Nos últimos tempos, sempre que o Sporting vai aos Açores vem de lá com a sensação de que podia facilmente ter perdido. Nesta quinta-feira, tal como acontecera no jogo para o campeonato em Novembro, os “leões” estiveram em grandes apuros frente ao Santa Clara, mas foram salvos por uma decisão arbitral que será polémica. Foi preciso um prolongamento, mais 19 minutos de compensação, para os “leões” seguirem em frente na Taça de Portugal, para os quartos-de-final, com um triunfo por 2-3 sobre os açorianos. Ioannidis marcou o golo da vitória que mantém o detentor do troféu em prova, mas do que toda a gente vai falar é do golo do empate, um penálti convertido por Suárez – e que João Pinheiro só deu após 12 minutos a ver repetições.
O Santa Clara tem sido um problema para o Sporting. Porque é uma equipa com pontos fortes para combater os pontos fortes do Sporting e aproveitar os seus pontos fracos. Passamos a explicar. A formação açoriana, tal como é idealizada por Vasco Matos (um antigo extremo/lateral formado nos “leões”, sabe defender bem com muitos e atacar bem com poucos, o que encaixa bem no estilo “leonino”, de ataque posicional e pressão alta, sempre com muita gente no meio-campo adversário – já provou ser eficaz, mas também já mostrou alguma vulnerabilidade em equipas que apostam no jogo directo.
E foi assim que o Santa Clara criou as primeiras aproximações de perigo logo nos primeiros minutos, um remate de Gabriel Silva aos 2’ e outro, de Lucas Soares, aos 4’, este com alguma dificuldade para o guarda-redes Virgínia. Aos momentos de perigo dos açorianos, o Sporting respondeu com um golo. Jogada pela direita com cruzamento de Fresneda, João Simões recebeu na área e, ao segundo toque, fez o 0-1 – um grande remate à meia-volta do jovem médio “leonino”.
Foi um grande golo, a surgir do domínio territorial do Sporting, mas a verdade é que os “leões” pareciam mergulhados num mar de pouca genica e muitos erros individuais e colectivos. E foi o Santa Clara a aproveitar para se aproximar com perigo mais um par de vezes, uma que só não deu golo porque Eduardo Quaresma tirou a bola a Gabriel Silva. A outra deu o golo do empate, precisamente numa daquelas situações em que o Sporting ficou curto atrás.
Aos 28’, uma bola longa quase desde a grande área chegou a Lucas Soares, o lateral brasileiro tirou Matheus Reis do caminho e ficou com via aberta para o remate. Pé esquerdo na bola, Virgínia com a visão tapada e remate cruzado para o 1-1. Uma grande resposta da formação açoriana ao golo sofrido, resistindo à tentação de arriscar demasiado com tanto tempo para jogar. O Sporting, por seu lado, estava a ser vítima da sua própria sobranceria. Até ao final da primeira parte, uma ou outra arrancada de Alisson pela esquerda, outras de Maxi pela direita – mas nenhum com perigo imediato para Neneca. Trincão e Suárez, homens habitualmente muito em jogo, andavam escondidos.
Na segunda parte, os “leões” foram ligeiramente melhores, o Santa Clara manteve o nível colectivo alto – e, quando foi preciso, o seu guarda-redes Neneca, habitual suplente, também disse presente. Aos 52’, o guardião brasileiro aplicou-se para deter um remate perigoso de Maxi, após cruzamento de Matheus Reis. Foi o melhor que o Sporting conseguiu fazer durante largos minutos, mesmo com o reforço do ataque, primeiro com Ioannidis, depois com o jovem Blopa.
Avancemos até aos 85’. Numa situação de adiantamento ofensivo sem grande propósito, o Sporting perde a bola e o Santa Clara, sentindo que tinha aqui uma janela, foi com tudo. A bola parecia sair pela linha lateral, mas não saiu e foi para Luquinhas, que fez o passe perfeito para Gabriel Silva à entrada da área. O avançado brasileiro rodou, tirou Inácio do caminho e rematou – a bola bateu em Quaresma e entrou na baliza. Vantagem para o Santa Clara, e não se podia dizer que era injusto.
Agora, o Sporting tinha de lutar para não ser eliminado. Pouco depois de fazer o 2-1, o Santa Clara ficou reduzido a dez – expulsão de Paulo Victor num daqueles lances de molhada em que um jogador do Sporting acabou no chão. Logo a seguir, uma das mais longas tomadas de decisão arbitral desde que foi introduzido o VAR. Lance na área do Santa Clara, entre Tiago Duarte e Hjulmand, com o defesa a tocar na cara do dinamarquês com a mão.
Entre as revisões do VAR e o visionamento directo de João Pinheiro, foram 12 minutos e meio. Situação clara e óbvia? Pelo tempo que demorou a decisão, não era. Mas João Pinheiro decidiu-se por assinalar o castigo – e não vamos julgar a justiça da decisão, mas antecipamos que esta será muito comentada nos próximos tempos. Mais um bocado até Suárez avançar para marcar dos 11 metros e fazer o empate para o Sporting. Tempo de jogo decorrido: 116 minutos. E ainda teríamos mais 30.
Com mais um, o Sporting finalmente conseguiu fazer um cerco eficaz e permanente à área açoriana. Aos 93’, Mangas atirou por cima, aos 98’, Ioannidis fez o 2-3, após cruzamento de Trincão. E o Sporting, no tempo extra depois do tempo extra, recuperou a liderança do marcador, algo que já não tinha desde a primeira parte. E o Santa Clara, já fraco de pernas, não conseguiu responder.