“Do ponto de vista táctico vou meter o dedinho, mas muito controlado. Não posso meter os dedos todos”, disse José Mourinho, quando chegou ao Benfica, recusando uma revolução no trabalho feito por Bruno Lage. 100 dias depois já é possível dizer que há dedinho do técnico português – um dedinho introduzido nos preceitos que têm alterado a ideia-base desta equipa.
O “futebolês” diz-nos há muitos anos que uma equipa deve ser construída a partir da defesa e que ataques ganham jogos e defesas ganham campeonatos. Se estas ideias gastas forem verdade – e está por provar que sejam –, então José Mourinho será a prova empírica dessas teses.
Depois de alguns problemas, o treinador português já colocou a equipa a aprender “Mourinhês”, tornando-a capaz de pensar o jogo a partir do momento defensivo e a preferir o ataque a partir do momento sem bola ao ataque posicional constante. É uma equipa menos preocupada em controlar e mais em estar controlada.
O que fazer com a bola
Entre Lage e Mourinho a descida da posse de bola por jogo é factual, mas não é especialmente radical: é uma queda de pouco mais de 3% – embora o valor de Lage possa estar enviesado pelo cariz dos poucos jogos que fez nesta época, com várias partidas europeias a eliminar.
Mas será mais ou menos pacífico apontar que a equipa se comporta de forma diferente – a posse de bola não caiu muito, mas a obsessão por ela sim. A solidez defensiva é evidente, sobretudo no último mês, e a equipa parece ter aprendido a comportar-se melhor contra equipas que querem ter a bola.
Para isso contribui uma das ideias mais disruptivas de Mourinho, que foi fazer de Leandro Barreiro um jogador para actuar nas costas de Pavlidis. Mourinho trocou a estética pela fiabilidade, a arte pelo trabalho e a criação pela intensidade.
No seu 4x2x3x1, Mourinho quer naquela zona um jogador intenso e agressivo sem bola, para dotar a equipa de maior capacidade de pressionar a construção baixa dos adversários.
Barreiro serve esse propósito, adicionando ainda outra valência: o ataque ao espaço. O luxemburguês sabe verticalizar o jogo sem bola, com movimentos complementares com Pavlidis que ajudem o Benfica a compensar os apoios frontais do grego.
Mais do que o ataque posicional, o jogo entre linhas e a criatividade na zona 10, Mourinho tem preferido intensidade sem bola, movimentos verticais e agressividade no ataque às zonas de finalização – algo que Barreiro também faz. No fundo, quanto melhor defender melhor ataca.
Impacto individual
Um dos visados tem sido Sudakov, jogador que tem actuado mais a partir da esquerda – Mourinho considerará que o ucraniano não tem “andamento” físico para o que quer do jogador da posição 10, que agora prevê mais pulmão do que imaginação (também Aursnes já passou por lá).
Outra dinâmica que mudou foi a forma de construir desde trás. Nas últimas semanas, o Benfica tem utilizado uma saída nova com a movimentação de Enzo para o corredor esquerdo. Seja a baixar para central da esquerda ou simplesmente a abrir para receber mais aberto, o médio argentino tem sido usado para obrigar os adversários a abrirem o corredor central, caso movam algum médio para acompanhar Enzo. Caso não o façam, então o argentino tem espaço para usar a boa capacidade de passe para servir os criativos.
A nível individual também há diferenças em alguns domínios. Há jogadores que começaram bem com Lage, mas que estão menos fulgurantes com Mourinho: como Dedic, António Silva e o próprio Ivanovic.
Outros há que vieram em sentido contrário. O caso mais evidente é o de Richard Ríos, mas também Barreiro e Dahl estão num nível individual que não tiveram nas primeiras semanas da temporada.
O director de comunicação
José Mourinho trouxe também algumas mudanças a nível de comunicação externa. Tal como Lage – e até como Schmidt –, o técnico é quase um “porta-voz” do clube, mas parece ter algum “pedigree” extra nesse labor.
Os duelos com a imprensa já foram um pouco de tudo: neutros, leves, divertidos, ácidos e até agressivos. E já se viu até um pouco do que Mourinho tem sido durante a carreira: um treinador sem problema em fazer da praça pública uma sala de reuniões, deixando os jogadores arder em lume brando.
Após o jogo com o Atlético para a Taça, o técnico disse que ao intervalo queria ter feito nove substituições e que os jogadores não foram sérios. Dias depois, questionado sobre a sessão de purga que tinha feito publicamente, Mourinho mostrou-se ofendido com as questões e virou o tema contra os jornalistas – também não é surpreendente a narrativa do inimigo externo.
No fundo, Mourinho já conseguiu trazer para o Benfica tudo o que tem sido nos últimos anos: equipas que pensam o jogo a partir do momento defensivo para atacarem melhor a partir desse preceito e uma comunicação sem pudor em atacar abertamente jogadores, jornalistas ou árbitros. É “Mourinhês” clássico.