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Velho continente dependente de EUA e China em relação a diversos sectores-chave. E o contrário? Comissão Europeia fez mapa do abastecimento.
Os EUA e a China nunca assumiram oficialmente que a Europa está dependente dos seus materiais.
Mas têm surgido relatórios ou afirmações isoladas que, na prática, apontam para dependências europeias em relação às duas potências económicas mundiais; sobretudo em terras raras ou ímanes (China) e em energia ou defesa (EUA), ou ainda sobre semicondutores e software.
Uma recente análise do Parlamento Europeu mostra que a União Europeia “depende fortemente” da China para o fornecimento de elementos de terras raras. A China controla 60% da produção global, posição que dificilmente se alterará nos próximos tempos. Da China chegam, à União Europeia (UE), todas as terras raras pesadas, 85% das leves e 98% dos ímanes de terras raras.
São dados como este que levaram Stéphane Séjourné, comissário europeu para o Mercado Interno, a dizer que a UE é “mais de 100% dependente” da China para ímanes de terras raras e, por isso, “precisamos de reduzir a nossa dependência de todos os países, particularmente de alguns países como a China”.
Ainda neste assunto, de Pequim chegou uma mensagem aparentemente tranquilizadora: “As terras raras não foram, não são e não serão um problema entre a China e a Europa”, assegurou o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi.
Já em relação aos EUA, e com o início da guerra na Ucrânia, a Europa praticamente deixou de importar gás natural da Rússia e agora depende muito mais dos EUA.
A ministra da Transição Ecológica de Espanha, Sara Aagesen, já avisou que, apesar do “papel fundamental” do gás que vem dos EUA, é importante olhar para outras fontes, como o Qatar.
E o outro lado?
Portanto, a Europa parece estar muito dependente de EUA e China em sectores-chave da economia global.
Mas há o lado menos conhecido, o outro lado da moeda: a China e os EUA também dependem de tecnologias, maquinaria e produtos químicos que vêm da Europa, também em sectores-chave.
O Handelsblatt aborda esta “arma secreta” da Europa e informa que a Comissão Europeia já fez um mapa com as cadeias de abastecimento globais e determinou que a China e os EUA estão mais dependentes da Europa do que se pensava.
A União Europeia quer assim explorar estas “dependências inversas”, de forma mais estratégica – isto caso a disputa aduaneira ou as restrições às exportações chinesas se intensifiquem novamente.
Ainda segundo o jornal alemão, os economistas e os peritos da Comissão Europeia examinaram ao detalhe, pela primeira vez, todas as exportações e tecnologias relevantes da UE para determinar se são difíceis de substituir por outras economias.
Em Bruxelas, o objectivo seria uma avaliação mais realista da posição negocial da UE.
Os especialistas identificaram produtos que vão muito além dos semicondutores que vêm da ASML, dos Países Baixos.
De acordo com esta nova análise, a China e os EUA dependem da tecnologia de ponta europeia em muitas outras áreas: a China depende em 98% de componentes do sector aeroespacial da UE, incluindo sistemas de lançamento e sensores de precisão, e em até 99% de certos medicamentos; para dispositivos de irradiação para radioterapia, a dependência da Europa é de 88%.
Os grupos de produtos identificados incluem também máquinas e equipamentos altamente especializados para a indústria: máquinas, ferramentas e equipamentos para a produção química e automóvel, componentes para tecnologia ferroviária (locomotivas e sistemas de sinalização), aço especial para blindagem, rolamentos de esferas de alto desempenho, certos produtos químicos e lasers.
Fontes da indústria afirmaram ainda que, sem as máquinas alemãs, os EUA já não poderiam produzir as suas armas mais avançadas.
Precisamente da Alemanha, Thorsten Benner, director do Instituto Global de Políticas Públicas, escreveu no X que “conhecer as vulnerabilidades do outro lado não se traduz automaticamente em vantagem, mas é um ponto de partida indispensável”.