Depois de uma mensagem de Natal e Bom Ano para os sportinguistas através dos canais internos, várias mensagens para fora com dois grandes destinatários. No final do triunfo do Sporting em Guimarães por 4-1, que permitiu que os leões voltassem ao segundo lugar isolado a cinco pontos do líder FC Porto e com mais três do que o Benfica apesar de terem um registo melhor do que nas duas épocas do bicampeonato (38-37), Frederico Varandas teve uma longa presença na zona mista do Estádio Dom Afonso Henriques para uma intervenção que em muitos momentos se tornou quase um monólogo para fazer uma reflexão sobre a atual fase do futebol português onde assumiu lances em que sentiu ter sido beneficiado mas onde abordou todo o clima que se tem levantado entre os principais clubes portugueses sobretudo na presente temporada.
“Vínhamos aqui desfalcados. Temos tido algumas lesões, ausências pela CAN, mas mostrámos a força do grupo, do plantel. Foi um jogo à bicampeão”, começou por referir o líder dos leões, antes da primeira pergunta sobre toda a polémica na sequência do jogo nos Açores com o Santa Clara que abriu “hostilidades”.
“O Sporting, na vitória ou na derrota, mantém a sua postura. Também somos humanos e cometemos falhas. Há dias em que não estamos tão bem. Mas tento sempre não fugir à postura que entendo ser a de gerir um clube desportivo e ter a cultura desportiva necessária. Sou obrigado a vir defender sobretudo o bom nome do Sporting. Quem não se sente não é filho de boa gente. Vou ter de dizer isto: temos de recuar um bocadinho e volto sempre a esta história. Durante décadas, a arbitragem não era independente, tinha um dono. FC Porto, Benfica. Foram décadas. Com nomes. Pinto da Costa, Luís Filipe Vieira. Eu tenho 46 anos, vocês são da minha geração, crescemos assim. Crescemos onde o erro normal, seja do treinador, do jogador, do presidente ou do árbitro, teve uma forma completamente desproporcionada”, apontou Varandas.
“Desde Fontelas Gomes e Luciano Gonçalves que a arbitragem não tem dono. Garanto. Quando digo livre e independente não é uma arbitragem sem erros. Tem erros. Não admito é que me digam que a arbitragem está pior, que este ano está horrível, que antes era muito boa. Está pior em quê? A arbitragem, hoje, não tem dono. Não tem. E o que acontece? Se a arbitragem for assim, numa maratona de 34 jornadas, é normal que os erros humanos sejam proporcionais entre vários clubes”, prosseguiu o presidente leonino.
“As pessoas não estão preparadas, inclusive parte da comunicação social, para ver erros a favor do Sporting. Eish, o que é isto? Erros a favor do Sporting? Vamos lá, Santa Clara. Penálti assinalado pelo João Pinheiro. A minha opinião: não é penálti. Mas vamos dizer a verdade do lance. Vejo ex-árbitros, comentadores, árbitros que sabem a verdade. Andou-se 14 minutos a tentar encontrar uma falta? É mentira. Há toque na cara? Há. O VAR, para mim mal, faz referência ao João Pinheiro a dizer que há penálti. A seguir estiveram, de forma inexplicável, 13 ou 14 minutos a ver se há fora de jogo. Ok? Pronto. O presidente do Sporting considera que não há penálti e foi completamente incompreensível como ficam 12 minutos a tentar encontrar um fora de jogo. O que aconteceu? Escândalo nacional. Não se falava noutra coisa”, comentou.
“Foi um escândalo nacional, que o Sporting controla tudo. Quem é o árbitro? Provavelmente o melhor árbitro português. Só vou falar desde que sou presidente, em que fez em sete anos inúmeros jogos infelizes com decisões em jogos que deram títulos. Vi alguma indignação, alguma capa de jornal, aberturas de telejornais? Mas não é preciso recuar sete anos. Basta ir a 24 horas antes [do Santa Clara-Sporting] e há um Farense-Benfica onde vi, quando estava 0-0, uma simulação de um jogador do Benfica que o árbitro, mal, assinala falta e livre. Golo do Benfica. O que aconteceu? Nada. Há um mês, um canto mal assinalado nos Açores deu golo do Sporting. Vou repetir. Mal assinalado. O que deu? Capas de jornais, uma vergonha, falam em anticiclones. Então e o silêncio que há em Faro? Por que razão há dois pesos e duas medidas? As pessoas não estão habituadas ao erro natural a favor do Sporting mas terão de habituar-se. Se houver erros, é normal haver para todo o lado. O que não é normal, e aí grande parte da comunicação social tem responsabilidade, é não haver este tratamento noutros clubes”, continuou, numa fase em que recordou também a Champions.
