Cinco anos mais tarde, em 1930, a 18 de junho, a Companhia Geral de Cal e Cimento e a Secil eram fusionadas, dando origem à Secil – Companhia Geral de Cal e Cimento, Lda. E, assim, é dada “forma jurídica definitiva a uma atividade industrial que já decorria na zona do Outão desde pelo menos 1904”, escrevia-se, em 2010, numa breve história da Secil numa revista da empresa.

A empresa tinha acionistas portugueses mas também sócios dinamarqueses — a F.L. Smidth e a Hojgaard & Schultz — o que a livrou, em 1974, da nacionalização total.

“A fundação da empresa, nos termos em que foi efetuada, entre empresários nacionais e empresas dinamarquesas que então construíam o Porto de Setúbal, foi um ato de confiança no futuro, uma vez que estes empreendedores anteviram o enorme potencial geológico e logístico que aquela localização encerrava, compreendendo a necessidade de produção nacional de um bem essencial ao conforto, segurança e património das populações – o cimento Portland – cujo consumo era, em 1930, de apenas 17 quilos por habitante e que atingiu o seu máximo histórico de 1.101 quilos no ano de 2001”, descreve a mesma publicação da Secil.

Em outubro de 1931 era, então, posto em funcionamento o novo forno rotativo. É o começo da nova vida da fábrica que passava a ter uma capacidade de 46 mil toneladas.

Foi igualmente no rescaldo da I Guerra Mundial que se iniciou a construção da fábrica da Maceira-Liz. Decorreu de 1919 a 1923. Nascia, assim em Maceira, a 13 quilómetro de Leiria, pela mão de dois empresários — José Osório da Rocha e Mello e Henrique Araújo Sommer. A exploração de pedreiras não era novidade na zona. Remontam ao século XIX as raízes da indústria cimenteira naquela região.

“João Henriques Teixeira Guedes, natural de Minde, estudou bem o tipo de pedra existente em Maceira, fazendo-se acompanhar de técnicos e, entre eles, de um engenheiro francês. Após análises laboratoriais em Lisboa e na Alemanha, de que recolheu as melhores informações, decidiu fundar uma empresa de cimentos no sítio da Gândara junto dos jazigos de pedra, em 1891. A sociedade Guedes & Lopes que formou com Frederico de Sequeira Lopes, residente em Lisboa, foi dissolvida, mas João Guedes não desistiu. Mediante contrato de arrendamento, João Guedes montou na Gândara a sua «Fabrica de Cimentos de Maceira», ‘cimentos naturaes’ tipo Portland, cal-cimento e cal hidráulica”, segundo uma informação da Junta de Freguesia de Maceira que ainda dá conta de outro projeto de João Luiz de Souza, que “montou uma fábrica de cimentos na cave da sua casa, com moinhos movidos pela água da ribeira que por ali passava, não longe da Quinta do Paraíso”, para onde a fábrica de Gândara se tinha mudado.

João Luiz de Souza e João Henriques Guedes terão formado uma sociedade cimenteira, ao fusionarem as duas empresas. A sociedade resultado foi vendida, em 1928, a Henrique Sommer. Conta-se ainda no site da Junta de Freguesia que o empresário, no entanto, “não honrou os seus compromissos” com o explodir da crise económica de 1929. “É a pouca sorte!”, terá dito Henrique Sommer deixando assim a justificação para que a unidade passasse a ser conhecida como a “Fábrica da Pouca-Sorte”. Sommer não entrou no negócio nessa altura, mas mais tarde com Rocha e Mello fazem, então, o projeto da Empresa de Cimentos Liz.

Como se escreve num artigo publicado no Sapo, “os dois fundadores do projeto têm papéis distintos na história. Henrique Sommer traz o dinheiro, o jovem engenheiro civil José Osório da Rocha e Mello traz a ideia e o saber fazer, nomeadamente com o que tinha visto no país onde irá mais tarde buscar operários qualificados, a Alemanha”. Houve que construir um bairro habitacional para os trabalhadores e um ramal ferroviário para permitir o transporte de cimento.

