Autor dos ataques terroristas de Paris em 2015 era o “ídolo” de um dos suspeitos; o outro dizia-se um “terrorista” com “orgulho”. Plano para matar judeus indiscriminadamente foi interrompido por uma investigação secreta do MI5
Dois extremistas do Estado Islâmico foram considerados culpados de planear um ataque direcionado à comunidade judaica em Inglaterra que visava matar centenas de pessoas com espingardas de assalto e pistolas.
Os dois homens planeavam vestir roupas judaicas e deslocar-se até Prestwich, onde abririam fogo com armas automáticas sobre qualquer pessoa que se encontrasse no local, avançou a Sky News. O objetivo era simples: matar o máximo de judeus possível como forma de retaliação pelos ataques israelitas a Gaza.
Teria sido o “ataque terrorista mais mortífero da história do Reino Unido”, afirmou o subchefe da polícia da Grande Manchester, Rob Potts, dando conta de que o ataque estava planeado para uma zona movimentada da comunidade judaica da cidade inglesa.
O Tribunal da Coroa de Preston considerou culpados os autores do plano, Walid Saadaoui, de 38 anos, e Amar Hussein, de 52 anos por prepararem atos de terrorismo entre 13 de dezembro de 2023 e 9 de maio de 2024. Também o irmão do suspeito mais novo, Bilel Saddaoui, foi julgado e declarado culpado por não partilhar com as autoridades as informações a que tinha acesso, apesar de ter recusado participar no ataque.
Walid Saadaoui, antigo proprietário de um restaurante italiano, foi acusado de querer replicar os ataques terroristas de Paris em 2015 – onde morreram 130 pessoas -, liderados por Abdelhamid Abaaoud, que dizia ser o seu “ídolo”. E queria fazê-lo em conjunto com Amar Hussein, um antigo soldado iraquiano que trabalhava na Salim Appliances, uma loja de eletrodomésticos em Bolton, e que tinha no seu registo criminal apenas uma condenação por porte de arma branca.
O MI5, que conduziu uma operação secreta, acredita que Saadaoui tinha anteriormente estado em contacto com um extremista chamado Hamid al Masalkhi, de Cardiff, que deixou a Grã-Bretanha para se juntar ao ISIS em 2013. Numa fase inicial do plano, o suspeito terá vendido a sua casa e usado parte do lucro para pagar cinco mil euros como um adiantamento inicial para quatro espingardas de assalto AK-47, duas pistolas e 1.200 munições, enquanto planeava o ataque armado e pedia a Hussein que se juntasse.
A anatomia do ataque
Foi Saadaoui, segundo as informações avançadas por aquele canal, o impulsionador do plano. Já publicava regularmente declarações do ISIS no Facebook desde 2022, utilizando nomes falsos para gerir pelo menos dez contas diferentes, cujas imagens de perfil eram uma fotografia de Abaaoud, o autor dos ataques de Paris em quem se inspirou.
Estas publicações viriam mais tarde a trair as intenções do suspeito, já que foi a partir delas que o MI5 decidiu iniciar uma investigação com o nome de código “Operação Catogenic” – a maior e mais complexa operação antiterrorista conduzida no Noroeste, segundo as autoridades.
A 9 de dezembro de 2023, a unidade de informação e investigações online da agência de segurança britânica colocou o suspeito de 38 anos sob vigilância e entrou em contacto direto com ele através de um agente infiltrado, chamado Farouk, que lhe terá pedido amizade no Facebook.
Farouk tomou conhecimento do plano poucos dias depois, quando contactado por Saadaoui a propósito do lançamento de um ataque que visava “matar o maior número possível”, neste caso de judeus. O autor do crime confessou ainda ao agente querer seguir as “pegadas” de Abaaoud, que voltou a mencionar numa mensagem de voz publicada no dia de Natal de 2023. “Queremos fazer o mesmo que Abaaoud fez, se Deus quiser. Temos de fazer correr rios de sangue impuro”, afirmou.
Na mesma mensagem de voz, referiu-se aos recentes atropelamentos em massa que criticou por serem “ineficazes”, assim como a utilização de “uma faca” para fazer vítimas mortais. “O que é preciso é uma arma automática”, frisou.
Depois de o cabecilha se encontrar com o agente infiltrado pessoalmente para discutir o contrabando das armas, que dariam entrada no país como peças de automóvel, disfarçadas num ferry, Saadaoui sintetizou o plano: “Se realizarmos esta operação, visamos os judeus. Começamos pelos judeus e, se houver cristãos apanhados no ato, é um bónus, mas começamos pelos judeus.”
Mais tarde, ambos deslocaram-se até Prestwich, numa viagem de reconhecimento à zona, onde passaram por creches, escolas, restaurantes, cafés e sinagogas judaicas, chegando a entrar num supermercado kosher.
“Imagina-te entre eles a usar uma mochila e depois começas. Eles não teriam para onde fugir”, disse Saadaoui, admitindo que queria atacar “jovens, velhos, mulheres, idosos, todos, matando-os a todos.”
Tudo indicava que se tratava de um “planeador de ataques genuíno e credível”, disse Rob Potts, que caracterizou o principal autor do crime como um “homem extremamente perigoso” e Hussein como um “terrorista fanático que está irremediavelmente fixado nas suas opiniões, ideologia e mentalidade”. A crença numa ameaça real para a população judaica foi corroborada por Farouk, que informou os seus superiores de que Saadaoui “mataria muita gente” se não interviessem.
Saadaoui foi apanhado “em flagrante” pela polícia no momento em que recebeu o primeiro conjunto de armas, fornecidas e desativadas pela polícia, alocadas na bagagem de um carro alugado. Quando o outro par, Hussein, foi detido admitiu ser um “terrorista” e ter “orgulho” em sê-lo. “Não vem de nós, Deus enviou-nos. Somos o exército de Deus”, acrescentou.
Face à detenção bem-sucedida dos suspeitos, o diretor-executivo da organização judaica Community Security Trust, Mark Gardner, elogiou a eficácia das autoridades ao impedirem “indivíduos incrivelmente perigosos” de executar a conspiração, alertando para a frequência dos ataques terroristas a visar judeus que se verifica “desde a década de 1960”: “Os nomes de quem os conduz mudam, mas a natureza dos ataques é exatamente a mesma”.
O responsável foi mais longe e comparou a ideologia jihad à ideologia nazi, acusando os suspeitos de quererem matar judeus indiscriminadamente. “Querem matar judeus. Não lhes interessa quem são esses judeus. Não param para perguntar a esses judeus qual é a sua opinião sobre Israel, ou se apoiam o Manchester United, ou qualquer outra coisa. Querem matar judeus, ponto final. É o mesmo que os nazis”, sublinhou.
A acusação, conduzida pela procuradora Harpreet Sandhu, argumentou no tribunal que Saadaoui estava “desesperado por pôr as mãos em armas de fogo” e “pretendia causar uma perda colossal de vidas humanas através do ataque terrorista que planeou”. Já o suspeito alegou estar sob ameaça de um membro “de alto escalão” do ISIS que tinha conhecido numa mesquita em Norwich. Hussein recusou comparecer durante grande parte do seu julgamento.