Ameaçado de morte pela revolução digital, o jornalismo sofreu perdas pesadas nos últimos 30 anos. Mas sobrevive e segue buscando se reinventar. Em muitas situações, ainda mantém a sua relevância. E, não menos importante, apresenta disposição para discutir os seus erros. Quatro documentários lançados recentemente pela Netflix demostram que o jornalismo está muito vivo.
O filme sobre o centenário da revista The New Yorker é o melhor exemplo. Durante um ano, a equipe do cineasta Marshall Curry circulou por todas as áreas da publicação, filmou reuniões, entrevistou profissionais e procurou entender qual é o segredo de uma semanal vista por muitos como esnobe e elitista.
Um dos temas é como a revista consegue manter a identidade e, ao mesmo tempo, não parecer antiquada. A tensão permanente entre o passado e o presente é um dos segredos, diz o diretor criativo da publicação.
Não menos importante, vários depoimentos mostram o investimento permanente em crítica cultural. O rigor com a qualidade da informação é igualmente prioritário. Uma equipe de checagem, com 29 pessoas, analisa todos os textos. O processo de edição final, descrito por um profissional como uma colonoscopia, reúne o autor da matéria, o editor, um checador e um revisor.
David Remnick, o diretor da revista, resume. “Isso tem alma. Tem senso de propósito, decência e qualidade. Deve se autoquestionar. Deve aprender com a experiência. Deve ser capaz de mudar de ideia. Mas é um movimento. É uma causa para coisas grandiosas. Se isso soa presunçoso, não me importo.”
Em “O Freelancer: O Homem por Trás da Foto”, o cineasta Bao Nguyen investiga a autoria de uma das fotos de guerra mais famosas da história, a imagem de uma criança vietnamita, atingida por uma bomba de napalm, correndo nua por uma estrada, em Trang Bang, em 1972.
Creditada a Nick Ut pela Associated Press, a foto tem autoria questionada. A investigação, por quase dois anos, teve início depois que o fotógrafo Gary Knight ouviu de um editor de fotografia da AP em Saigon que o crédito foi atribuído erroneamente a Ut.
Não vou dar nenhum spoiler porque “O Freelancer” é quase um filme de mistério. Não se trata de uma investigação irrelevante. A imagem ganhou o Pulitzer e o prêmio de foto do ano da World Press Photo, duas das maiores honrarias do meio.
Já “Caso Eloá: Refém Ao Vivo”, sobre o trágico e célebre sequestro e morte de uma adolescente, em Santo André, em 2008, procura discutir os muitos erros cometidos pela polícia e pela imprensa na época. O maior problema do documentário é que a história é contada justamente pelos que mais erraram no caso, a polícia e a mídia. Sonia Abrão, que entrevistou o sequestrador ao vivo, enquanto ele mantinha a refém em cativeiro, mal é citada e não fala no filme.
E nesta sexta, a Netflix lança um quarto documentário sobre o jornalismo. “Seymour Hersh: Em Busca da Verdade”, já exibido no Festival de Veneza, descreve a trajetória de um dos mais importantes repórteres investigativos americanos.
Ele revelou detalhes de um massacre cometido por soldados americanos no Vietnã, em 1968. Em 2004, denunciou torturas sofridas por prisioneiros em Abu Ghraib após a invasão do Iraque pelos EUA. Dirigido por Laura Poitras e Mark Obenhaus, o filme está pré-indicado ao Oscar.
Não deixa de ser irônico que esses quatro documentários sejam produções da Netflix, uma das empresas que mais contribuiu para a revolução digital.
Faço uma pausa neste fim de ano e retorno com a coluna em 15 de janeiro.
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