Donald Trump anunciou, neste domingo, que ia nomear o actual governador do estado do Luisiana, Jeff Landry, enviado especial para a Gronelândia. O objectivo, descreve numa mensagem na plataforma Truth Social, é promover com “firmeza” os interesses dos EUA na Dinamarca.

Landry “compreende o essencial do que é a Gronelândia para a nossa segurança nacional”, escreveu ainda o Presidente norte-americano, sem revelar quando iria oficializar a novidade.

Na sua mensagem de agradecimento, Jeff Landry, que é governador de Luisiana desde 2024, revelou mais do que Trump: afirmou que é uma “honra” trabalhar “para que a Gronelândia faça parte dos EUA”, escreveu no X. Disse ainda que a nomeação “não afecta de todo” as suas responsabilidades no Luisiana.

A mensagem caiu mal à Dinamarca, país a que pertence o território semiautónomo da Gronelândia. O início do ano já tinha sido tenso entre os dois países – as autoridades dinamarquesas tiveram de vincar que o território não estava à venda, depois de Trump ter tornado claro que queria controlar a Gronelândia — e termina da mesma forma.

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, pediu, nesta segunda-feira, “respeito pelas fronteiras dinamarquesas”, depois da notícia de uma nomeação que, diz, “confirma o interesse norte-americano na Gronelândia”. “Estou muito transtornado pela nomeação de um enviado especial. E estou especialmente transtornado pelos seus comentários, que considero completamente inaceitáveis”, asseverou em entrevista à TV2, da cadeia estatal dinamarquesa.

Entretanto, o seu gabinete anunciou que ia chamar o embaixador norte-americano na Dinamarca para esclarecimentos.

O primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen — eleito em Março deste ano, num contexto de grande pressão norte-americana —, expressou, no Facebook: “Acordámos outra vez com um novo anúncio do Presidente norte-americano.” E avisou: “Isto pode parecer grande, mas não muda nada para nós. Decidimos o nosso próprio futuro.”

Ainda que não tenha poder de decisão em assuntos relacionados com a política externa e de defesa, em 2009 o território garantiu o direito a decidir o seu próprio caminho para se tornar um Estado independente. No entanto, os EUA parecem querer intrometer-se: em Agosto, foi notícia que os serviços secretos dinamarqueses tinham identificado três pessoas com ligações a Trump que estariam a promover a secessão no território, uma forma de “criar divisão” na relação com as autoridades nacionais dinamarquesas.


Aaja Chemnitz, deputada gronelandesa no Parlamento dinamarquês, afirma que a nomeação de um enviado especial não é, em si, um problema; “o problema é que lhe foi dada a missão de conquistar a Gronelândia para fazer dela parte dos EUA, quando não há qualquer desejo que isso aconteça”, afirmou à Reuters. “Há desejo de respeito pelo futuro que a maioria na Gronelândia deseja, nomeadamente, permanecer o próprio país e desenvolver a sua independência ao longo do tempo”, especifica.

Um porta-voz da União Europeia, Anouar El Anouni, também comentou o caso: “Preservar a integridade territorial do Reino da Dinamarca, a sua soberania e a inviolabilidade das suas fronteiras é essencial para a União Europeia”, afirmou em resposta a Trump.

É uma questão que tem gerado controvérsia nos últimos meses. Primeiro, Trump mostrou interesse na compra da Gronelândia; depois, afirmou que queria tomá-la, não excluindo a hipótese de usar força militar. É que a ilha, além de ser rica em recursos minerais, tem uma posição geoestratégica privilegiada para o acesso ao Árctico. Assim, Trump justifica-o com a “segurança nacional”.

Os EUA já têm presença permanente na ilha, na base aérea de Pituffik, pelo menos desde 1951.

Numa visita oficial ao território, em Março, o vice-presidente norte-americano J. D. Vance vincou a posição norte-americana, quando apelou à independência e à possibilidade de um “acordo ao estilo de Donald Trump”. “A nossa mensagem para a Dinamarca é muito simples: vocês não fizeram um bom trabalho pelo povo da Gronelândia”, afirmou. “Vocês investiram pouco no povo da Gronelândia, e investiram pouco na arquitectura de segurança desta massa terrestre incrível e linda cheia de pessoas incríveis.”