Uma nova “frota dourada”, composta pelos que “serão os maiores e mais poderosos” navios “da História”: foi assim que Donald Trump apresentou a sua intenção de mandar construir novos navios de guerra “classe Trump” na segunda-feira à noite, na sua residência privada em Mar-a-Lago, na Florida.
Além dos epítetos, também deu detalhes práticos: plano passa por mandar construir 25 navios de guerra no total (primeiro dois, depois dez e por fim os restantes 13), uma empreitada que deverá custar 26 mil milhões de dólares no total (aproximadamente 22 mil milhões de euros) e que não tem data para acontecer. Isto porque serão barcos de “última geração”, “os barcos de superfície mais letais”: capazes de lançar mísseis de cruzeiro hipersónicos — isto é, cinco vezes a velocidade do som — com capacidade nuclear, desenhados com capacidades de inteligência artificial e “armas laser, as mais modernas do mundo”, diz o Presidente norte-americano.
Além disso, vão ajudar a “revitalizar a indústria da construção naval norte-americana”, indica. Serão todos construídos nos EUA por empresas norte-americanas. E Trump tem pressa — vai reunir-se já na próxima semana com as empresas de construção naval para lhes pedir rapidez nas entregas.
Trump revelou imagens dos navios que quer construir
Reuters
“Porque não fazemos barcos como os que costumávamos construir? Desde 1994 que não o fazemos”, questionou-se, mas não sem criticar os atrasos nas entregas das empresas norte-americanas que “não os produzem de forma suficientemente rápida”. Desta vez, vai haver penalizações para as empresas que “não estão a fazer um bom trabalho”.
Durante o anúncio, onde mostrou imagens ilustrativas daquela que será a frota que “inspirará medo aos inimigos” dos EUA, esteve acompanhado pelo seu secretário de Estado, Marco Rubio, da Armada, John Phelan e de Defesa, Pete Hegseth. Este último aproveitou o momento para elogiar publicamente o Presidente, sem palavras a medir: “Este investimento é o tipo de coisa pela qual o povo norte-americano irá agradecer a Trump durante décadas, durante séculos”.
Apesar de Trump assumir que é uma forma de responder à capacidade naval chinesa, este anúncio surge numa altura em que as tensões entre os EUA e a Venezuela estão mais elevadas. E, se os EUA justificaram primeiro a missão com uma suposta guerra ao narcotráfico, agora já falam mais abertamente de uma pressão sobre o Governo venezuelano, que passa por interceptar petroleiros mesmo à saída das suas costas. Os EUA já interceptaram três petroleiros, ficando com o crude e com os navios.
Vários analistas já tinham apontado para o facto de a força naval norte-americana estar obsoleta, no entanto, o anúncio de Trump fez levantar muitas sobrancelhas. Num artigo de análise publicado na CNN, o jornalista especialista em assuntos militares Brad Lendon, nota que as empresas norte-americanas destacadas para a construção são conhecidas por se atrasarem em entregas de navios mais pequenos e simples do que os que Trump propõe agora.
Além disso, não há espaço de doca para os atracar nem pessoal qualificado para os operar. “Washington devia concentrar-se em ter um grande número de embarcações navais mais pequenas, capazes de transportar alguns mísseis ou drones cada uma, e dispersá-las por uma vasta rede de vias navegáveis, anulando a vantagem de Pequim em termos de número de mísseis ao apresentar alvos demais para serem controlados”, lê-se no artigo.
Onda narcisista e mais mudanças
Alguns críticos notam, também, que este anúncio faz parte de uma “onda narcisista” em que Trump tem embarcado. No início do mês, o Presidente já tinha anunciado que ia mudar o nome do Instituto norte-americano para a Paz para incluir também o seu nome. Na semana passada, anunciou que o centro artístico John F. Kennedy em Washington também ia mudar de nome para incluir o dele.
Apesar de o sinal na parede do edifício já ter sido alterado, há quem ainda queira impedir a mudança: a representante democrata Joyce Beatty anunciou que ia processar o Presidente porque a alteração “viola a Constituição e o Estado de direito” porque a mudança não foi aprovada pelo Congresso. “Ele não tem direito a mudar o nome”, diz, citada pelo New York Times.
Estas não foram as únicas mudanças das últimas semanas. No domingo, nomeou um enviado especial para a Gronelândia, um passo no sentido de garantir que o território fica em mãos norte-americanas. E, nesta semana, optou por afastar discretamente 30 embaixadores e chefes de missão, a quem pediu que regressassem aos EUA.
De acordo com o que disseram algumas fontes do The Guardian, trata-se de uma tentativa de promover diplomatas leais à nova Administração, escolhendo aqueles que poderão cimentar a agenda “América primeiro” que Trump quer levar além-fronteiras. Algumas das fontes do jornal britânico mostram-se, no entanto, preocupadas com a possibilidade de “politizar o serviço de negócios estrangeiros”.