“O Benfica já teve nove penáltis. Não vou falar, analisem. O de ontem? O que seria se fosse o Sporting… Mais: ex-árbitros, se fosse o Sporting, diriam que não era penálti. Não tenho a menor dúvida. Houve erros de certeza mas esta histeria coletiva? Não brinquem… Isto para mim é muito importante: hoje caminhamos para um nível de ruído completamente absurdo. O Sporting joga a Champions. Quem está lá? Os melhores árbitros internacionais. Se fosse pelo árbitro de campo, o Sporting se calhar tinha três pontos em vez de dez. Com o Nápoles? Expulsão vergonhosa perdoada ao De Bruyne. Com o Marselha em casa, três erros capitais revertidos. Com o Club Brugge, um vermelho direto do nosso capitão que não foi nada. Isto são árbitros internacionais. O melhor árbitro português assinala mal e coloca-se em causa a arbitragem?”, questionou.
“Isto atingiu um ponto insustentável? Para os paraquedistas que chegaram agora, insustentável foram 40 anos de fruta, 40 anos de reuniões de presidentes Luís Filipe Vieira e Pinto da Costa a discutir quem eram o presidente da Liga e da Federação, 40 anos de missas, padres e agentes de futebol a comprarem jogadores para perderem jogos. Isso é que era insustentável. E não admito. Já acabaram as eleições. E continua esta obsessão. O presidente [do Benfica] faz a brincadeira que chega 12 minutos atrasado ao discurso de Natal. Não é novidade nenhuma, o campeonato acaba e o Benfica costuma chegar atrasado. Isso é normal…”, frisou Frederico Varandas, antes de virar também o foco para o rival azul e branco dentro da mesma “estratégia”.
“Em relação ao FC Porto, porque não é só o Benfica. São duas estratégias de comunicação de histerismo, de ruído. O FC Porto lançou um comunicado a seguir ao grande drama dos Açores onde dizia que o presidente da Federação tinha de tomar medidas, a dizer que estava uma advogada do Sporting na Comissão… O Sporting não vota em caras nem em pessoas, o Sporting vota em projetos. E uma das coisas que Pedro Proença tinha eram grupos de comissões para reflexão na Federação. Sobre a arbitragem, sobre treinadores, sobre jogadores, sobre infraestruturas e competições. Grupos que não têm qualquer poder deliberativo. É para reflexão do futebol português. E a Federação convida os delegados a inscreverem-se. O Sporting recebeu o convite. Patrícia Lopes, arbitragem, Miguel Nogueira Leite, curso de treinadores. Inscrevia-se quem queria. Um grupo que vale zero, que é reflexão. Não há nomeação de árbitros”, disse.
“Nem está no Conselho de Arbitragem. Toda a gente critica tanto a arbitragem. Quero que os árbitros sejam cada vez melhores, que falhem cada vez menos, que o VAR não se desligue das tomadas. Este Conselho de Arbitragem está a fazer coisas passo a passo. As notas passaram a ser públicas, isso é importante. Há erros? Há. Podemos ter melhores árbitros? Podemos. Mas este clima criado, e voltando ao FC Porto… Como é que fazem um comunicado assim? Ou é profunda ignorância de estrutura, que não acredito, ou é mentir só para criar ruído. Têm tanta preocupação que já passaram 50 dias do FC Porto-Sp. Braga e vocês estão satisfeitos com o resultado da auditoria? O que se passou com o Fábio Veríssimo? Ouvi o presidente do FC Porto dizer que ia fazer uma auditoria. 50 dias, meus amigos. E vocês, perguntas? Não fazem perguntas? Não há conferências de imprensa?”, voltou a visar Frederico Varandas sem interrupção.
“A situação está irrespirável sobretudo para os árbitros. E a verdade é que o Sporting perde títulos e não se queixa da arbitragem, o Sporting fica em quarto e não se queixa da arbitragem, e quando vocês querem criticar dizem ‘Ah, os três grandes e esta narrativa…’. O Sporting não se desculpa com arbitragem. Já perdi Taças da Liga, Taças de Portugal. Chegámos ao ponto ridículo de este ano dois árbitros terem sido nomeados e há comunicados a criticar escolhas dos árbitros. Só há uma maneira: não vai ser fácil passar isto em Assembleia Geral de Clubes. Já liguei ao presidente da Liga. O regulamento tem de ser alterado e tem de ser assim: o presidente do Sporting fala de arbitragem, [multa de] 100 mil euros. O presidente do FC Porto fala sobre arbitragem, 100 mil euros. O Benfica faz um tweet, 100 ou 200 mil. É a única maneira de respirarmos. E vamos ver como é daqui para a frente. Esta histeria coletiva, isto, para ali para dentro, para o balneário do Sporting, é gasolina. Gasolina super para o tricampeonato”, concluiu o líder leonino.