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O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em visita à Rússia em 2024
Apesar de esporádicas declarações retóricas de apoio, no contexto geopolítico atual a Venezuela deixou de ser importante para Pequim e Moscovo — que têm “outras prioridades”.
Quando o ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, chegou ao poder, em 1999, teceu alianças estratégicas com a China e a Rússia para impulsionar a sua visão de um mundo multipolar e combater a influência dos Estados Unidos.
Estas relações foram decisivas em 2019, quando o sucessor de Chávez, o atual presidente venezuelano Nicolás Maduro, enfrentou uma grave crise de legitimidade após as eleições desse ano, marcadas por acusações de fraude.
Na altura, as duas potências rejeitaram o reconhecimento internacional do então líder da oposição, Juan Guaidó, que se declarou presidente interino do país. Pequim e Moscovo chegaram a prestar apoio militar e económico a Maduro.
Seis anos depois, Nicolás Maduro enfrenta uma nova crise — a mais grave em mais de 12 anos de governação. Mas a China e a Rússia não mostraram vontade de o apoiar, para lá de apelos genéricos à calma e à não ingerência.
Tudo indica que, desta vez, Maduro esteja sozinho perante o que denunciou como uma tentativa de o derrubar — apesar de, de acordo com o The Moscow Times, esta segunda-feira a Rússia ter manifestado o seu “total apoio” à Venezuela.
Desde setembro, o governo do presidente norte-americano Donald Trump mobilizou cerca de 15 mil soldados e mais de 20% da capacidade de combate da marinha dos Estados Unidos para a região das Caraíbas, ao largo da costa venezuelana.
Esta mobilização inclui o porta-aviões USS Gerald R. Ford, o maior e mais sofisticado do mundo. Trump declarou que o objetivo é combater o narcotráfico, mas analistas concordam com Maduro e defendem que, provavelmente, o seu verdadeiro propósito é impulsionar uma mudança de regime na Venezuela.
Apoio limitado à retórica
Fernando Reyes Matta, diretor do Centro de Estudos sobre a China da Universidade Andrés Bello, no Chile, considera que Nicolás Maduro enfrenta uma situação crítica.
“Resta-lhe pouco tempo”, disse Reyes Matta à BBC. “Os apoios de que beneficiou no passado já não estão disponíveis em termos reais, exceto por algumas declarações retóricas.”
No final de outubro, Maduro pediu assistência à Rússia e à China para melhorar as suas capacidades militares, segundo noticiou inicialmente o The Washington Post.
O jornal norte-americano obteve documentos internos do governo dos EUA, que indicam que a Venezuela pediu, em concreto, ajuda a Moscovo para reparar aviões de combate Sukhoi, de fabrico russo, melhorar sistemas de deteção por radar e fornecer mísseis.
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O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, com o presidente da Rússia, Vladimir Putin
Questionado sobre se Moscovo estaria a prestar ajuda a Caracas, pouco depois da publicação da reportagem, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, limitou-se a dizer que o seu país mantinha contacto constante com a Venezuela, recusando-se a adiantar mais detalhes.
Também Maria Zakharova, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, afirmou em conferência de imprensa o seu “firme apoio às autoridades venezuelanas na defesa da soberania nacional”.
“Uma agressão direta agravará a situação, em vez de resolver os problemas que, potencialmente, podem ser totalmente resolvidos pela via legal e diplomática, no quadro jurídico”, sublinhou.
No dia 7, a agência russa Tass noticiou que o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Ryabkov, afirmou que o país se mantém “ombro a ombro” com a Venezuela. “Expressámos a nossa solidariedade com a Venezuela, com quem assinámos um acordo de parceria estratégica e cooperação”.
“Apoiamos a Venezuela, tal como ela nos apoia, em muitos setores. Nestes momentos difíceis, solidarizamo-nos com os líderes venezuelanos. Esperamos que o governo Trump se abstenha de agravar a situação e de a levar para um conflito em grande escala. Pedimos que aja dessa forma”, detalhou a agência russa.
Mas estas reações ficam muito longe do que se viu em 2018, quando a Rússia enviou para a Venezuela mais de 100 pilotos e militares, além de dois aviões bombardeiros com capacidade nuclear.
Esta foi na altura uma demonstração de força e de apoio face aos Estados Unidos, que tinham acabado de rejeitar os resultados favoráveis a Maduro, divulgados pelo Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela, controlado por pessoas próximas do presidente.
Outras prioridades
Reyes Matta, que foi embaixador do Chile na China, durante o primeiro governo da antiga presidente chilena Michelle Bachelet (2006-2010), sustenta que a Venezuela deixou de ser importante para Pequim e Moscovo no contexto geopolítico atual, ainda mais depois do regresso de Trump à Casa Branca.
