Certo é que as mudanças na casa da maçã também deram novo fôlego às conversas sobre a sucessão de Tim Cook. A 1 de novembro, o executivo completou 65 anos. No mesmo mês, meios como o Financial Times (FT) e a Bloomberg avançaram que a Apple estaria a intensificar os planos de sucessão. Segundo o FT, os estatutos da Apple não ditam a obrigação de reforma e desligava, também, estes esforços da situação da empresa no mercado. Porém, o jornal britânico avançou que a saída poderia acontecer já em 2026.
Publicamente, o CEO não dá sinais de pensar em afastar-se. Entre os analistas ouvidos pelo Observador não há consenso sobre o futuro de Cook. A saída de tantos executivos “sinaliza que vai haver uma transição de liderança em breve”, diz Francisco Jerónimo, da IDC. “Se é no próximo ano ou no ano seguinte, é incerto.”
“Tim Cook está há 14 anos no cargo, portanto pode querer passar o bastão a alguém provavelmente mais novo”, equaciona. “Toda esta movimentação [de executivos] claramente indica que não é só uma decisão à volta do CEO, mas uma decisão à volta da equipa de liderança.”
Ben Wood tem outra perspetiva. “Acho que não podemos estabelecer imediatamente uma relação entre a saída de executivos e a de Tim Cook.” Ainda assim, reconhece que poderá chegar o momento “em que Tim Cook comece a olhar à volta e a pensar ‘bem já conquistei quase tudo’”.
Nesse sentido destaca, por exemplo, a forma como Cook recebeu a ‘herança’ do iPhone e “fez crescer a empresa para um negócio de biliões de dólares”. “Em algum momento” Cook decidirá sair da Apple e “ficará para a história como um dos mais bem sucedidos CEO, que criou um valor tremendo para os acionistas”.
Steve Jobs, que morreu em outubro de 2011, apenas quatro meses após a nomeação de Cook, regressou à Apple em 1997 e lançou pelo menos dois sucessos de vendas: o iPod e o iPhone. Mas foi com Cook que a Apple assegurou quatro marcos de capitalização bolsista, tornando-se numa das empresas mais valiosas do mundo. Quando Tim Cook assumiu funções, a Apple valia 350 mil milhões de dólares. Em 2018, chegou ao primeiro bilião de dólares em bolsa e, já este ano, ao quarto bilião — mesmo com a pedra no sapato da IA.
Apple juntou-se ao clube dos quatro biliões impulsionada pelas vendas do iPhone
Dan Ives, analista da Wedbush, é o único a apontar uma janela temporal para a continuidade de Cook. “Acreditamos que Tim Cook continuará a ser o CEO da Apple pelo menos até ao fim de 2027 para supervisionar esta transição de uma tecnologia-chave de IA em Cupertino.”
Apesar da agitação, Ben Wood, da CCS Insight, não considera que as saídas de executivos possam vir a mexer com os eventuais planos de Tim Cook para uma saída. “Acho que a Apple terá um plano muito claro sobre o que quer fazer. A história mostra que Tim Cook é uma das pessoas mais organizadas e estruturadas, com um foco incansável em planear e controlar tudo”, diz. “É impensável que não tenha pensado de forma cuidadosa qual é a melhor altura [para sair] e quem lhe possa suceder.”
Já Francisco Jerónimo, da IDC, admite que o executivo possa estar a “reorganizar a casa” e “só quando as pessoas estiverem confortáveis nas novas funções é que sairá”. Acredita que o CEO já tenha colocado “um quadro temporal” para a sua eventual saída e que, mesmo com “toda esta movimentação”, já “terá discutido internamente” o tema com a equipa. Independentemente da altura, Jerónimo não acredita que Cook “deixe completamente a empresa”, sugerindo uma posição de “chairman do board para continuar a dar apoio à empresa”. Arthur D. Levinson, o atual chairman da Apple e também CEO do laboratório de biotecnologia Calico, tem 75 anos.
Não é de agora que se fala de uma possível lista de candidatos a ocupar o lugar de CEO da Apple. Nas listas feitas pela imprensa especializada, figuram os nomes de vários executivos da tecnológica. Francisco Jerónimo, da IDC, considera ser “muito provável que a solução seja um candidato interno”.
A ser uma solução interna, “com forte conhecimento da empresa, provavelmente manter-se-á durante uma década facilmente” no cargo. “Se não for, há sempre o risco de não conseguir perceber a cultura da empresa e não durar tanto tempo”, acrescenta.