Homens entre os 20 e os 39 anos assinaram contratos para treino de elite, mas acabaram enviados para o local onde lhes garantiram que não iam parar

Ninguém sabe onde estão 17 cidadãos sul-africanos que foram para a Rússia com uma promessa, mas cujas famílias garantem ter sido alvo de um esquema fraudulento.

A notícia é avançada pela agência Reuters, que cita o pai de um dos homens que há cinco meses desapareceram sem se saber exatamente para onde ou para fazer o quê.

Dubandlela até ficou orgulhoso quando o filho de 20 anos recebeu treino de elite para se juntar à Rússia como um segurança VIP, mas, agora, chora sem saber o que se passou ao certo.

Este homem conta àquela agência que o seu filho está entre os 17 sul-africanos que caíram num alegado esquema de recrutamento que prometia algo bem diferente. Tal como o filho de Dubandlela, os outros jovens também pensavam estar a caminho de uma posição de destaque nas forças russas, mas acabaram recrutados por um grupo de mercenários que envia homens para combater ao lado da Rússia na Ucrânia.

“Eu culpo-me”, assume Dubandlela, que falou à Reuters a partir de sua casa, em Durban, a milhares de quilómetros da guerra que decorre na Europa.

Sem quaisquer comentários do Ministério da Defesa da Rússia, o caso está a mercer a “melhor atenção possível” da África do Sul, garantiu o porta-voz do presidente Cyril Ramaphosa.

“O processo para recuperar esses jovens continua a ser um processo muito sensível”, admitiu Vincent Magwenya, que acrescentou que estes sul-africanos enfrentam um “grande perigo para as suas vidas”.

Em curso estão várias negociações com Rússia e Ucrânia, até porque não se sabe exatamente onde param estes jovens. Podem estar ainda a combater pela Rússia, claro, mas podem até já ser prisioneiros da Ucrânia ou, no pior dos cenários, podem estar mortos.

“A ênfase é maior junto das autoridades na Rússia e menos com as autoridades na Ucrânia, porque a informação que temos é que estão com as forças russas”, acrescentou o responsável da presidência sul-africana.

A última vez que Dubandlela ouviu falar do filho foi através de fotografias recebidas no início deste mês, e que retratam uma zona na linha da frente no Donbass. Uma das imagens mostra o jovem fardado de militar e a segurar uma espingarda AK-47.

“Eu quero voltar para casa. Por favor, papá, fala com alguém”. Estas são as frases que o filho de Dubandlela ia repetindo quando falavam ao telemóvel, durante conversas em que o jovem também descrevia as condições deficitárias em que se encontrava.

Nesta situação desde julho, foi a 6 de novembro que Dubandlela percebeu que não estava sozinho. Foi nessa altura que a África do Sul confirmou que tinha recebido relatos semelhantes em relação a outros 16 homens entre os 20 e os 39 anos.

A todos foram prometidos contratos com a Rússia, mas todos acabaram presos no Donbass.

De acordo com a agência Reuters, estes 17 homens receberam contratos escritos em russo quando chegaram a Rostov-on-Don, no sul da Rússia. Estavam relutantes em assinar o documento, até porque não perceberam nada do que estava lá escrito, mas Duduzile Zuma-Sambudla, antiga deputada e filha do ex-presidente, Jacob Zuma, incentivou-os a fazerem-no.

De resto, a antiga legisladora é mesmo uma figura central no caso aberto pela polícia sul-africana, que investiga o seu envolvimento neste alegado esquema de fraude.

Tal como o que os russos lhes tinham dito ao início, também Duduzile Zuma-Sambudla garantiu que se tratava de treino para segurança. Depois disso, confessou um dos recrutas à Reuters em agosto, perceberam que iam para a guerra e ficaram “chocados”.

Os soldados ainda tentaram avisar Duduzile Zuma-Sambudla do que estava a acontecer, mas a antiga deputada garantiu que não passava de um susto. “Não é a linha da frente. Estão só a assustar-vos”, respondeu o número ligado à mulher numa conversa de Whatsapp.

Estes 17 soldados sul-africanos estão entre os mais de 1.400 militares de mais de 30 países de África que estão a combater ao lado da Rússia, de acordo com os dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia.