Rungroj Yongrit / EPA

Trabalhadores preparam durião num mercado de fruta perto de Bangkok, na Tailândia
A popularidade do durião na China é tal que os governos do Sudeste Asiático, onde é produzida a maior parte desta fruta, estão a usar as exportações como instrumento de influência política e económica — transformando algumas zonas agrícolas anteriormente pobres em focos de prosperidade.
Distintivo no sabor e notoriamente divisivo, o durião não é a fruta preferida de todos. Foi certamente o caso de alguns exploradores chineses quando o encontraram pela primeira vez durante as primeiras viagens marítimas da dinastia Ming.
Um registo remonta a 1413, quando um tradutor chamado Ma Huan viajou para o que é hoje a Malásia numa expedição com o diplomata e almirante Zheng He.
No seu relato de viagem, Ma descreveu o durião como um “fruto fedorento”, que cheirava a “carne de vaca apodrecida”.
Mas avancemos seis séculos — e esta fruta tropical acabaria por vir a instalar-se no quotidiano chinês, contam Ming Gao e Tabita Rosendal, investigadores da Universidade de Lund, na Suécia, num artigo no The Conversation.
A China é hoje o maior importador mundial de durião, representando cerca de 95% da procura global. As importações dispararam para um máximo histórico de quase 7 mil milhões de dólares (5,9 mil milhões de euros) em 2024.
A popularidade do durião na China é tal que os governos do Sudeste Asiático, onde é produzido a maior parte do durião do mundo, estão a usar as exportações como instrumento de influência política e económica.
Há anos que oferecer duriões de qualidade superior a responsáveis chineses é uma das formas encontradas por governos do Sudeste Asiático para cultivar boa vontade. Numa visita a Pequim, em 1975, por exemplo, o antigo primeiro-ministro tailandês Kukrit Pramoj ofereceu 200 duriões a dirigentes chineses.
Mais recentemente, em 2024, o rei da Malásia, Ibrahim, ofereceu ao presidente chinês, Xi Jinping, duas caixas de duriões premium durante uma visita de Estado.
Entre elas estava o cobiçado Musang King, uma variedade frequentemente apelidada na China de “Hermès dos duriões”, numa alusão à marca de moda Hermès, associada no país a um prestígio extremo.
O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, e o primeiro-ministro malaio, Anwar Ibrahim, tinham também sido filmados, no início desse ano, sentados lado a lado, a abrir um durião com uma faca e a comê-lo com uma colher. A forma tradicional de consumir este fruto passa por abri-lo e comer a polpa à mão.

O durião tem um odor intenso, o que o leva a ser odiado por muitas pessoas — que nem chegam a experimentar o seu sabor
No entanto, o durião é mais do que um símbolo de amizade entre os Estados do Sudeste Asiático e Pequim. A enorme procura chinesa por duriões tem impulsionado o crescimento económico interno por toda a região, transformando algumas zonas agrícolas anteriormente pobres em focos de prosperidade.
Segundo Eric Chan, agricultor malaio entrevistado pelo The New York Times em 2024, as receitas das vendas para a China transformaram a sua localidade.
Chan afirma que os produtores locais de duriões conseguiram reconstruir as casas, passando de “madeira para tijolo”, e que agora “podem pagar para mandar os filhos estudar para uma universidade no estrangeiro”.
Os países do Sudeste Asiático também têm aproveitado o apetite chinês por duriões para reforçar as relações económicas com Pequim. As exportações vietnamitas de durião, por exemplo, têm sido apontadas como determinantes para abrir acesso ao mercado chinês a outros produtos agrícolas de produção nacional.
E o vice-primeiro-ministro malaio, Ahmad Zahid Hamidi, afirmou abertamente que vê nas exportações de durião uma forma de assegurar investimentos chineses subsequentes.
“A diplomacia do durião não é apenas diplomacia, é negócio do durião”, disse Hamidi em novembro. “Precisamos de trabalhar com empresários chineses para desenvolver ainda mais as plantações de Musang King na Malásia e devemos também reforçar em conjunto as indústrias a jusante.”
Para a China, o comércio de durião integra uma estratégia mais ampla. Desde que chegou ao poder, em 2013, Xi Jinping tem sublinhado repetidamente que o país precisa de salvaguardar a sua segurança alimentar.
Investigadores descrevem a abordagem como uma “rota da seda alimentar”: uma rede emergente de investimentos e acordos comerciais concebida para diversificar as importações alimentares chinesas por várias regiões do mundo.
O durião proveniente do Sudeste Asiático é, assim, apenas uma parte de um fluxo muito mais vasto.

Os países do Sudeste Asiático também têm aproveitado o apetite chinês por duriões para reforçar as relações económicas com Pequim
A Nova Zelândia exporta para a China a maior parte dos seus kiwis dourados premium, e o mercado chinês é um destino igualmente importante para as cerejas chilenas. Há relatos que sugerem também um aumento dos envios de abacates do Quénia para a China.
O regresso de Donald Trump à Casa Branca em janeiro, e o caos global que se seguiu à sua guerra das tarifas, permitiu à China consolidar estas relações.
No primeiro trimestre de 2025, por exemplo, as importações chinesas de produtos agrícolas provenientes de membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático atingiram quase 7,5 mil milhões de dólares — um aumento de 14% face ao mesmo período de 2024.
Segundo a Chatham House, um think tank britânico de relações internacionais, as políticas erráticas de Trump levaram a uma degradação da perceção dos EUA entre responsáveis do Sudeste Asiático, o que poderá fazer com que países da região, incluindo aliados tradicionais de Washington como as Filipinas e a Tailândia, se aproximem ainda mais da esfera de influência de Pequim num futuro próximo.
A explosão do durião na China trouxe crescimento rápido ao Sudeste Asiático, mas também gerou várias consequências não intencionais.
A criação de novas plantações, por exemplo, tem contribuído para a desflorestação na Indonésia, no Laos e na Malásia. Isso perturbou habitats e ecossistemas locais, colocando em risco espécies animais ameaçadas, como o tigre-malaio.
À medida que o mercado chinês continua a crescer, os países do Sudeste Asiático terão também de se preparar para um maior controlo estrangeiro sobre as cadeias de abastecimento e para a incerteza regulatória num contexto de economia global instável.
O desafio, daqui para a frente, será captar os benefícios da procura chinesa por duriões, ao mesmo tempo que se gere a expansão do sector, concluem Gao e Rosendal.