Enquanto milhões de cidadãos tentam reduzir a sua pegada ambiental — reciclando, comprando menos roupa ou optando por transportes públicos —, os mais ricos do mundo conseguem emitir o equivalente ao carbono anual de uma pessoa comum numa única viagem de lazer.
Os chamados super-ricos, definidos como indivíduos com mais de 30 milhões de dólares em ativos disponíveis, estão no centro de um debate crescente sobre desigualdade climática. Jatos privados, super-iates movidos a combustíveis fósseis, automóveis de luxo e, mais recentemente, foguetões privados, representam uma fatia desproporcionada e largamente evitável das emissões globais.
Mesmo quando estão ancorados, os motores permanecem ligados para garantir energia, aquecimento e sistemas internos, consumindo milhares de litros de combustível por semana. O Eclipse, iate do antigo proprietário do Chelsea FC Roman Abramovich, tem alegadamente um depósito de um milhão de litros de combustível. Já o super-iate de Sergey Brin, cofundador da Google, consome energia suficiente para abastecer 580 casas, mesmo parado no porto.
Segundo estimativas recentes, apenas os 125 bilionários mais ricos do mundo são responsáveis por cerca de três milhões de toneladas de CO₂ por ano — um valor próximo da pegada carbónica anual de Madagáscar, país com cerca de 30 milhões de habitantes.
A atenção mediática tem-se concentrado sobretudo nos jatos privados, mas os super-iates surgem como emissores igualmente problemáticos. Apesar da designação, estes navios não usam velas e consomem quantidades gigantescas de combustível para transportar um número reduzido de passageiros e tripulação. Iates de grande dimensão podem gastar centenas de litros de combustível por hora, enquanto super-iates chegam a consumir milhares de litros por hora, mesmo em simples cruzeiro.
A tendência estende-se agora ao espaço. As viagens privadas suborbitais, ainda sem qualquer limite regulatório, implicam a queima de enormes quantidades de combustível. A primeira viagem de Jeff Bezos à beira da atmosfera terá produzido cerca de 93 toneladas métricas de CO₂ — numa única experiência.
Atualmente existem 41,3 milhões de indivíduos com elevado património líquido no mundo, dos quais 510 mil são ultra-ricos, detendo em conjunto cerca de 60 biliões de dólares em riqueza líquida. Este crescimento reflete-se diretamente na expansão da frota de luxo: a frota mundial de super-iates cresceu 50% em apenas uma década, enquanto o número de jatos privados continua a aumentar, pressionando infraestruturas aeroportuárias.
O contraste com as emissões consideradas “essenciais” dos cidadãos comuns é cada vez mais evidente. Para muitos especialistas, está a formar-se uma classe de “hiper-mobilidade carbónica”, em que luxo, estatuto e emissões excessivas caminham lado a lado.
A desigualdade climática começa também a ter reflexos políticos. Um relatório da Oxfam de 2024 indica que 80% da população apoia impostos mais elevados sobre jatos privados e iates. No mesmo ano, um inquérito revelou que mais de 40% dos cidadãos em seis países europeus defendem mesmo a proibição total dos jatos privados.
Apesar disso, a indústria aeronáutica continua a justificar este tipo de mobilidade com ganhos de eficiência empresarial e poupança de tempo. Ainda assim, a crescente impopularidade pública levanta a questão: o que está realmente a bloquear a ação política?
Num contexto de emergência climática, cresce a perceção de que o planeta não pode sustentar um modelo económico baseado em crescimento ilimitado, consumo ostentatório e emissões de luxo. Para alguns líderes políticos, limitar esta mobilidade poderá já não ser um risco — mas uma oportunidade.