Para perceber a dimensão da influência norte-americana é preciso recuar a 1904, data em que os Estados Unidos assumiram a construção do canal do Panamá. O controlo do território só foi transferido para o Panamá em 1977 com os tratados Torrijos-Carter, mas a presença norte-americana manteve-se, principalmente, na “Zona do Canal“. Isso viria a tornar-se uma fonte de tensão entre os panamaenses e os “zonianos”, o nome dado aos habitantes da Zona do Canal, descreve María Luisa Amado no artigo de 2021. “O domínio auto-proclamado dos EUA sobre o canal e a presença militar na zona do canal atestam o estatuto semi-colonial ao abrigo do qual o Panamá se tornou uma república independente”, escreve a professora de sociologia nos EUA no mesmo artigo.

Ora, essa mesma presença norte-americana é apontada pelos especialistas como uma das principais justificações para o “sucesso” da Operação Causa Justa. Carlos Ruiz-Hernandez, antigo ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros do Panamá, considera mesmo que a presença era de tal forma significativa que a operação não pode ser descrita como uma “invasão”. “A intervenção dos EUA no Panamá foi possível graças a uma importante presença militar pré-existente dos EUA e a uma profunda familiaridade no local com os alvos e o terreno. Essa ‘posição privilegiada’ reduziu substancialmente os problemas clássicos da invasão em termos de acesso, bases, informações e fluxo de forças”, descreve ao Observador. “O Panamá foi um caso invulgarmente permissivo”, sintetiza o professor Orlando Pérez.

Contudo, o retrato da invasão como um “sucesso” não é unânime. Da parte dos Estados Unidos, a Operação Causa Justa é classificada assim, uma vez que os objetivos estabelecidos por Bush foram cumpridos: Noriega foi derrubado e julgado e um governo democrático tomou o seu lugar, sem a ofensiva se prolongar. Mas no Panamá, a memória é mais complexa, apontam os especialistas. De um lado, estão aqueles que vêm a operação como um mal necessário para pôr fim ao regime corrupto e autoritário de Noriega. Do outro, estão aqueles que condenam o número de mortos, a destruição das casas e a interferência externa.

No artigo de 2021, María Luisa Amado destaca ainda as diferenças geracionais da memória, entre os mais velhos, que viveram a invasão e os traumas subsequentes em primeira mão, e as gerações mais novas, que apenas conhecem as histórias herdadas da família, das aulas de História e das memória nacional promovida pelo Estado. Ora, esta última é bastante reduzida — por exemplo, a data não é assinalada de forma oficial como um feriado ou dia de luto, sendo dada muito mais atenção à fundação da Cidade do Panamá, exemplifica. Entre a visão de Washington e a mais complexa visão panamaense, o antigo diplomata do Panamá nota que “acaba por haver duas narrativas sobrepostas, mas fundamentalmente diferentes, sobre o mesmo acontecimento”.