MI6

Blaise Metreweli, nova diretora do MI6
“Operamos agora num espaço entre a paz e a guerra”. Blaise Metreweli falou pela primeira vez, e deixou bem clara a sua marca. “Apesar dos ciberataques”, elogiou uma China “em transformação” — em contraste com a Rússia, que adjetivou de “agressiva, expansionista e revisionista”.
No seu primeiro discurso como líder dos serviços de informações externas do Reino Unido, Blaise Metreweli percorreu um vasto leque de temas sugerindo, de forma implícita, que a China deve ser tratada de maneira diferente de uma Rússia “agressiva, expansionista e revisionista”.
À primeira vista, o primeiro discurso da nova diretora-geral do MI6 teve muitos dos mesmos vilões e heróis que marcaram as intervenções dos seus antecessores, diz o Politico.
Mas, na sua primeira aparição pública, na segunda-feira, a antropóloga geek que se tornou a primeira mulher a chefiar o MI6, deixou um sinal forte de que pretende imprimir a sua própria marca no cargo, ao sublinhar uma vaga de ameaças interligadas às democracias ocidentais.
A falar na sede do MI6, em Londres, Metreweli, que sucedeu a Richard Moore em outubro, destacou uma confluência de ruturas geopolíticas e tecnológicas, avisando que “a linha da frente está em todo o lado” e acrescentando: “operamos agora num espaço entre a paz e a guerra”.
Num discurso pontuado por referências a uma ordem transatlântica em transformação e ao crescimento da desinformação, Metreweli fez uma alusão notoriamente escassa à relação historicamente próxima com os EUA na recolha de informações — um pilar do entendimento de intelligence do Reino Unido ao longo de décadas.
Em vez disso, afirmou que “estão a formar-se novos blocos e identidades, e as alianças estão a recompor-se”.
Esta passagem será amplamente interpretada como um reconhecimento oficial de que a segunda administração de Donald Trump obrigou os serviços de segurança a ajustarem a sua atuação, apostando mais na construção de relações multilaterais.
Em contraste com um longo excerto sobre a gravidade da ameaça russa para o Reino Unido, a China mereceu apenas uma referência ligeira às suas tendências para ciberataques contra o país — e foi descrita, num tom mais elogioso, como “um país onde está a ocorrer uma transformação central neste século”.
Metreweli, que cresceu em Hong Kong e, por isso, conhece de perto o sistema chinês, avançou com cautela em torno do risco de conflito no mar do Sul da China e das atividades de espionagem de Pequim dirigidas a políticos britânicos — e até à família real. Numa frase cuidadosamente colocada, observou que iria “romper com a tradição e não vos vou fazer uma visita guiada global às ameaças”.
A sugestão implícita da nova diretora dos espiões britânicos é a de que a China exige um tratamento diferente da política de confronto claro e frontal com uma Rússia “agressiva, expansionista e revisionista”.
Fontes dentro do serviço sugerem que a estratégia britânica para a China procura evitar a confrontação, de modo a aprofundar a recolha de informações e a permitir uma relação económica mais produtiva com Pequim.
Observadores da linha mais dura do Secret Intelligence Service poderão ter erguido as sobrancelhas perante a ideia de Metreweli de que o “poder de convocação” do serviço lhe permitiria “reduzir tensões”.
Não houve, porém, dúvidas quanto à profunda preocupação de Metreweli com os efeitos da desinformação e da distorção nas redes sociais, num enquadramento que pareceu tão atento aos titãs tecnológicos norte-americanos como às ameaças convencionais lideradas por Estados:
“Estamos a ser contestados do campo de batalha à sala de conselho, e até aos nossos cérebros, à medida que a desinformação manipula a forma como nos entendemos uns aos outros.”
Ao declarar que “alguns algoritmos se tornam tão poderosos como Estados”, pareceu apontar a plataformas como o X, de Elon Musk, e o Facebook, detido pela Meta de Mark Zuckerberg.
Metreweli avisou que “ferramentas hiperpersonalizadas podem tornar-se um novo vetor de conflito e controlo”, afetando sociedades e indivíduos em “minutos, não meses — e o MI6 tem de operar também neste novo contexto”.
A nova diretora usou várias vezes o possessivo, falando de “o meu serviço” ao longo da intervenção — mais um sinal de que pretende deixar um cunho distintivo no cargo, agora que, com apenas 48 anos, herdou a célebre caneta de tinta verde com que o chefe do serviço assina a correspondência.
Metreweli, que estudou antropologia na Universidade de Cambridge, é uma operadora experiente em teatros de guerra e passou por uma comissão no MI5, os serviços de informações internos.
Conseguiu o cargo em grande medida graças à experiência acumulada na direção do ramo científico e tecnológico do MI6, o “Q”, que visa manter secretas as identidades dos agentes e desenvolver novas formas de evitar ameaças.
O chefe do MI6, comummente referido como ‘C’, (embora no universo fictício de James Bond lhe seja dado o nome de código de “M”), é o único membro dos serviços secretos britânicos cuja identidade é conhecida publicamente.
É a primeira titular do cargo a usar um enorme alfinete, em bijutaria, em forma de escaravelho, sobre o seu sóbrio traje azul-marinho. Não é improvável que, em Moscovo e em Pequim, haja quem tente decifrar o significado desse detalhe.