“Ficou pior depois da guerra na Ucrânia. Os lobos estão a vir do lado russo”, indica Juha Kujala, criador de renas na Finlândia, olhando para a fronteira russa a apenas 40 quilómetros da sua terra. “Agora que eles vão atrás de pessoas na Ucrânia, não há mais ninguém para caçar os lobos.”

Kuusamo, Finlândia – “Estas são as renas do Pai Natal. Mas temos muita sorte, porque o Pai Natal só precisa delas um dia por ano. Por isso, podemos voar com elas os restantes 364 dias.”

É uma frase bem ensaiada. Juha Kujala já a disse muitas vezes ao longo dos anos. Mesmo quando tem à sua frente a escassa multidão de uma equipa de reportagem da CNN em visita, Juha continua a dizê-la com um sorriso.

Recentemente, porém, o rebanho de renas de Juha enfrentou um perigo incomum. Quase diariamente, Juha encontra carcaças de renas. O criador de renas culpa um suspeito improvável: o presidente russo, Vladimir Putin, cuja guerra na Ucrânia tem consequências de longo alcance.

Juha Kujala, um criador de renas de quinta geração, na sua quinta em Kuusamo, Finlândia. David von Blohn/CNN

A família de Juha faz criação de renas em Kuusamo, no norte da Finlândia, há mais de 400 anos. Mais recentemente, Juha também abriu as portas da sua propriedade para multidões de turistas que viajam de todo o mundo à procura de uma experiência festiva única.

A Lapónia, a região mais setentrional da Finlândia, é promovida como a “casa oficial do Pai Natal” e as centenas de milhares de renas que vagueiam por esta área são uma grande atração para crianças e adultos.

Depois de renomear a sua quinta como “O Mundo das Renas”, Juha está a lucrar com o boom do turismo. O criador oferece ioga com renas (sim, isso existe) e passeios de trenó puxado por renas, dignos de cartões postais, pelas florestas cobertas de neve. Juha vende salsicha de rena para o pequeno-almoço; peles de rena para tapetes; chifres de rena e carne de rena enlatada para lembranças.

Juha mostra-se reticente quando perguntamos qual o número de renas que possui – um assunto que, assim como o seu património líquido, é considerado muito indelicado para falar com qualquer pessoa que não seja da família mais próxima. Mas são muitas. E elas vagueiam livremente pelas áreas rurais, pastando à vontade na vegetação rasteira coberta de geada.

Para os visitantes, as renas são a personificação viva do Natal. Para Juha e os outros criadores de renas, elas são a sobrevivência.

Juha Kujala oferece uma ampla variedade de produtos temáticos de renas para turistas de todo o mundo. David von Blohn/CNN

“Eles só matam, matam, matam”

“Este ano é o pior de sempre nesta zona”, diz Juha, enquanto se agacha junto a uma carcaça de rena que jaz na neve.

A rena que ele observa foi morta por um lobo poucos dias antes. A sua língua foi arrancada pelo predador culpado e pegadas reveladoras foram encontradas no local do crime. Raposas e corvos acabaram de devorar o que restava da carne.

Perder uma rena fêmea, como foi o caso desta, é especialmente doloroso para Juha. Uma rena demora cerca de dois anos a atingir a maturidade sexual, e cada fêmea normalmente produz apenas um filhote por ano.

O Ministério da Agricultura e Florestas da Finlândia estima que a morte de uma  rena fêmea no auge da sua vida representa para o proprietário uma perda de 1.572 euros. Além disso, os pastores dizem que agora passam grande parte do seu tempo a solicitar uma compensação pelas suas perdas ao governo finlandês, que, segundo eles, não é suficiente para cobrir os seus custos.

Juha e os seus colegas encontram renas mortas quase diariamente. David von Blohn/CNN

“É muito triste. Muito, muito triste”, lamenta Juha. “O equilíbrio não está certo. Os lobos são tantos que ameaçam todo o sistema aqui. Eles simplesmente matam, matam, matam. Se não fizermos nada, em poucos anos áreas inteiras não terão mais renas. Isso é triste, porque é a coisa mais antiga de toda a Finlândia: a criação de renas.”

Dados do Instituto de Recursos Naturais da Finlândia, uma organização de investigação que opera sob a tutela do Ministério da Agricultura e Florestas, confirmam que houve um aumento dramático na população de lobos da Finlândia nos últimos anos, de cerca de 295 na primavera de 2024 para cerca de 430 este ano – o número total mais elevado em décadas.

A Associação de Criadores de Renas da Finlândia, que mantém um registo atualizado, afirma que cerca de 1.950 renas foram mortas por lobos só este ano – um aumento de quase 70% em relação ao ano passado.

Embora as populações de lobos tenham aumentado em toda a Europa, a explicação mais popular na Finlândia para o número recorde de ataques de lobos nas regiões de criação de renas do norte está a centenas de quilómetros de distância: nas trincheiras russas da Ucrânia.

