
“Não comece 2026 com o pé direito”. Com estas palavras, a atriz Fernanda Torres instalou a polémica. A icónica Havaianas está a ser boicotada pela direita associada a Bolsonaro e já perdeu 22,7 milhões de euros em valor de mercado.
E o boicote está a resultar: depois da campanha publicitária protagonizada pela atriz Fernanda Torres — protagonista do filme Ainda Estou Aqui, que fez história nos Globos de Ouro e Óscares — a dona da marca Havaianas, Alpargatas, perdeu cerca de 22,7 milhões de euros em valor de mercado numa só sessão na bolsa brasileira. Mas afinal o que é que levou a isto?
Para muitos ouvidos, as palavras da atriz com veia lusa não passaram de um simples conselho para o ano novo: em vez de entrar com um pé, entre “com os dois pés” em 2026. Mas os termos “direita” e “esquerda” tornaram-se gatilhos identitários e a mensagem foi entendida por muitos outros como provocação política. Eis as palavras da atriz no anúncio que fez estalar a polémica:
“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar: sorte não depende de você, né? Depende de sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser! Vai com tudo! De corpo e alma, da cabeça aos pés.”
Figuras públicas e políticas associadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro reagiram cedo. O deputado Rodrigo Valadares acusou a Havaianas de fazer “campanha política explícita”; Nikolas Ferreira, também deputado, fez questão de trocar o slogan da marca, “Havaianas: todo mundo usa”, por “Havaianas, nem todo mundo agora vai usar”.
E assim o anúncio foi espalhando-se nas redes sociais, onde já conta com muitos milhões de visualizações — e também muitos comentários e republicações a “gozar” com Bolsonaro e a sua tentativa recente de cortar a pulseira eletrónica enquanto em prisão domiciliária.
E se a Havaianas lançasse uma tornozeleira eletrônica só para o pé direito? pic.twitter.com/ISBniwm0uF
— Pobre de Direita 🇧🇷 (@Pobre_d_Direita) December 22, 2025
Mas esta segunda-feira, o ruído fez-se mostrar nas ações. As ações da Alpargatas recuaram 2,4%, para 11,44 reais (cerca de 1,73 euros), num dia em que o principal índice da bolsa, o Ibovespa, caiu apenas 0,21%, segundo a consultoria Elos Ayta, citada pelo Jornal Económico. A queda levou a uma redução estimada de 152 milhões de reais (22,7 milhões de euros) na capitalização bolsista.
Traduzindo estes números: os investidores reagiram com receios de associação da marca a uma disputa identitária e receios de um boicote que afete as vendas dos famosos chinelos de dedo, embora o impacto, segundo os analistas, deva ser de curto prazo. Muitas vezes, a dinâmica segue um padrão: indignação intensa, pico de visibilidade, chamadas ao boicote e, depois, dissipação gradual.
Não foi mau para todos: pelo contrário. A Ipanema, concorrente direta da Havaianas, beneficiou do efeito e registou um salto expressivo de seguidores no Instagram — certamente com ideologias de direita.
Nem uma, nem outra marca se pronunciaram até ao momento sobre a polémica, o que pode ser visto como uma estratégia de descompressão: às vezes as marcas preferem não responder formalmente a estes fenómenos, de forma a não alimentar mais debate. Embora essa estratégia possa acarretar riscos, nomeadamente quando a narrativa que domina nas redes transforma a opinião de um lado da discussão na “verdade”.