Muitos dos seniores que se candidatam “vivem sozinhos, têm muita resistência à mudança e já estão acomodados à solidão”. Do outro lado, os jovens, além de estarem “desesperados porque não têm alojamento” para prosseguirem os estudos, sentem-se, também eles, muito sozinhos, explica a Une.Idades
Aos 64 anos, Maria José vivia sozinha em casa, em Lisboa. A engenheira química estava reformada “há alguns anos” e tinha a companhia dos netos “uma vez por semana”. “Éramos cinco em casa, sempre foi uma família grande. E estar sozinha em casa, para mim, não faz muito sentido”, conta à CNN Portugal.
Vera tinha acabado o secundário no Porto, onde vive com a família, e decidiu prosseguir os estudos em Lisboa. “Tive de andar à procura de residências e a oferta não era muita”, diz a estudante de Música, que se assume como “uma pessoa muito sossegada e introvertida” e que procurava “um ambiente mais familiar do que propriamente uma residência de estudantes”.
De pontos opostos no mapa, foi através da plataforma Une.Idades, uma organização sem fins lucrativos que tem como missão “o combate à solidão e isolamento social dos seniores e a resposta à crise habitacional dos estudantes universitários”, que ambas se conheceram, no ano passado. Maria José tinha um quarto vago em casa e soube do projeto através de um familiar. “Quis juntar o útil ao agradável e ajudar um jovem estudante a ter uma casa.”
Inscreveram-se ambas na plataforma, que oferece duas opções de candidatura – uma destinada a seniores com idade igual ou superior a 60 anos e que têm um quarto disponível em casa e outra destinada a jovens estudantes universitários até aos 35 anos.
Numa primeira fase, os candidatos têm de preencher um questionário, onde devem “especificar da melhor forma possível os seus dados, características pessoais, expectativas e necessidades”. A ideia é reunir o máximo de informação possível sobre os candidatos para encontrar um par ou um match adequado.
Maria José confessa que “não tinha preferência nenhuma” quando fez a candidatura, nem colocou quaisquer “limitações”. Queria apenas uma companhia casual, alguém com quem conversar quando estivesse em casa. “Quero dizer, eu tenho 64 anos, mas não estou incapacitada. Ainda faço as refeições, faço ginástica e saio todos os dias. Portanto, era mais a companhia”, confessa.
Após a candidatura, segue-se uma primeira entrevista com uma equipa da Une.Idades, que procura fazer “uma avaliação cuidadosa” do candidato, desde logo dos seus “desejos, expectativas, motivações, traços de personalidade e hábitos de convivência”. No caso dos seniores, a equipa faz ainda uma avaliação das condições do alojamento.
Um “match de sucesso”
Uma vez identificado um “potencial par”, a plataforma propõe um encontro entre ambas as partes na casa do anfitrião, com a supervisão de um técnico da Une.Idades. Cabe às duas partes a decisão de avançar para o próximo passo e, nesse caso, declara-se um “match de sucesso”, com a assinatura de um contrato, cujo “valor total a pagar pelo estudante estará sempre abaixo do valor médio do mercado”, garante a plataforma.
Foi assim no caso de Maria José e Vera. “Primeiro, fizemos uma videochamada, porque ela é do Norte. Depois, ela veio cá com os pais. Eles até estavam de férias e passaram por cá no verão. Vieram conhecer-me a mim e à casa. E pronto, eu gostei dela, é uma menina muito educada e calminha, e ela gostou de mim.”
Entretanto, já se passou mais de um ano. Para a estudante de 19 anos, a adaptação à nova companheira de casa “foi muito natural”. “Normalmente, passo muito tempo fora de casa por causa das aulas, mas costumo jantar com a Maria José todos os dias e passo muito tempo com ela”, conta.
Maria José recorda que Vera “era muito tímida” no início. “Acho que estávamos um bocadinho inibidas”, admite a anfitriã, que garante que essa “cerimónia” foi rapidamente ultrapassada. Ambas trocam mensagens diariamente, nem que seja para avisar de algum atraso ou de alguma saída.
“Ela diz-me se vem jantar, se não vem jantar. Se se atrasar, diz-me, e eu faço o mesmo. É aquela relação normal de duas pessoas que vivem na mesma casa, mas que têm vidas independentes”, descreve Maria José.
Mesmo para as saídas à noite, tão típicas da idade, Vera diz que só tem de avisar a companheira de casa. “É muito tranquilo. O que costumo fazer caso venha para casa mais tarde é avisar antes, mas sem nenhum compromisso.”
