Para Luís, de 48 anos (a idade de Cláudio), tudo isto é uma absoluta contradição com o rapaz que conheceu como colega no Técnico e, mesmo depois disso, em jantares de curso e de aniversário, quando a turma se encontrava. “Ele era perfeitamente integrado. Ia ao jantares de curso, ia aos super-arraiais, dizia piadas, ia ao cinema connosco, aos centros comerciais. E na altura sabia onde ele vivia — vivíamos todos, os de fora de Lisboa, em quartos alugados, não íamos a casa uns dos outros, mas jantávamos, íamos beber um copo. Ele não era mais misterioso que a maioria. Não era um outsider. Não se isolou mais que outros. O Cláudio era perfeitamente normal. Até desistir do doutoramento em Brown, ao fim de um ano de lá estar, em 2001.”
Mesmo após essa desistência, garante Luís, o ex-colega ia aos jantares de curso. “Lembro-me de ele estar como informático no SAPO [portal da então Portugal Telecom, hoje Altice, onde, como o DN revelou esta sexta-feira, trabalhou durante dois períodos, o primeiro dos quais a partir de 2001, por uns cinco anos, o segundo, segundo a Altice, entre 2010 e 2013], não estava contente, mas estava OK. Falámos da passagem dele por Brown, da desistência do doutoramento, disse ‘Não gostei muito daquilo’. Tinha a opinião de que Brown não tinha a qualidade que ele queria. Mas parecia-me que ele estava a lidar bem com isso a última vez que falámos.”
Isso terá sido quando? “Por volta de 2010. Depois também saí de Portugal, deixei de ter disponibilidade para ir aos jantares. E a partir do momento em que ele voltou aos EUA perdemos-lhe todos o rasto. O decaimento dele, a entrada no buraco negro dentro da sua cabeça que desembocou nestas consequências trágicas, terá começado algures por essa altura. O ressentimento em relação a Brown, a incapacidade de lidar com o seu fracasso — ou o que ele entendia ser o seu fracasso, ou a sua desilusão, não sei como entendia o seu percurso…”
Aparentemente levou muito tempo, esse processo — de 2017 até 2025. “Porque, lá está, ele não era um monstro. Se fosse um psicopata, teria sido uma coisa instantânea. Mas ele não o era.”
“Não gosto da palavra génio, mas é o que ele era”
Há ecos distintos deste homem cuja memória Luís tenta reconciliar com os acontecimentos brutais da última semana, iniciados no ataque em Brown, a 13 de dezembro, o qual resultou na morte de dois jovens alunos, Ella Cook e Mukhammad Aziz Umurzokov, e que as autoridades americanas começaram por achar não ter qualquer relação com o homicídio do físico Nuno Loureiro, na noite de 15, noutro estado (Brown é em Providence, Rhode Island, Nuno foi assassinado em Brookline, na área metropolitana de Boston, capital do Massachusetts).
Há, desde logo, a perspetiva de Filipe Moura, um físico matemático que, no mesmo curso que Cláudio mas mais adiantado, foi monitor da cadeira de Análise Matemática III da turma dele.
Como o DN noticiou esta sexta-feira, sem o nomear, Filipe Moura escreveu um post no Facebook no qual descreve Cláudio como um aluno “que evidentemente era um dos melhores, um fora de série” (viria a licenciar-se com 19 valores, segundo informação comunicada pelo Técnico), mas “arrogante”, “desagradável”, que arranjava quezílias na aula com outros alunos por ter “uma necessidade muito grande de se fazer notar e de mostrar que era melhor do que os outros”, “envolvendo-se frequentemente em quezílias com colegas que ele não considerava tão brilhantes como ele (e que provavelmente não eram – mas eram seus colegas e tinham todo o direito de estarem ali)”.
Ele era, diz o físico ao DN, “muito impaciente. havia muitas pessoas com egos muito desenvolvidos no curso e ele queria demonstrar que não eram tão espertos como pensavam. Criava problemas nas aulas.” O conflito ocorria, reflete, “sobretudo com pessoas que estavam armadas em boas, numa atitude típica de criança sobredotada.”
Luís nunca viu nada de semelhante: “O Cláudio era um gajo exigente. Consigo e com os outros, os professores e colegas. Lia os livros de antemão para não ser apanhado de surpresa nas aulas. Era atento e intervinha, sim, se achasse que um argumento estava mal fundamentado. Mas não acredito que alguma vez tenha dito ‘tu és burro’, ‘tu não percebes, não sabes do que estás a falar’. Nunca o vi fazer uma coisa dessas. Não era de se levantar e insultar, de gritar.”
Filipe Moura, no entanto, insiste: a pose existia e Cláudio levou-a para Brown. “Troquei muitos emails com ele nessa altura e vi que ele mantinha a mesma atitude — que me contava — de suscitar conflitos desnecessários com colegas do doutoramento nas aulas, que mais uma vez ele considerava muito menos capazes do que ele — e que provavelmente até seriam. Pude-me aperceber de que ele não estava a gostar de estar na Universidade de Brown, mas procurei convencê-lo de que aquilo seria uma fase inicial, um choque cultural, mas que aquele doutoramento era uma excelente oportunidade que ele não deveria desperdiçar, e que quando começasse a fazer investigação e acabasse a fase curricular de certeza que iria gostar.”