Foi há praticamente um ano. Oito dias depois de assinar pelo AC Milan, Sérgio Conceição conquistou a Supertaça de Itália e deu a ideia de estar pronto para começar uma nova era no clube italiano. A aventura, porém, só durou até maio. E foi preciso esperar até dezembro para que o treinador português explicasse muito do que se passou em Milão.
Em entrevista ao jornal La Gazzetta dello Sport, precisamente para assinalar a final da Supertaça italiana que acontece esta segunda-feira entre Nápoles e Bolonha, Sérgio Conceição lembrou a vitória do ano passado contra o Inter Milão. “Lembro-me de que foram dias de trabalho intenso, focámo-nos na análise de vídeo, na motivação e em discursos para entrar diretamente na cabeça dos jogadores. Vencemos a Juventus do meu filho Francisco e depois o Inter, com reviravolta. Chorei”, começou por contar, comentando depois as imagens dos festejos que correram o mundo, onde surgia a dançar no balneário enquanto fumava um charuto.
“Foi uma promessa. Os jogadores tinham visto vídeos e pediram-me para fumar um charuto se ganhássemos. Já o tinha feito 11 vezes no FC Porto, ou seja, sempre que conquistámos troféus, e fiz outra vez”, explicou. O agora treinador do Al Ittihad faz um balanço “positivo” dos seis meses que passou no AC Milan, recordando que é um de apenas dois treinadores a conquistar troféus no clube desde 2016 (o outro é Stefano Pioli, que venceu a Serie A em 2021/22), e destaca os dois triunfos no dérbi com o Inter Milão e outra vitória contra a Roma como alguns dos momentos mais saborosos. Em oposição, não esquece a derrota na final da Taça da Itália, contra o Bolonha.
Ainda assim, Sérgio Conceição confessa que aconteceram coisas “de que não gostou”. “Existia instabilidade, a atmosfera à volta da equipa não era boa. Por isso é que me agarro tanto ao que conseguimos fazer. Além disso, a direção não me apoiava. Um exemplo: depois de ganharmos a Supertaça empatámos com o Cagliari e começaram logo a aparecer rumores de que o clube estava a procurar outros treinadores. Concentrei-me em trabalhar e ganhar, mesmo com o peso dos resultados. Não tinha tempo para trabalhar a todos os níveis”, atira, garantindo que tinha o balneário do seu lado.
“Os jogadores estavam comigo. Muitos escreveram-me mensagens quando saí. Exigia rigor, padrões, mas também os deixava relaxar quando era tempo de relaxar. Se alguém aparece com um quilo a mais ou chega atrasado, algo desse género, isso não pode ser tolerado. Para mim, no fim, todos os jogadores são iguais”, acrescentou o português, que substituiu Laurent Blanc no Al Ittihad em outubro e está atualmente no sétimo lugar do Campeonato da Arábia Saudita.
De forma natural, a entrevista abordou também o tempo que Sérgio Conceição passou em Itália enquanto jogador — particularmente na Lazio, onde foi campeão nacional em 1999/00. Recordando-se de uma promessa que fez a Nossa Senhora de Fátima na altura, o treinador de 51 anos sublinha que a fé é “uma parte fundamental” da sua vida. “Sou católico praticante. Aqui [na Arábia Saudita] não posso, mas em Milão ia à igreja todos os dias”, revela, recordando o recente encontro que teve com o Papa Leão XIV, onde partilhou a sua “jornada e dificuldades”.
“Perdi o meu pai aos 16 anos num acidente de mota, perdi a minha mãe aos 18 depois de uma longa doença, e depois perdi um irmão. Eu era o sétimo de oito. A fé deu-me força e paz de espírito. Quero mostrar aos meus pais que estou aqui e que alcancei todos os meus sonhos. Mas dentro de mim, aqui escondido, existe e vai sempre existir algo negro, como uma sombra”, desabafou Conceição, acrescentando que reza pelos pais todos os dias e que terá sempre “um buraco” dentro de si, já que nunca será “completamente feliz sem os pais”.
Dr. Sérgio e Mr. Conceição. A fórmula que acabou com o jejum do FC Porto
Ainda assim, o treinador reconhece que os cinco filhos acabam por ocupar um bocadinho desse “buraco” e detalha, sobre a vida familiar, que se fala de futebol “o mínimo possível” — apesar de os cinco serem também jogadores. “A coisa mais importante que lhes peço é que deixem os telemóveis no bolso ao jantar. Já pedia isso no tempo do FC Porto e do AC Milan. O Francisco estreou-se profissionalmente comigo, em Portugal. Em 2020, durante o confinamento, disse-lhe: ‘Se tiveres fome bebe água’, porque estava a ficar um bocadinho gordinho. Fazer a diferença exige sacrifício e uma boa mentalidade. Se pudesse, emprestava-lhe a minha fome. Não que ele não a tenha, pelo contrário, mas aos 16 anos eu levava dinheiro para casa para podermos comer. Era diferente. Mas sempre acreditei nele e ele também acredita nele”, explica.
Sobre os sete anos que passou no FC Porto, Sérgio Conceição lembra que a relação com Jorge Nuno Pinto da Costa era “ótima”. “Quando cheguei, o clube não era campeão há quatro temporadas. Vendemos 600 milhões de euros em jogadores e também tivemos boas prestações na Liga dos Campeões”, vincou, contando que teve abordagens de vários clubes ao longo dos anos, incluindo da Lazio, e que ainda está a habituar-se às “dinâmicas culturais” da Arábia Saudita, como o facto de os treinos serem à tarde e não de manhã.
Por fim, o treinador português revelou ainda que se inscreveu recentemente na universidade, estando a realizar um mestrado em Treino Desportivo, e escolheu a frase que melhor o descreve: “Não podemos alcançar grandes coisas em águas calmas, precisamos de uma tempestade”. “O [Sinisa] Mihajlovic, a falar sobre o [Marco] Benassi uma vez, disse que ser capitão de equipa não era um desafio, desafio é acordar às quatro da manhã para ir trabalhar. E os meus pais também me ensinaram isso. Não podemos conformar-nos”, terminou, sublinhando a ideia de que “já sabe” que um dia irá regressar a Itália.