A fábrica passou pela II Guerra Mundial e outras dificuldades mas foi seguindo caminho. Em 1942 viu entrar na administração António de Sommer Champalimaud, sobrinho de Henrique. Tinha 24 anos. Dois anos depois o tio morreu. António, então com 26 anos, assumiu a liderança da empresa. Henrique Sommer já tinha, em 1935, tomado a maior posição na Companhia Cimentos Tejo, a tal que tinha a fábrica de Alhandra.

Henrique Sommer morre sem deixar filhos, deixando ao sobrinho a herança que acabou em tribunal a ser disputada pelos irmãos de António Champalimaud. Henrique, Carlos e Maria Ana apresentaram queixa contra o irmão que acabou fugido do país e anos mais tarde a disputar a herança em tribunal. Mas foi António que ficou dono e senhor do império dos cimentos, depois de ainda ter comprado a Companhia de Carvões e Cimentos do Cabo Mondego.

Por volta do ano em que António Champalimaud assumiu responsabilidades na Maceira, era iniciada, a 26 de junho de 1946, a construção da Fábrica de Cimentos Cibra, em Pataias, na região de Alcobaça. Inaugurada em 1950 para a produção de cimento branco, veria a sua produção alargada, em 1961, ao cimento Portland (o designado cimento cinzento). Joaquim Matias (1899-1981) foi o empresário que deu origem a esta cimenteira, numa altura em que tomava a gestão da fábrica de mosaicos hidráulicos e mármores artificiais (SCIAL).

As duas empresas, nacionalizadas a 9 de Maio de 1975, vieram a integrar o universo Cimpor, que resultou da organização do setor cimenteiro nacionalizado.

A Cimpor foi criada a 26 de março de 1976. Resultou da fusão de sete cimenteiras nacionalizadas no ano anterior: Cisul, Cinorte, Empresa de Cimentos de Leiria, Companhia de Cimentos Tejo, Companhia de Carvões e Cimentos do Cabo Mondego, Sagres – Companhia de Cimentos do Algarve e Cibra – Companhia Portuguesa de Cimentos Brancos.

Na mesma altura foi nacionalizada a posição portuguesa da Secil, de 51%. Ficaram “a salvo” as participações das empresas dinamarquesas. “São nacionalizadas as ações da Secil – Companhia Geral de Cal e Cimentos, S. A. R. L., salvo as pertencentes a indivíduos de nacionalidade estrangeira que as tenham adquirido mediante importação de capitais devidamente autorizada ou a sociedades que não reúnam os requisitos de nacionalidade portuguesa”, lê-se no decreto de nacionalização.

Nacionalizadas no pós-25 de Abril, foi no mandato de Aníbal Cavaco Silva que se preparou a venda da Cimpor. Uma guerra aberta com o secretário de Estado Seixas da Costa inquinou a venda. Pedro Queiroz Pereira, filho de Manuel Queiroz Pereira, ex-dono da Cinorte, queria que o setor cimenteiro fosse um duopólio, repartido. Mas havia dúvidas sobre vender a Cimpor, no seu conjunto, ou fazer alguma cisão. O desfecho foi uma venda da participação da Secil em conjunto com a CMP – Cimentos de Maceira e Pataias.

Pedro Queiroz Pereira foi à privatização. Tinha como concorrente o empresário macaense Stanley Ho, recordou a Visão quando Pedro Queiroz Pereira morreu. Acabou por comprar a Secil/CMP por 80 milhões de contos (cerca de 400 milhões de euros) em 19 de abril de 1994. Foi por esta altura que se foi agudizando a relação do empresário Queiroz Pereira com o grupo Banco Espírito Santos e, em particular, com Ricardo Salgado e algum confronto com as suas irmãs. A Cimpor também entra em bolsa em 1994, mas já não teria os ex-donos no seu capital, mas nunca deixou de ser cobiçada por gigantes do setor e sempre por Pedro Queiroz Pereira.