Entre aromas de manteiga quente, chocolate derretido e receitas que atravessam gerações, abriu recentemente em Setúbal uma nova pastelaria que está a conquistar quem passa pela porta, não apenas pelos doces, mas pela história que os sustenta.
A Boulangerie by Célia Almeida nasceu no início de dezembro e traz à cidade um conceito inspirado nas pastelarias francesas, pensado para ser um verdadeiro salão de chá, onde o tempo abranda e o conforto vem antes de tudo.
A casa abriu portas a 3 de dezembro, com inauguração oficial no dia 7, depois de um processo tão intenso, quanto emocional. Em menos de um mês, mãe e filha transformaram um espaço no centro da cidade num refúgio acolhedor, onde tudo é feito de forma artesanal, com produção própria, receitas tradicionais e um cuidado quase cerimonial com cada detalhe, desde a decoração natalícia às mantas disponíveis para quem se senta.
Por detrás do balcão está Célia Almeida, pasteleira desde criança, e à frente da gestão encontra-se Joana Almeida, a filha que sempre acreditou que o talento da mãe merecia uma casa própria. Juntas, criaram um espaço onde o que mais importa é a tradição, o rigor e o cuidado com os clientes.
Uma vida dedicada à pastelaria
A história da Boulangerie começa muito antes da abertura das portas. Começa na infância de Célia Almeida, numa família onde a pastelaria era mais do que um ofício, era uma herança. A mãe de Célia era pasteleira e, desde cedo, a filha começou a assumir responsabilidades que moldaram o seu futuro.
“Desde os nove anos que assumia o lugar da minha mãe quando ela ia de férias”, recorda. “Não tinha hipótese de ser outra coisa na vida. A minha mãe dizia-me ‘ou és pasteleira ou vais para a fábrica de peixe’, e a segunda opção era o meu pior pesadelo”.
Essa ligação geracional à profissão acompanhou-a ao longo de décadas. Célia nunca deixou a pastelaria, mesmo quando a vida a levou para o Alentejo, onde chegou a ter um espaço próprio de revenda e onde continuou a produzir para grandes superfícies, escolas e clientes regulares.
Durante anos, a Confeitaria Célia Almeida funcionou nos bastidores, alimentada por encomendas, madrugadas longas e uma reputação construída no silêncio, que chegou às proporções de enviar para grandes cadeias de supermercados.
Foi também nesse percurso que Joana e o irmão mais velho cresceram, já em Setúbal, acompanhando à distância o trabalho da mãe. Quando as dificuldades em encontrar mão de obra no Alentejo se tornaram evidentes, a decisão foi clara: trazer Célia para mais perto da família.
Durante algum tempo, trabalhou numa pastelaria em Palmela, mas algo continuava a faltar, um espaço onde pudesse finalmente ser dona do seu tempo, das suas receitas e da sua identidade.
De Paris para Setúbal: um conceito francês pensado para acolher
A ideia de abrir uma pastelaria francesa não surgiu por acaso. Joana e Célia sempre se sentiram atraídas pelo ambiente das boulangeries parisienses, que conheceram em várias viagens. Não queriam uma pastelaria comum, de balcão rápido e consumo apressado, mas sim um espaço onde as pessoas se sentassem, conversassem e sentissem que estavam a ser cuidadas.
“Queríamos um ambiente calmo, um salão de chá, diferente das pastelarias tradicionais, onde as pessoas se sintam acolhidas e procurem qualidade”, explica Joana. Esse conceito está presente em cada pormenor do espaço, desde a música suave e decoração elegante e discreta até à forma como os produtos são apresentados e servidos.
Célia Almeida com a filha, Joana
A decisão de avançar foi repentina. “No final de outubro decidimos ver um espaço. Em menos de um mês preparámos tudo e abrimos”, conta Joana. O espaço já tinha sido anteriormente ocupado pelo Trigo Real, um nome que decidiram manter como forma de respeito pelo passado. “Queríamos honrar esse legado e manter a ligação à história do espaço”.
Para o Natal, decidiram ir ainda mais longe: criaram uma decoração especial, reforçaram o conforto com mantas disponíveis para os clientes e apostaram numa atmosfera que convida a ficar. “Queremos que as pessoas sintam que estão em Paris, mas com o calor humano de Setúbal”, explica Joana.
