O “crescimento aparentemente imparável das energias renováveis” em todo o mundo foi considerado o Avanço do Ano de 2025 para a revista científica Science, um reconhecimento que coloca a transição energética ao lado de marcos históricos como a descoberta do bosão de Higgs, em 2012, ou o desenvolvimento da vacina contra a covid-19, em 2020, sendo a primeira vez que um progresso no sector da energia recebe esta distinção.
A atribuição do galardão Breakthrough of the Year fundamenta-se num ano de viragem em que as energias solar e eólica superaram, pela primeira vez, o carvão na matriz energética global, alcançando 34,3% de participação na geração de electricidade mundial face aos 33,1% do combustível fóssil no primeiro semestre de 2025.
Este marco foi impulsionado por um aumento de 64% nas instalações solares a nível mundial durante a primeira metade do ano, permitindo que as renováveis cobrissem sozinhas todo o crescimento da procura global por electricidade nesse período.
Relatórios da Agência Internacional de Energia reforçam esta tendência, ao projectar que a capacidade renovável aumente quase 4600GW até 2030, um valor que representa o dobro da expansão registada nos últimos cinco anos.
Opção mais económica
A Science destaca que as tecnologias limpas deixaram de ser apenas uma meta teórica ou uma possibilidade para se tornarem uma opção real — mais prática, económica e acelerada — para a descarbonização da economia global, trazendo também competitividade.
Graças à versatilidade e à sua natureza modular, descreve a publicação, as tecnologias renováveis promovem a auto-suficiência energética não só dos países, mas também de pequenas cooperativas, empresas e comunidades locais.
A facilidade de instalar sistemas de pequena escala, como painéis solares em telhados, tornou-se uma solução viável e económica para levar electricidade a zonas remotas, em particular no Sul Global, garantindo segurança energética e baixos custos a milhões de pessoas.
Esta flexibilidade permite que estas populações deixem de estar dependentes da importação de combustíveis fósseis e de infra-estruturas centralizadas, passando a gerir de forma autónoma os seus próprios recursos.
Liderança chinesa
A China é destacada como líder desta mudança de paradigma no sistema energético global, responsável por quase 60% do crescimento global. O país domina a produção de painéis solares, turbinas eólicas e baterias de lítio, tendo conseguido tornar estas tecnologias as mais baratas do planeta.
Em contraste com o avanço chinês, os Estados Unidos enfrentam o que a Science classifica como um retrocesso político e económico sob a administração Trump. O Governo norte-americano tem optado por incentivar a exploração de combustíveis fósseis em propriedades federais e retirar apoios financeiros à mobilidade eléctrica.
Segundo o editorial da revista, os EUA estão a desperdiçar a oportunidade de capitalizar tecnologias que o próprio país ajudou a inventar, perdendo poder geopolítico e receitas de exportação num momento em que a procura global por energia limpa dispara.
Esta divergência política é visível, por exemplo, no que toca à inteligência artificial (IA), que tem intensificado a necessidade de uma transição energética acelerada, devido ao elevado consumo de energia dos centros de dados necessária para o seu funcionamento. Enquanto as directrizes norte-americanas privilegiam o uso de energias convencionais para alimentar centros de dados, com o prolongamento do tempo de vidas das centrais a carvão, outras regiões apostam em fontes limpas para sustentar esta tecnologia.
O domínio chinês na cadeia de abastecimento tem gerado tensões geopolíticas que podem dificultar a cooperação internacional, mas a Science considera que o impacto ambiental directo da expansão das renováveis já abrandou o crescimento das emissões de gases com efeito de estufa, aproximando o mundo do pico de carbono.
Transição justa
Na América Latina e na região das Caraíbas, o cenário é positivo, com 17% da electricidade a ser gerada por fontes eólicas e solares, o que supera a média mundial. A energia hidroeléctrica representa uma fatia de 41% da geração de electricidade nestes países, contribuindo significativamente para que apresente baixas emissões de gases com efeito de estufa. Vários países da região assumiram compromissos para atingirem 80% de renováveis até 2030.
Alguns desafios estruturais e estrangulamentos críticos continuam a existir, como a necessidade urgente de adaptação das redes eléctricas e o armazenamento de energia em larga escala. Estas soluções serão fundamentais para gerir a intermitência da produção solar e eólica. A transição também tem sido dificultada pela persistência do carvão como fonte de apoio em muitos países, assim como pela complexidade técnica de electrificar sectores industriais pesados.
Outros estudos têm chamado a atenção para o facto de esta mudança de paradigma energético ter de ser uma transição justa, já que a distribuição massiva de infra-estruturas tem custos sociais e ecológicos significativos que não podem ser ignorados. Além disso, a dependência de materiais como o lítio, o cobalto e terras raras levanta não apenas questões geopolíticas, mas também preocupações graves com os direitos humanos e os impactos ambientais em comunidades locais e indígenas.