“Acho que somos as duas muito parecidas em termos de personalidade”, observa a estudante, ainda que admita que Maria José é “bastante mais extrovertida”. “Mas ela deixa-me muito confortável. Tem muitos gostos em comum comigo, nomeadamente a música, a Maria José também gosta muito de música”, nota.
Afinal, o par não foi desenhado ao acaso. Por detrás deste “match de sucesso”, está uma equipa focada na missão de unir as duas gerações. Leonor Serzedelo, fundadora da Une.Idades, explica à CNN Portugal que “a escolha do par tem sempre um motivo”. “Ou é porque ambas viajaram muito, ou é porque ambas gostam de música ou de crochê, ou porque têm feitios semelhantes, enfim, qualquer coisa que junte as duas partes.”
Jovens “sentem-se muito sozinhos, muito abandonados”
Além de atuar como “facilitadora” ao procurar candidatos compatíveis, a plataforma atua também “como um quebra-gelo”, explica Leonor Serzedelo. A fundadora do projeto diz que muitos dos seniores que se candidatam “vivem sozinhos, têm muita resistência à mudança e já estão acomodados à solidão”. Do outro lado, os jovens, além de estarem “desesperados porque não têm alojamento” para prosseguirem os estudos, sentem-se, também eles, muito sozinhos.
“Hoje, já não é só o isolamento dos seniores. Hoje é o isolamento de ambos, seniores e jovens”, observa Leonor Serzedelo, lembrando os efeitos da pandemia nas capacidades sociais dos mais novos. “Esta geração que está agora no início da faculdade está muito dependente do telemóvel e tem muita falta de interação com os seus pares cara a cara”, explica. “Então, quando vêm para as cidades universitárias, sentem-se muito sozinhos. Muitos estão nas residências [de estudantes] e depois recorrem a nós porque não se adaptam.”
“[Os jovens] Sentem-se muito sozinhos, muito abandonados e num caos, sem conseguir lidar com as pessoas da idade deles”, descreve a fundadora da Une.Idades, sublinhando assim o potencial de uma relação intergeracional para estimular laços e empatia nos mais novos. “Garantimos que os estudantes não se fecham no quarto e promovemos um esforço de comunicação entre os dois.”
Os números refletem esta tendência. De acordo com um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em junho, um em cada cinco jovens de todo o mundo, dos 13 aos 29 anos, diz sentir-se só. Por outro lado, segundo dados do Observatório da Solidão, 70% dos idosos em Portugal dizem sentir-se sós. Os Census 2021 revelam que 1.750 milhões de idosos vivem sozinhos em Portugal.
Em dois anos, a plataforma já conseguiu criar 57 parelhas, adianta Leonor Serzedelo, apontando que o número “excede as expectativas” em relação à análise de benchmarking inicialmente feita pela equipa. “Em relação àquilo que eu gostaria, não. Eu adoraria já ter 100 ou 200 parelhas”, confessa a fundadora do programa.
Tal como acontece no mercado, também aqui a procura é maior do que a oferta: há “muito mais” candidaturas por parte de jovens do que por parte de seniores que estejam dispostos a abrir as portas da sua casa a um desconhecido. A Une.Idades tem procurado sensibilizar os seniores para esta iniciativa junto de parceiros sociais, como a Santa Casa da Misericórdia e juntas de freguesia. “Queremos mostrar que esta é uma boa solução para uma longevidade maior e com qualidade cognitiva, mental e física”, sublinha Leonor Serzedelo.
Maria José confessa que, se não fosse esta iniciativa, provavelmente não colocaria o seu quarto a arrendar. “Sozinha, acho que não me aventurava”, admite, apontando que a Une.Idades transmite-lhe “uma segurança enorme”, que acredita que não teria se o fizesse de forma independente. “Eles [na Une.Idades] acompanham-nos sempre, quer a mim, quer à Vera, e sentimo-nos muito mais apoiadas. E têm serviços jurídicos por trás. Não é meter uma pessoa assim, de qualquer maneira, dentro de nossa casa”, explica Maria José.
Rede ¼: a resposta da Universidade NOVA de Lisboa ao “agravamento das rendas”
Lisboa é o distrito onde se verificam rendas mais elevadas: preço médio de um quarto para estudantes na capital fixa-se nos 500 euros (Manuel de Almeida/LUSA)
A Une.Idades integra a plataforma Partilha Casa, uma iniciativa nacional que promove a divulgação de programas para a partilha de alojamento entre seniores e jovens estudantes universitários. A iniciativa começou em Lisboa e, em dois anos, já se alargou a Coimbra, com a associação Abraço de Gerações, e Évora, com o programa Laços para a Vida.
