Cientistas especializados em paleogenética estão revolucionando a forma como se estuda a história humana ao extrair DNA antigo diretamente de sedimentos de cavernas, criando um tipo de arquivo biológico que funciona como uma cápsula do tempo para registrar quem viveu nesses ambientes ao longo de dezenas de milhares de anos. Essa técnica representa um avanço além da análise tradicional de ossos e artefatos, permitindo que pesquisadores identifiquem traços genéticos mesmo em locais onde nenhum resto esquelético foi preservado.

Ao coletar amostras de solo de cavernas, equipes de arqueologia, genética e bioinformática estão conseguindo acessar fragmentos de DNA que pertencem não só a humanos antigos, como também a outras espécies que habitaram a mesma região. Em alguns casos, é possível até identificar material genético deixado por fezes ou pele de animais e humanos, consolidando um novo tipo de registro arqueológico além de artefatos tradicionais ou fósseis óbvios.

Esse tipo de análise tem sido aplicado em sítios importantes na Europa, como as cavernas da junção dos Montes Jura Suábios, onde vestígios de ocupação humana remontam à Era do Gelo. As condições estáveis presentes no interior das cavernas — com pouca luz, temperatura constante e pouca perturbação — ajudam a preservar moléculas muito frágeis por longos períodos de tempo, transformando camadas de sedimento em verdadeiros arquivos genéticos dos ecossistemas passados.

DNA dos humanos

A extração de DNA de sedimentos também está ampliando a compreensão sobre a presença de diferentes grupos humanos em um mesmo lugar e em diferentes épocas. Por exemplo, pela análise de sedimentos de cavernas já foi possível identificar traços genéticos de neandertais e de outros humanos arcaicos em camadas onde fósseis não haviam sido encontrados anteriormente, provando ocupações que antes eram desconhecidas apenas por métodos arqueológicos tradicionais.

Essas técnicas podem esclarecer questões como se humanos modernos e neandertais ocupavam as mesmas cavernas ao mesmo tempo, como interagiam e quais espécies de animais compartilhavam esses ambientes. Isso traz insights não apenas sobre a presença humana antiga, mas também sobre como os ecossistemas inteiros evoluíram durante a Era do Gelo e como a atividade humana se encaixou nesse quadro.

A recuperação de DNA de sedimentos também pode revelar informações sobre grandes mudanças ambientais e de fauna, incluindo a presença de predadores como hiena das cavernas que viveram há cerca de 40 mil anos, além de espécies extintas de mamíferos. Esses dados ajudam a reconstruir paisagens ecológicas completas e a entender como diferentes grupos de hominídeos e outras espécies interagiam com seu entorno.

Apesar de promissora, a técnica apresenta desafios técnicos importantes. O DNA nesses sedimentos geralmente está degradado e contaminado por material moderno, exigindo laboratórios ultraclean, equipamentos robóticos e métodos bioinformáticos sofisticados para distinguir verdadeiras sequências antigas das contaminações recentes.