O tecido recorre a um corante sustentável baseado em bactérias. Estes microrganismos são capazes de absorver radiação e deixar uma marca visível ao olho humano. Uma solução que a NASA procura para resolver um problema.

Ilustração de bactérias que poderão ajudar a NASA a criar tecido vivo para o Espaço

Ciência, moda e exploração espacial… a NASA precisa disto

A Escócia deu um passo inesperado na convergência entre ciência e moda com o desenvolvimento de um tecido têxtil “vivo”, capaz de reagir à radiação.

Trata-se de uma inovação que poderá resolver um dos grandes desafios da NASA e da exploração espacial em geral: detetar a exposição à radiação sem recorrer a sensores eletrónicos.

O avanço surge no âmbito do projeto Pigmented Space Pioneers, resultado de uma colaboração entre instituições científicas escocesas e o setor do design.

O objetivo inicial passava por investigar corantes têxteis sustentáveis baseados em bactérias. O resultado evoluiu para um material capaz de registar visualmente a radiação ultravioleta e ambiental, deixando uma marca cromática progressiva diretamente percetível ao olho humano.

Ilustração de um astronauta com um fato espacial desenvolvido com tecido composto por camadas sobrepostas impregnadas com pigmentos bacterianos de diferentes cores.

Como funciona o tecido reativo

O tecido é composto por camadas sobrepostas impregnadas com pigmentos bacterianos de diferentes cores. À medida que a radiação incide sobre o material, os pigmentos degradam-se e perdem intensidade, revelando as camadas inferiores.

Desta forma, o tecido fornece uma referência clara sobre o nível de exposição acumulada à radiação.

Um sistema de alerta sem eletrónica

O projeto é liderado pelo doutor Gilles Bailet, professor de tecnologia espacial na Universidade de Glasgow, e conta com financiamento do EPSRC Impact Acceleration Account.

O investigador estabelece um paralelismo direto entre o comportamento do tecido e o impacto da radiação nos seres humanos.

A exposição à radiação fragmenta os pigmentos das bactérias da mesma forma que danifica o ADN humano.

Para as bactérias, isso traduz-se numa perda de saturação da cor, mas para nós significa um maior risco de mutações genéticas e cancro. Procuramos criar um sistema de aviso precoce inequívoco que funcione apenas com a visão.

Explicou Bailet.

Para testar o desempenho fora da atmosfera terrestre, a equipa irá enviar uma amostra do tecido para a órbita baixa da Terra, a bordo de um satélite PocketQube chamado SpinnyONE.

O satélite, desenvolvido em parceria com a empresa escocesa Spinning Around, irá documentar as alterações de cor ao longo de vários meses de exposição no espaço.

Quando o tecido multicamadas e multicolorido é exposto à radiação e à luz ultravioleta, os corantes em cada camada desbotam, revelando a camada abaixo e deixando evidências visíveis do nível de radiação que absorveram. A equipa planeia enviar uma amostra do tecido para a órbita da Terra no início do próximo ano a bordo de um pequeno satélite chamado PocketQube para testar o desempenho do corante no espaço.

NASA: aplicações no espaço e na Terra

Os investigadores consideram que este material poderá ser utilizado em vestuário para astronautas ou como revestimento de equipamento sensível em futuras missões lunares.

Na Terra, o tecido poderá ter aplicações diretas em ambientes de saúde, como roupas para profissionais de radioterapia ou diagnóstico por imagem, bem como em vestuário quotidiano destinado a controlar a exposição solar.

A componente biológica do projeto foi desenvolvida pela doutora Keira Tucker, do laboratório ASCUS – Art and Science Lab.

Estamos a explorar bactérias comuns para criar alternativas mais sustentáveis aos corantes sintéticos.

Referiu.

Uma dessas bactérias, Serratia marcescens, é frequente em ambientes domésticos, o que reforça o potencial do projeto para transformar um recurso comum numa ferramenta essencial de segurança.