Gaúcha foi Miss Universo em 1963.Banco de Dados / Agencia RBS
O Rio Grande do Sul perdeu neste final de ano uma das figuras mais marcantes de toda sua história. Sinônimo de elegância absoluta, representante máxima da beleza da mulher gaúcha e brasileira, esposa, mãe e avó dedicada, resiliente às dificuldades impostas pela vida.
Não faltam características para definir a trajetória de Ieda Maria Vargas, primeira brasileira a vencer o concurso Miss Universo, que morreu nesta segunda-feira (22), aos 80 anos.
Ieda nasceu em Porto Alegre, em 31 de dezembro de 1944. Começou a competir em concursos de beleza logo cedo. Também de forma precoce, aos 18 anos, seria vencedora do maior de todos: em 1963, em cerimônia realizada em Miami, nos Estados Unidos, foi coroada Miss Universo.
Em uma época em que o concurso vivia o auge de sua popularidade, foi a primeira brasileira a atingir o feito, quebrando a maldição do vice-campeonato que o país enfrentou por três vezes na década de 1950.
— Quando ouvi meu nome, “Maria Vargas from Brazil”, nem acreditei. Não esperava. Passou um filme na cabeça enquanto caminhava para o centro do palco — relembrou a miss em entrevista a Zero Hora.
O reinado
A conquista alçou Ieda à fama imediata. Após ser recebida e desfilar com status de rainha pelo Brasil, se mudou para os Estados Unidos e viajou para mais de 20 países ostentando a coroa de Miss Universo.
— A miss exerce o papel de exemplo para outras mulheres. Não só na beleza, mas para conseguir conquistar seus objetivos, sejam eles profissionais ou pessoais. Ela tem que apoiar causas sociais e, principalmente, representar o seu país. E mostrar sua cultura, pois ela se torna a representante de toda uma nação — descreveu Ieda.
O legado de Ieda se mantém presente por décadas. Em 2023, por exemplo, 60 anos após a conquista histórica, batizou a coroa do Miss Brasil.
Durante seu reinado, recebeu inclusive convite do astro britânico Peter Sellers, um dos jurados de seu concurso, para ser protagonista do filme Pantera Cor-de-Rosa, em Hollywood. Contudo, Ieda recusou a proposta, pois seu objetivo era voltar a Porto Alegre e constituir família, seu verdadeiro grande sonho de vida.
Antes de Ieda, a pelotense Yolanda Pereira (1910-2001) conquistou o prêmio International Beauty Contest, que concedia o título de miss. No entanto, o concurso, conhecido atualmente como Miss Universo, foi lançado em 1952 — e foi este prêmio que Ieda venceu e, por isso, é considerada a primeira brasileira Miss Universo.
Ieda voltou a Porto Alegre, recepcionada por uma multidão.Banco de Dados / Agencia RBS
A família
Foi isso que Ieda fez após transmitir a coroa à sua sucessora, a grega Corinna Tsopei, em 1º de agosto de 1964. Pouco tempo depois, em 1968, com 23 anos de idade, Ieda se casou com o empresário José Carlos Athanásio, em uma majestosa cerimônia realizada na Igreja São José, em Porto Alegre.
Juntos, tiveram dois filhos: Rafael, o mais velho, hoje com 53 anos, e Fernanda, atualmente com 50. O casal permaneceu junto até o fim da vida de José Carlos, que morreu em 2009 vítima de um câncer.
Quase uma década antes, entretanto, Ieda já havia passado por um episódio que mudaria sua vida. Em setembro de 2000, aos 55 anos, sofreu um acidente vascular encefálico isquêmico, que paralisou o lado esquerdo do seu corpo e atingiu a região fronto-temporal do cérebro, prejudicando a área de compreensão e expressão da linguagem. Também teve perda da memória, levando mais de um ano para se recuperar.
Ieda se casou com o empresário José Carlos Athanásio.Assis Hoffmann / Agencia RBS
A vida
Quando voltou a Porto Alegre, Ieda trabalhou como empresária, apresentadora de TV, curadora de arte e modelo, sempre em evidência na sociedade gaúcha. Após a morte de seu esposo, e já tendo superado o AVC, decidiu se mudar para Gramado, cidade onde viveria até o fim da vida.
— Nesses últimos anos, só aumentei a quantidade de remédios diários (risos). Não poderia ter escolhido (lugar) melhor — declarou.
Em Gramado, Ieda morava em um apartamento no bairro Planalto, logo na entrada da cidade. Ela mesma decorou o interior do imóvel, repleto de gravuras surrealistas e de quadros de Bianchetti, Roberto Feitosa e Pietrina Checcacci, entre outras assinaturas ilustres. O troféu de Miss Universo também ficava lá, repousando em um recanto da sala.
Na Serra, Ieda levava uma vida tranquila nos últimos anos. Praticava exercícios ao ar livre, saía para dançar, frequentava cafés, aproveitava a programação cultural da região com amigos e com a família e não dispensava as idas ao salão para cuidar das unhas e dos cabelos.
— A mãe sempre teve esse jeito alto-astral, sempre valorizou a vida. Depois desse episódio (a doença), isso se tornou uma característica ainda mais forte da personalidade dela. Sabe a impressão que eu tenho? Que ela voltou ainda mais inteira, mais forte, mais apaixonada — contou a filha de Ieda, Fernanda, em entrevista realizada em 2012.
A eterna miss
Ieda se consagrou primeiramente pela beleza, mas sua força interior e sua capacidade de superação das dificuldades que a vida lhe impôs se tornaram características ainda mais marcantes.
Com sua morte, o Rio Grande do Sul perde uma das principais personalidades de sua história. O reinado de Ieda, contudo, será eterno, pois uma rainha como ela jamais perde a majestade.
Ieda estava internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Arcanjo São Miguel, onde morreu nesta segunda.
O velório está previsto para iniciar às 10h desta terça-feira (23), na Assembleia Legislativa.