A Rússia prepara-se para voltar a rejeitar as propostas para um plano de paz para a guerra com a Ucrânia, deixando sem qualquer possibilidade o cumprimento do objectivo do Presidente norte-americano, Donald Trump, de alcançar um acordo até ao fim do ano.

Esta indicação foi dada por Iuri Ushakov, o principal conselheiro do Kremlin para a política externa, que quis baixar as expectativas de que esteja iminente qualquer progresso nas negociações. O diplomata explicou que não se devem esperar anúncios muito relevantes após as reuniões que ocorreram fim-de-semana entre uma delegação russa e membros da Administração Trump na Florida. Uma equipa ucraniana também esteve em Miami, mas não houve encontros com os diplomatas russos.

“Os americanos estão a celebrar o Natal por estes dias, não há muita gente que vá trabalhar”, disse Ushakov, em declarações aos jornalistas este domingo.


O conselheiro teceu ainda algumas críticas às alterações feitas à proposta de acordo de paz na sequência de conversações entre a Ucrânia e os seus parceiros europeus, nas quais participaram também os EUA. “Tenho a certeza que as propostas que os europeus e os ucranianos fizeram ou estão a tentar fazer não melhoram o documento e não aumentam a possibilidade de se alcançar uma paz de longo prazo”, afirmou Ushakov.

As palavras do assessor diplomático do Presidente, Vladimir Putin, deixam antever que Moscovo não irá aceitar os novos termos negociados ao longo das últimas duas semanas, embora com o cuidado de não hostilizar Washington, apesar de também ter participado nas conversações e ter acolhido as novas propostas.

Uma primeira versão de um acordo de paz com 28 pontos, elaborado pela Rússia e pelos EUA, foi divulgada no mês passado, causando enorme preocupação não apenas em Kiev mas nas restantes capitais europeias por coincidir em grande parte com as exigências habituais russas para aceitar pôr fim à guerra iniciada há quase quatro anos.

Essa proposta incluía a exigência que a Ucrânia abandonasse a zona de Donbass que ainda controla, além de forçar a NATO a formalizar a proibição de Kiev poder vir a aderir à aliança no futuro, entre outros pontos considerados inaceitáveis pelo Presidente Volodymyr Zelensky, e pelos seus aliados europeus.

Nas últimas semanas, europeus e ucranianos apresentaram várias alterações à proposta, com a anuência de Washington, focando essencialmente na fixação de garantias de segurança para a Ucrânia, embora a questão territorial permaneça por resolver. Os EUA, que se fizeram representar nas negociações por Steve Witkoff e Jared Kushner, diziam, no início da semana, que havia acordo para “90%” dos temas.

A provável rejeição pelo Kremlin dos novos termos da proposta de paz não é surpreendente. Apesar de Putin continuar a dizer que a Rússia está disponível para pôr termo à “operação militar especial” na Ucrânia – algo que repetiu na conferência de imprensa anual esta semana –, o certo é que Moscovo não se tem desviado das suas exigências maximalistas, que implicam a ocupação e anexação de quatro regiões ucranianas, consideradas “terras históricas russas”.


Ushakov também pôs de parte a possibilidade de uma alteração ao formato das conversações de paz, para se sentarem à mesma mesa delegações russas, ucranianas e norte-americanas. Este cenário foi aludido por Zelensky no sábado, mas o conselheiro do Kremlin garantiu que “ninguém discutiu seriamente esta iniciativa”. A última ocasião em que equipas negociais das duas partes do conflito se reuniram publicamente foi em Julho, em Istambul, tendo apenas concordado em organizar uma troca de prisioneiros de guerra.

Não é claro o que poderá acontecer depois de a Rússia formalizar a sua oposição às novas propostas, frustrando, uma vez mais, os desejos de Trump de apresentar mais um sucesso diplomático. A Bloomberg avançava esta semana que Washington está a contemplar a possibilidade de agravar as sanções económicas contra a Rússia, caso conclua que o regime de Putin não tem um interesse real em acabar com a invasão.

Depois de ter aprovado sanções contra as duas maiores petrolíferas russas, os EUA podem agora visar a chamada “frota fantasma” russa que tem sido usada para transportar ilegalmente petróleo, contornando as sanções existentes.

Sem progressos palpáveis na frente negocial, a guerra prossegue. A Ucrânia disse ter detectado 97 drones no seu espaço aéreo ao longo da madrugada de domingo, tendo conseguido abater a sua maioria. No sábado, sete pessoas morreram na sequência de um ataque com míssil sobre a cidade de Odessa.

No Donbass, as forças russas continuam a tentar controlar a totalidade da cidade de Pokrovsk, que tem sido o alvo prioritário de Moscovo ao longo de vários meses. Kiev continua a garantir que a cidade ainda não caiu e que mantém o centro e os bairros a norte sob seu controlo.