“Não resta ninguém” a caçar os lobos

A teoria é que as renas da Finlândia estão a ser mortas em larga escala por lobos russos que atravessam a fronteira de mais de cerca de 1.287 quilómetros que separa os dois países.

A razão exata pela qual os lobos dessas regiões fronteiriças russas estão a atravessar para a Finlândia é objeto de contínuo debate científico. Alguns meios de comunicação russos documentaram o impacto da indústria madeireira nos habitats da vida selvagem nessa parte do país.

Uma teoria mais popular entre os cientistas finlandeses e os criadores de renas aponta para a Ucrânia.

Os cientistas observam que agora se estão a caçar menos lobos na Rússia, graças ao recrutamento em massa e à mobilização parcial de homens fisicamente aptos – incluindo caçadores – para o esforço de guerra russo na Ucrânia. E isso pode estar a levar a uma explosão de predadores como ursos, carcajus, linces e lobos, todos eles grandes predadores de renas.

“Ficou pior depois da guerra na Ucrânia. Os lobos estão a vir do lado russo”, indica Juha, apontando para a fronteira russa a apenas 40 quilómetros da sua terra. “Agora que eles vão atrás de pessoas na Ucrânia, não há mais ninguém para caçar os lobos.”

Uma teoria realista

Essa narrativa de culpar a Rússia pelos problemas do país está em perfeita sintonia com um sentimento antirrusso generalizado entre o povo finlandês, que há décadas se prepara para um possível conflito com o seu país vizinho.

Guarda de fronteira finlandesa realiza exercício de treino na região da Lapónia, no Círculo Polar Ártico. David von Blohn/CNN

Mas a teoria também tem um peso surpreendente. O Instituto de Recursos Naturais da Finlândia analisou, ao longo da última década, em todo o país, milhares de amostras de lobos, muitas vezes recolhidas de fezes ou urina. Recentemente, o instituto notou um aumento acentuado de lobos com marcadores de ADN nunca observados na Finlândia. Os cientistas concluíram que esses animais provavelmente vieram da fronteira russa.

“Acho que pode ser uma teoria realista”, admite a cientista sénior Katja Holmala, que lidera a análise de amostras de lobos há anos. “A principal pista é que a caça aos lobos tem diminuído no lado russo. Era muito, muito intensa antes da guerra [na Ucrânia]. E também havia boas recompensas financeiras por cada lobo.”

John Helin, especialista do Black Bird Group, com sede na Finlândia, especializado em monitorizar a invasão russa da Ucrânia – e os esforços internos para apoiá-la – concorda com a teoria. O especialista aponta para os incentivos monetários significativos oferecidos aos homens russos dispostos a alistar-se no exército em regiões fronteiriças como Murmansk, que fica diretamente a leste da Lapónia, bem como para a redução geral das taxas de desemprego na Rússia.

“É uma narrativa útil que tudo o que é mau vem da Rússia”, reconhece. Mas, acrescenta, “o que vimos, especialmente no ano passado, é que as mortes por lobos diminuíram, apesar de a população de lobos ter aumentado.”

Dado o sistema pouco transparente de manutenção de registos na Rússia, ainda não é possível provar esta teoria. Mas o número de homens disponíveis para a caça diminuiu claramente.

“Há cada vez menos mão de obra sazonal excedente que eles possam usar», reconhece John Helin. “E essa mão de obra sazonal é algo que eles geralmente usavam para fazer silvicultura, caça e conservação da vida selvagem nessas áreas.”

“Tentem parar esta guerra”

Embora os lobos da Finlândia ainda sejam classificados como uma espécie em perigo crítico de extinção, no mês passado, o governo apresentou uma legislação que permitiria a caça aos lobos. Os conservacionistas manifestaram a sua preocupação, mas o Ministério da Agricultura e Florestas afirma reconhecer a necessidade de controlar a população.

Nas áreas de criação de renas, já foram concedidas licenças especiais de caça – e criadores como Juha frequentemente saem com os seus cães de caça e espingardas, vasculhando a neve à procura de pegadas de lobos.

“As pessoas que acham que não é certo matar lobos deveriam vir aqui”, apela Juha Kujala, que espera um dia passar o seu negócio de renas para os seus quatro filhos. “Elas deveriam viver a nossa vida e ver a dor que sentimos quando perdemos as nossas renas.”

Juha Kujala espera que os esforços liderados pelo presidente dos EUA, Donald Trump, tragam paz à Ucrânia, quase quatro anos após a invasão russa em grande escala.

“Espero sinceramente que a guerra termine”, diz. “Espero que o senhor. Trump, se estiver a ouvir-me, faça tudo o que estiver ao seu alcance. Faça mais do que já fez até agora. Tente parar esta guerra. Acabe com a guerra.”

Darya Tarasova, da CNN, contribuiu para esta reportagem.