Um antigo responsável pelo serviço de informações ucraniano diz que a equipa de Putin aplica deliberadamente estas técnicas de origem soviética nos contactos e negociações com Trump
Técnicas neurolinguísticas herdadas dos tempos do KGB continuam a ser usadas de forma sistemática pelos serviços secretos russos para influenciar líderes políticos ocidentais, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Quem o diz é Mykola Malomuzh, general do Exército da Ucrânia e antigo diretor do Serviço de Informações Externas ucraniano, em entrevista ao Kyiv24, onde detalha os mecanismos por detrás desta estratégia de influência.
Segundo Malomuzh, estas metodologias mantêm-se eficazes pois não assentam em ataques informativos pontuais, mas sim “na construção prolongada de modelos de comportamento dirigidos a indivíduos específicos”. O objetivo não é apenas convencer, mas moldar decisões ao longo do tempo.
“Eles não se limitam a negociar. Eles modelam comportamentos e calculam reações com antecedência”, explica Malomuzh.
De acordo com o antigo responsável pelo serviço de informações, citado pelo Euromaidan, a equipa do presidente russo, Vladimir Putin, aplica deliberadamente estas técnicas de origem soviética nos contactos e negociações com Donald Trump.
O processo segue um padrão: começa com um estudo detalhado do perfil psicológico do alvo, com uma análise exaustiva da biografia, do comportamento, dos medos, fobias e vulnerabilidades pessoais, e culmina na exploração desses “pontos de pressão” para influenciar o processo de decisão.
O general aponta ainda como exemplo da eficácia deste método a mudança brusca da posição de Trump em relação à Ucrânia. Após a Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente norte-americano tinha reafirmado o seu apoio a Kiev, garantindo que forneceria todo o tipo de armamento, incluindo os tão desejados mísseis Tomahawk. No entanto, a situação alterou-se rapidamente.
“E depois Putin falou com Trump literalmente dois dias depois, fazendo com que este ficasse do seu lado. Este é um exemplo real da influência dos serviços secretos”, sublinha Malomuzh.
Este tipo de abordagem não é novo na diplomacia russa. O antigo comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, Valerii Zaluzhnyi, já tinha descrito o chamado método Gromyko. Andrei Gromyko, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros da União Soviética durante mais de 40 anos, recorria a esta estratégia sempre que Moscovo pretendia extrair o máximo de concessões do Ocidente.
A chamada “tática do esgotamento” valeu-lhe, na época, a alcunha de “Mr. No” entre os diplomatas ocidentais.