Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology

Uma ilustração retrata os primeiros europeus que viveram no que é hoje Ranis, na Alemanha, há cerca de 45.000 anos.
Descoberta reforça a ideia de que a expansão humana fora de África não foi um percurso linear, mas uma sucessão de movimentos, encontros e linhas evolutivas que falharam, como esta obscura linhagem de Homo sapiens.
Genomas humanos antigos, recuperados de restos fósseis na Alemanha e na República Checa, estão a mostrar aos investigadores uma linhagem de Homo sapiens que viveu na Europa durante a Idade do Gelo, que acabou por desaparecer sem deixar descendência genética nas populações atuais.
Segundo os investigadores, os dados de ADN mais antigos de humanos modernos até agora obtidos em território europeu datam de há cerca de 45 mil anos e pertencem a um grupo associado à cultura Lincombian-Ranisian-Jerzmanowician (LRJ).
Em escavações na gruta de Ranis, na Alemanha, arqueólogos recolheram fragmentos ósseos atribuídos a seis indivíduos, incluindo uma mãe, a sua filha e familiares mais distantes. As sequenciações foram realizadas por uma equipa ligada ao Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, adianta o ZME Science.
A cerca de 230 quilómetros, na República Checa, outro achado reforça a ideia de uma pequena população dispersa, mas relacionada: o ADN extraído do crânio de uma mulher encontrado em Zlatý kůň revela afinidades genéticas com os indivíduos de Ranis: poderiam ter-se conhecido.
A análise aponta para um cenário de pequenos efetivos populacionais, possivelmente na ordem de centenas de pessoas a percorrer uma Europa de tundra fria e hostil, com sinais de baixa diversidade genética, interpretada como isolamento.
Os investigadores salientam ainda que estes humanos não apresentavam variantes associadas a pele clara comum em europeus modernos, mantendo pigmentação mais escura, coerente com uma origem africana recente.
Os genomas também fornecem pistas sobre a relação com os neandertais. Os indivíduos da LRJ exibem segmentos longos de ADN neandertal, o que sugere que a mistura entre as duas populações terá ocorrido relativamente pouco tempo antes — entre 1.000 e 2.500 anos antes da vida destes indivíduos, situando o episódio de cruzamento por volta de 46 mil anos atrás. No texto, são referidos estudos recentes que apontam para períodos prolongados e possivelmente múltiplas vagas de intercruzamento.
Apesar dessa herança neandertal, a linhagem LRJ parece ter sido uma ramificação de curto alcance: sobreviveu durante dezenas de gerações em plena Idade do Gelo, mas extinguiu-se sem contribuir geneticamente para populações posteriores. A descoberta reforça a ideia de que a expansão humana fora de África não foi um percurso linear, mas uma sucessão de movimentos, encontros e também linhas evolutivas que falharam.