Nasceu em Bragança há 36 anos. Quis seguir os passos do irmão e seguir a vida militar. Mas um acidente de viação grave trocou-lhe as voltas e deixou-lhe sequelas para a vida inteira. Numa história de superação, tornou-se educadora de infância e tem andado com a casa às costas. Este ano foi colocada na vila do Soajo, onde o tempo passa devagar e vive um conto de Natal todos os dias
A região onde Raquel é educadora de infância podia ser cenário de um conto de Natal. Com pouco mais de 600 habitantes, a vila de Soajo, no concelho de Arcos de Valdevez, ergue-se na encosta da serra com o mesmo nome, nas margens do Rio Vez. Os telhados, vermelho vivo, contrastam com as paredes escuras das casas típicas do Gerês profundo.
A Escola da Eira, onde Raquel foi colocada este ano, não foge à regra. As paredes são grossas, de pedra escura. O recreio confunde-se com a eira onde se erguem os tradicionais espigueiros e onde, à revelia das professoras, muitas vezes, acabam as brincadeiras.
O recreio da escola do Soajo confunde-se com a eira, que alberga os famosos espigueiros. (Arquivo pessoal de Raquel Ferreira)
Raquel Ferreira é a única educadora de infância da vila, que tem mais uma professora titular para os quatro anos do 1.º Ciclo do Ensino Básico, uma professora de apoio e uma assistente operacional. As quatro mulheres ajudam a crescer duas dezenas de crianças. Raquel tem em sala oito crianças, dos dois aos cinco anos. Apesar dos problemas de locomoção que tem, cuida sozinha delas (“a auxiliar está afeta ao 1.º Ciclo”), enquanto lhes desenvolve novas competências e capacidades e as prepara para a entrada do primeiro ano. Para a escola a sério.
“Uma das oito crianças tem alguns problemas de expressão oral. Acabo por me focar mais naquela criança do que nos outros. Tento dar atenção a todas crianças, mas aquela acaba por exigir mais de mim”, destaca.
Uma história de superação
A história de vida de Raquel Ferreira é uma história de superação. Passou a infância a desejar seguir os passos do irmão e ir para o Exército. O destino trocou-lhe as voltas e, aos 11 anos, um acidente atirou-a para meses de coma profundo e para uma recuperação interminável. Deixou-lhe sequelas que, ainda hoje, são visíveis.
Do acidente de viação que quase lhe ceifou a vida, nada se lembra. “Aliás, não me lembro de nada desde as 17:00 do dia anterior”, sublinha.
No dia 1 de novembro, havia uma festa lá na aldeia. A família inteira foi. Quando os pais decidiram ir embora, Raquel ainda queria ficar e o irmão convenceu os pais a deixarem-na com ele. De madrugada, quando regressavam a casa, o carro conduzido pelo irmão entrou em despiste. Ao lado do irmão, seguia um amigo deste. Raquel ia no banco de trás, sem cinto. Foi projetada para uma ravina.
“O meu irmão andou à minha procura pelo meio do monte e prestou-me os primeiros socorros. Fui para o hospital de Bragança e, de lá, para o hospital de Santo António, no Porto”, relata. Ficou gravemente ferida: “um traumatismo pulmonar, um traumatismo crânio-encefálico, um braço partido e muitas outras coisas”. Esteve nove meses no hospital, quatro deles em coma.
Voltou à escola um ano depois. Retomou o 7.º ano, que tinha ficado em suspenso. As sequelas do acidente fizeram mossa nos estudos, já que a memória ficou profundamente afetada. Além da memória, ficou com problemas de locomoção que, ainda hoje, lhe afetam a saúde.
Por causa do acidente, Raquel Ferreira teve de abandonar o sonho da vida militar e recorrer ao plano B, “que me faz tão ou mais feliz”. “Sempre gostei muito de crianças. Decidi, por isso, ser educadora de infância”, resume.
Por causa das sequelas do acidente, só terminou o curso há cinco anos. Aos 36 anos, como tantos professores, já conta com um pequeno périplo pelo país com a casa às costas. Já esteve colocada em meios mais urbanos, passando pela Malveira, Sacavém e Viana do Castelo. É na montanha que se sente bem e não se “importava nada de ser reconduzida para o ano”.
De Bragança ao Soajo, passando por Espanha
Do Soajo a Bragança, onde reside e onde residem os pais, em linha reta, são menos de 150 quilómetros. Mas as curvas e contracurvas das estradas das serras de Montesinho e do Gerês fazem com que o caminho se estenda por quase 300 quilómetros, se optar só pelas estradas portuguesas. É por isso que vai sempre por Espanha, quando, uma vez por mês, visita os pais. “É muito mais perto. Quase menos 100 quilómetros”, justifica. O tempo de viagem é quase o mesmo: mais de três horas de caminho.
Vive, por isso, numa casa alugada no Soajo. Já foi “adotada” pelos vizinhos da frente, um casal de idosos na casa dos noventas, que a “tratam como neta”. Ali, o tempo passa devagar e os ponteiros do relógio pedem licença para avançar. Os dias são calmos e é precisamente dessa calma que gosta. “Aconselhava toda a gente a vir para esta região. Sobretudo para quem gosta da pacatez e de calma”, resume.
Acorda cedo, passeia a pequena cadela, companheira de viagens e amuleto contra a solidão, toma o pequeno-almoço com a calma que só a montanha permite e vai para a escola, onde os dias são, simultaneamente, todos iguais e todos diferentes.
Já lhe disseram que costuma nevar no Soajo. Raquel nunca viu. Frio garante que não sente. “Em Bragança faz mais frio!”.
Raquel Ferreira está apaixonada pelos dias vagarosos do Soajo. Clique na imagem para ver mais imagens da coleção da educadora. (Arquivo pessoal Raquel Ferreira)
“Dou-me lindamente com os meninos e com os pais”
A educadora Raquel diz que, no Soajo, nunca se sentiu sozinha nos últimos três meses. “Tenho bons vizinhos!”. Tem uma “excelente” relação com as colegas, com as crianças e com as famílias. “Dou-me lindamente com os meninos e com os pais”, reforça.
As diferenças entre a ruralidade do Soajo e a urbanidade de Sacavém ou da Malveira, são significativas. “Os pais da cidade querem os filhos superprotegidos. E um professor não pode dar atenção a uma criança e deixar os outros para trás. Aqui no Soajo, é mais ‘se o pão caiu, apanha e come’”, ri.
A conversa com a CNN Portugal aconteceu poucas horas depois da festa de Natal na Escola da Eira. “Tivemos apresentações do pré-escolar, do 1.º ciclo e das AECS (música e inglês). Os pais adoraram e os meninos divertiram-se muito. No fim, partilhámos todos um lanchihno”, resume.
Os oito meninos da sala da educadora Raquel apresentaram uma coreografia ao som da música infantil de Natal “Zé, o Boneco de Neve”.
“Zé, o Boneco,
era feito de neve fria
Com o chapéu na cabeça
Pois senão derretia
Zé, o Boneco,
no nariz, uma cenoura
com laço no pescoço
e na mão uma vassoura.
Um boneco mesmo muito alegre
e cheio de magia,
brincava com todos os meninos
fosse noite ou fosse dia”
O Zé e a Raquel têm isto em comum: brincam com todos os meninos, faça noite ou faça dia. Raquel dedica-se, por inteiro, aos meninos. E garante que recebe muito amor em troca: “As crianças têm uma interação connosco incrível. As minhas gostam muito de mim e eu gosto muito delas”.