Em Lisboa, surgiu, entretanto, um novo programa – a Rede ¼, uma iniciativa promovida pela Universidade NOVA de Lisboa, e que, tal como o nome indica, se destina aos estudantes daquela universidade, mas abre o leque de “anfitriões”. “Qualquer pessoa pode pôr um quarto a arrendar”, indica à CNN Portugal Sandra Fernandes, gestora do projeto. “Podem ser seniores, mas também podem ser famílias monoparentais, podem ser casais com filhos, casais sem filhos, inclusive pessoas que não vivam na mesma casa do quarto que querem arrendar.”
O projeto nasceu da preocupação da própria reitoria da Universidade NOVA de Lisboa, que promoveu um “mapeamento” interno para perceber as situações a que era necessário dar resposta. “O que se verificou é que, dado o agravamento das rendas em Lisboa e na Área Metropolitana de Lisboa, os estudantes tinham, de facto, dificuldade em suportar as rendas aos preços em que se encontram”, explica Sandra Fernandes.
Lisboa é, sem surpresas, o distrito onde os preços dos quartos são mais elevados: o preço médio de um quarto para estudantes na capital fixa-se nos 500 euros, segundo o mais recente relatório do Observatório do Alojamento Infantil, divulgado em novembro.
A tendência verifica-se no resto do país: de acordo com aquele observatório, que faz uma análise a mais de 20 plataformas de alojamento privado, o preço médio por um quarto em Portugal ronda agora os 410 euros, o que corresponde a um aumento de 1,1% em relação ao valor médio verificado no último ano.
Sabendo desta realidade, a Universidade NOVA de Lisboa resolveu então criar o projeto Rede ¼, que promove o alojamento para estudantes “com rendas a um valor acessível”. Esse valor “foi definido de acordo com o Programa de Arrendamento Acessível (PAA)”, que determina que “a renda deve ser pelo menos 20% inferior” ao valor de mercado, tendo em conta os últimos contratos celebrados numa determinada área. No site da rede ¼, estão descritos os valores máximos de renda por quarto individual, com base nos cálculos da plataforma. Em Lisboa, por exemplo, o valor máximo de renda de um quarto situa-se nos 361 euros; em Oeiras e Cascais, 316 euros, e em Almada 241 euros.
Sandra Fernandes adianta que “o feedback tem sido muito positivo”. A plataforma Rede ¼ foi lançada em maio deste ano e, desde então, já foram criados 81 emparelhamentos de estudantes e anfitriões. Nesta fase, segundo a gestora do projeto, estão registados na plataforma “cerca de 330 estudantes” e “mais de 200 anfitriões”.
Ao contrário da Une.Idades, nesta plataforma é dada mais autonomia a ambas as partes: as pessoas registam-se e procuram por um quarto ou por um estudante. “Tanto anfitriões podem procurar estudantes, como os estudantes podem procurar anfitriões”, explica Sandra Fernandes. São os próprios candidatos que conversam entre si, num chat que está integrado na plataforma, podendo depois marcar uma videochamada ou um encontro presencial. Depois, são os próprios anfitriões e os estudantes que fazem o “match” e que escolhem com quem querem ficar.
Uma equipa da rede ¼ assegura-se que os estudantes que se inscrevem “são mesmo estudantes da NOVA de Lisboa”, através de um certificado solicitado aos serviços académicos, e verifica as condições dos quartos dos anfitriões. Durante todo o processo, a plataforma garante um “acompanhamento personalizado de cada match”, sublinha a gestora do projeto. “Por exemplo, contactamos regularmente o anfitrião, contactamos o estudante, tentamos perceber se está tudo a correr bem, se há alguma necessidade, procuramos saber como é que está a ocorrer a convivência.”
Sandra Fernandes ressalva que “esta solução não substitui outras soluções da Universidade NOVA de Lisboa”, como as residências para estudantes. “Está a ser feito um esforço muito grande na construção e na requalificação de residências”, diz, descrevendo a rede ¼ como “uma solução complementar”.
O projeto foi desenhado com a ambição de um dia poder vir a ser alargado a “outros territórios e outras universidades”, indica Sandra Fernandes, que reconhece que, “neste momento, ainda se trata de um projeto-piloto e experimental” e que precisa de ser “consolidado”. “Temos sido contactados por várias universidades que nos perguntam como funciona e querem saber como está a correr, mas primeiro precisamos mesmo de consolidar esta ferramenta para podermos passá-la a outros”, afirma.