“Hoje, não há razões para defender a Venezuela, nem para a Rússia nem para a China, tendo em conta os seus outros problemas, como a guerra da Rússia na Ucrânia e a China a tentar gerir a convivência com o presidente Trump no cenário internacional”, explica.
Desde a invasão da Ucrânia, em 2022, a Rússia canalizou enormes recursos financeiros e meios militares para uma guerra que tem drenado as suas finanças e as suas forças armadas, além de desencadear uma vaga de sanções ocidentais.
Tudo isto se traduz em menos disponibilidade de dinheiro e de armamento para aliados ideológicos que, provavelmente, perderam relevância nos planos do presidente russo, Vladimir Putin.
“A Rússia não vai arriscar-se a novas sanções, nem a China vai arriscar-se a sofrer mais tarifas de importação por defender Maduro”, disse à BBC o diretor do Laboratório de Política e Relações Internacionais (PoInt) da Universidade Icesi, em Cali, na Colômbia, Vladimir Rouvinski.
As relações entre os Estados Unidos e a China têm sido marcadas por tensões comerciais desde que Donald Trump assumiu a presidência e anunciou tarifas de importação sobre vários países.
A situação parecia complicada, mas uma reunião entre Trump e Xi Jinping, na Coreia do Sul, no final de outubro, foi descrita como positiva por ambos os líderes, abrindo portas a possíveis acordos.
Os Estados Unidos reduziram para metade a taxa de 20% sobre produtos chineses, em troca do controlo do fluxo de fentanil. Mas as tarifas sobre outros bens chineses foram mantidas, atingindo, em média, cerca de 50%.
Para Pequim, defender Maduro provavelmente significaria pôr estes avanços em risco, sem grandes benefícios para lá dos ideológicos.
A China reavalia o seu apoio a Maduro
Os documentos oficiais obtidos pelo The Washington Post indicam que Maduro também enviou uma carta ao presidente chinês, Xi Jinping, a pedir “maior cooperação militar” para enfrentar “a escalada entre os Estados Unidos e a Venezuela”.
Na carta, Maduro pediu ao governo chinês que acelerasse a produção de sistemas de deteção por radar por empresas chinesas, provavelmente para que a Venezuela amplie as suas capacidades militares.
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O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, com o presidente da China, Xi Jinping
Durante muitos anos, os empréstimos chineses à Venezuela foram essenciais para o investimento e o desenvolvimento da economia do país. Entre os anos 2000 e 2016, a Venezuela foi o principal destino dos empréstimos chineses na América Latina. Caracas recebeu nesse período entre 50 e 60 mil milhões de dólares.
Estes empréstimos representaram mais de 40% do total proveniente da China para a América Latina, transformando a Venezuela num elemento central para a expansão da influência chinesa no continente.
Mas o colapso económico do país e a deterioração da sua indústria petrolífera levaram Pequim a reavaliar o nível de apoio que deseja oferecer a Maduro. Nos últimos anos, a China reduziu a concessão de novos financiamentos. Agora, o país concentra-se sobretudo em garantir o reembolso dos empréstimos já concedidos.
Rouvinski calcula que a China não quer prejudicar, à partida, as relações que poderá vir a ter com um futuro governo de transição. “Acredito que a China esteja disposta a negociar com qualquer governo que venha a substituir Maduro e considere que apoiar excessivamente o presidente atual poderia trazer consequências negativas com a queda do regime”, defende.
‘Maduro está completamente sozinho’
Fernando Reyes Matta considera que os acontecimentos políticos ocorridos na Venezuela no ano passado também influenciaram a mudança de postura de Moscovo e Pequim em relação a Caracas.
“Não acredito que qualquer um dos dois países esteja disposto a apoiar um regime com tão pouco apoio interno. Tanto a Rússia como a China sabem que as últimas eleições presidenciais na Venezuela tiveram sinais muito evidentes de fraude”, sublinha.
As eleições de julho do ano passado foram marcadas por graves acusações de fraude. O Conselho Nacional Eleitoral, controlado pelo governo, proclamou a vitória de Maduro, mas não apresentou provas nem dados detalhados da votação, como acontecera em processos anteriores.
A isto soma-se o facto de a oposição, liderada por María Corina Machadom, que recebeu recentemente o Prémio Nobel da Paz, ter divulgado atas eleitorais que indicariam a vitória do candidato opositor Edmundo González.
“Desta vez, Maduro está completamente sozinho”, afirma Vladimir Rouvinski. “Talvez a Rússia e a China continuem a criticar a intervenção norte-americana, mas não estão dispostas a ir além disso”.
A reação dos dois países evidencia que o governo de Maduro já não pode contar com o apoio absoluto das duas potências, que tiveram um papel importante em crises anteriores.
Desta vez, a permanência de Maduro e do seu círculo dependerá provavelmente mais da sua própria capacidade de resistência — e da persistência de Donald Trump em prosseguir a campanha contra o governo venezuelano.