O actor e cineasta palestiniano Mohammad Bakri, conhecido pelo documentário Jenin, Jenin (2002), morreu aos 72 anos na cidade israelita de Nahariya, após vários problemas cardíacos, anunciou ñesta quarta-feira a sua família num comunicado.
Bakri realizou este documentário sobre um confronto entre o Exército israelita e milícias palestinianas durante a chamada “batalha de Jenin” no contexto da Segunda Intifada (2000-2005). A produção foi muito polémica em Israel, onde um tribunal chegou a proibir a sua distribuição.
A obra não tem narrador; é composta por entrevistas e relatos em primeira mão de pessoas daquela cidade da Cisjordânia que viveram os acontecimentos, com o objectivo de mostrar a perspectiva palestiniana da ocupação.
Israel considerou que o documentário distorce a realidade e “atenta contra a honra” dos soldados que nele aparecem.
Os tribunais debateram a veracidade do conteúdo do filme e proibiram a sua distribuição e exibição em Israel através de diversas decisões judiciais, algumas das quais posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal, numa batalha legal que terminou em 2021, data em que foi definitivamente confirmada a proibição da sua projecção em território israelita.
“Esta sentença pretende destruir-me, silenciar-me e dissuadir outros de abordar questões como as que abordo no documentário”, disse Mohammad Bakri há quatro anos, numa entrevista concedida à agência de notícias espanhola EFE.
Nas últimas duas décadas, Bakri reafirmou repetidamente a sua determinação em denunciar via meios audiovisuais “a opressão que o povo palestiniano sofre”.
Na chamada “batalha de Jenin”, foram mortos 52 palestinianos, entre os quais mulheres e crianças não-combatentes, e 23 soldados israelitas. O conflito de 11 dias resultou também na destruição de cerca de 300 habitações palestinianas.
Bakri, pertencente ao segmento árabe-israelita da população, nasceu em 1953 na cidade de Bi’ina. A sua família fora expulsa do seu território durante a Nakba (catástrofe, em árabe), período subsequente à criação do Estado de Israel em que centenas de milhares de palestinianos fugiram das suas casas. Em 1998, estreou-se como realizador, justamente, com um filme intitulado Nakba, para assinalar o 50.º aniversário do êxodo do povo palestiniano.
Estudou também Literatura Árabe e Teatro na Universidade de Telavive e actuou em teatros de todo o mundo. Apareceu ainda em numerosos filmes, tendo feito a sua estreia no grande ecrã como protagonista de Hanna K. (1983), do cineasta franco-grego Costa-Gavras, a que se seguiram títulos como Haifa (1996) e O Aniversário de Laila (2008).
Jenin, Jenin foi exibido em Lisboa, no passado mês de Março, no âmbito do ciclo de seminários Middle East and North Africa, do Centro Estudos Internacionais, do Iscte.