Uma pastelaria onde tudo é feito com receitas tradicionais
Na Boulangerie by Célia Almeida, nada chega de fora. Todos os dias, ainda de madrugada, Célia entra na cozinha para garantir que a montra abre cheia, fresca e fiel ao compromisso artesanal. É um ritmo exigente, mas que a pasteleira conhece como ninguém.
Os doces conventuais são um dos grandes pilares da casa e seguem métodos antigos, sem atalhos. “O doce de ovos e os ovos moles são feitos à moda antiga. São 50 minutos sempre a mexer no tacho”, explica Célia, sublinhando que é esse tempo que faz a diferença no sabor e na textura.
Entre as especialidades para o Natal encontram-se o pão de rala, trouxas de ovos, toucinho do céu, lampreias, azeviias, bolo-rei, bolo-rainha e o tradicional escangalhado, todos disponíveis por encomenda até dia 22 de dezembro. Para a ceia, há ainda sonhos, rabanadas e versões de azevias de grão e de batata-doce, pensadas para manter viva a tradição natalícia.
Mas a casa não vive apenas da época festiva. Os croissants artesanais (entre 1,70€ e 6€), feitos diariamente, assumem sabores contemporâneos como o chocolate do Dubai, pistácio, frutos vermelhos e versões clássicas, sempre com fruta fresca e massas laminadas com rigor.
Há ainda pão de Pegões, salgados, saladas (entre 6,50€ e 7€), sopa e prato do dia, tostas (entre 1,30€ e 6€, algumas acompanhadas com batata frita), sandes (entre 1,40€ e 4€) e arrufadas (entre 2€ e 3€). Também não podiam faltar as bolachas artesanais, broas castelares, nozes caramelizadas, castanhas de ovo, petit fours de amêndoa e uma diversidade de bolos simples e de cake design, sempre sob encomenda.
Se há algo que rapidamente se tornou um best-seller foi o chocolate quente italiano, espesso, reconfortante e ideal para os dias frios (que pode ser pedido mais líquido, para ser bebido, ou mais grosso, para comer à colher). Mas a criatividade da casa vai mais longe, muitas vezes nascida da relação direta com os clientes.
Um dos exemplos mais falados é o Café Boulangerie, uma criação espontânea que surgiu de um pedido inesperado. “Um cliente pediu um café com leite condensado e disse que não tinha. Propus fazer algo diferente e disse-lhe que, se não gostasse, não pagava”, conta Célia. O resultado foi um café com kataifi de pistácio e natas, que rapidamente passou a fazer parte da carta e hoje é um dos mais pedidos.
A oferta inclui ainda uma vasta seleção de chás, cafés, cappuccinos, quiches e crepes, tornando o espaço versátil tanto para uma pausa curta, como para uma refeição mais demorada.
“Nunca fui aventureira, mas senti que tinha de ser agora”
Aos 56 anos, Célia Almeida assume que esta casa poderia ter surgido mais cedo, mas acredita que tudo acontece quando tem de ser. “Nunca fui muito aventureira. Sempre trabalhei, sempre cozinhei, mas esta casa só surgiu agora. Todos elogiava o meu trabalho e a minha filha insistia comigo. No final de outubro, senti que tinha de ser”.
Esse impulso coincidiu com um momento de grande sintonia. O espaço, as pessoas envolvidas, a empatia com os antigos proprietários, tudo pareceu alinhar-se. “Há coisas que, quando têm de ser, vêm com muita força”, diz Célia, com a serenidade de quem finalmente encontrou o seu lugar.
Hoje, Joana gere o dia a dia da pastelaria, enquanto a mãe se dedica à produção, como sempre fez. “Ela é chefe pasteleira e vai dedicar-se totalmente a esta casa”, explica a filha, orgulhosa.
A Boulangerie by Célia Almeida está aberta de terça a domingo, das 7 horas da manhã às 19 horas, encerrando à segunda-feira (excecionalmente aberta na semana do Natal). No dia 24, funciona até às 16 horas, encerrando a 25 e 26, e volta a fechar às 16 horas no dia 31, permanecendo encerrada a 1 e 2 de janeiro.
Carregue na galeria para conhecer melhor o novo espaço da cidade.
FICHA TÉCNICA
- MORADA
Praceta Dr. Joaquim Ferreira de Sousa 5 Loja C
2900-000 Setúbal
- HORÁRIO
- De terça a domingo, das 7 horas da manhã às 19 horas
- Encerra à segunda-feira
PREÇO MÉDIO
Menos de 10€