um segmento de pessoas de elite e malta amigalhaça que se representa nos bairros mais importantes de Lisboa e do Porto”, acusou Ventura de ter passado “de ser inspetor tributário para dar conselhos a milionários para fugir aos impostos” e de ter defendido “Lalanda de Castro, o grande amigo de José Sócrates”.

Aproveitando o embalo, Cotrim Figueiredo meteu a farpa: “Não é surpresa, tu já confessaste que votaste no José Sócrates.” André Ventura desmentiu, dizendo que “é falso”, que nunca o confessou e que são “notícias falsas que andam a espalhar”, o que deixou o adversário liberal boquiaberto. “Saiu num livro e num jornal”, argumentou Cotrim, com Ventura a sublinhar que “a maior parte dos livros” sobre si e o Chega “são falsos”.

Nos minutos seguintes, Cotrim iria recuperar o tema para esclarecer: “Se por acaso não é verdade que votaste no José Sócrates e que as notícias são falsas… assumes aqui que nunca votaste em José Sócrates?” “Não, nunca votei em José Sócrates“, concluiu Ventura. O líder do Chega recuperaria José Sócrates para o atirar contra o adversário: “Na altura [a que Cotrim se referiu] eu era inspetor tributário e tinha acabado de fazer um estágio, não sei se sabe o que é isso. Não estava na TVI a despedir a Manuela Moura Guedes a pedido do Sócrates.” “Isso é falso”, assegurou Cotrim, justificando que saiu “incompatibilizado com os acionistas, esses sim amigos do Sócrates”.

José Sócrates já tinha entrado na campanha presidencial quando assumiu publicamente que iria votar em Henrique Gouveia e Melo e voltou a entrar no debate entre Cotrim e Ventura, sempre usado como uma arma de arremesso e uma espécie de ativo tóxico. No rescaldo, o ex-líder liberal acabou por levar a melhor, tendo em conta que o áudio agora conhecido prova que Ventura assumiu mesmo ter votado no ex-primeiro-ministro socialista.

Ventura e Cotrim, o debate entre um “Presidente que não o quer ser” e uma “reforma dourada”