Ela teria previsto o 11 de Setembro, Chernobyl e até o fim do mundo. Todos os anos, especialmente na virada do calendário, o nome de Baba Vanga ressurge nas redes sociais como uma espécie de “spoiler” do que estaria por vir. Mas, diante de tantas previsões atribuídas à vidente búlgara, fica a pergunta: dá mesmo para acreditar que ela enxergava o futuro — ou estamos diante de um fenômeno alimentado por interpretações vagas e desinformação?
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Baba Vanga, nascida Vangelia Pandeva Dimitrova, morreu em 1996, mas continua sendo citada como autora de profecias que atravessariam séculos. Entre guerras globais, contatos com extraterrestres e colapsos ambientais, suas supostas visões costumam ganhar força no mundinho online sempre que um novo ano se aproxima, como se oferecessem pistas sobre o destino da humanidade.
A biografia da mística ajuda a explicar o fascínio. Nascida em 1911, em uma região que hoje faz parte da Macedônia do Norte, Vanga perdeu a visão aos 12 anos após um episódio atribuído a um tornado. A partir daí, passou a ser vista como clarividente, recebendo visitantes em busca de orientações espirituais, previsões e curas alternativas, especialmente durante e após a Segunda Guerra Mundial.
O problema começa quando se observa que Baba Vanga nunca deixou registros escritos. Analfabeta, todas as previsões que lhe são atribuídas foram documentadas por terceiros, sobretudo familiares e seguidores, depois de sua morte. Não há um conjunto oficial, verificável ou consensual de profecias, o que abre espaço para versões contraditórias, adaptações posteriores e até invenções completas.
Baba Vanga ficou cega misteriosamente quando criança após uma grande tempestade — Foto: Reprodução
O que Baba Vanga teria previsto e não ocorreu
Entre as previsões que claramente não se concretizaram está a da Terceira Guerra Mundial. Segundo relatos recorrentes, Baba Vanga teria afirmado que um conflito global começaria em novembro de 2010 e se estenderia até outubro de 2014. O período passou sem que a guerra anunciada ocorresse, apesar de conflitos regionais e tensões diplomáticas.
Outra profecia frequentemente citada como falha envolve a Copa do Mundo de 1994. A vidente teria previsto uma final disputada por “duas seleções que começam com a letra B”, interpretação que alimentou expectativas na Bulgária — que, no entanto, não chegou à decisão do torneio realizado nos Estados Unidos.
Há ainda a previsão de que o 45º presidente dos Estados Unidos seria o último do país. Donald Trump, que ocupou o cargo entre 2017 e 2021, foi sucedido por Joe Biden, desmontando a narrativa atribuída à vidente.
Mais recentemente, previsões atribuídas a Baba Vanga para 2023 também não se confirmaram. Entre elas estavam uma grande explosão nuclear em uma usina, uma alteração na órbita da Terra, uma tempestade solar devastadora, o uso de uma arma biológica por uma superpotência e até o fim das gestações naturais. Nenhum desses cenários se concretizou.
O fato é: há fragilidade nessas narrativas. Um artigo publicado pelo Washington Post em 2012 apontou que muitas das previsões associadas a Baba Vanga surgiram ou se popularizaram em fóruns conspiracionistas russos, sem qualquer base documental que comprove sua origem direta na vidente.
Há também quem diz que a linguagem atribuída a Baba Vanga segue um padrão comum a outros clarividentes famosos, como Nostradamus: frases vagas, simbólicas e abertas a múltiplas interpretações. Esse tipo de discurso facilita a associação retrospectiva com eventos reais, mesmo quando não há correspondência objetiva.
Isso não significa que todas as previsões atribuídas a ela sejam consideradas falsas por seus seguidores. Entre as mais citadas como “acertos” estão interpretações sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, o desastre nuclear de Chernobyl, a eleição de Barack Obama e a queda da União Soviética. Em todos os casos, no entanto, as associações foram feitas depois dos fatos, sem registros contemporâneos que comprovem as declarações.
Para 2026, circulam previsões sobre contato com extraterrestres, desastres naturais em larga escala, conflitos globais e avanços tecnológicos radicais. Nenhuma delas tem respaldo científico ou institucional, e não há evidência de que Baba Vanga tenha, de fato, antecipado qualquer evento com precisão comprovável.
Sem provas, sem registros diretos e com uma longa lista de erros, Baba Vanga permanece menos como uma profeta do futuro e mais como um fenômeno cultural — que, apesar de popular, merece ser encarado com cautela.