Estamos aqui sentados já há mais de sete horas, desde a espera para o lançamento até agora que sabemos que correu tudo bem… Depois do nervosismo, como se sente agora?
[risos] Sim sim, muito melhor agora. Porque estamos sempre a pensar naquelas dificuldades, nas anomalias que fomos encontrando… Mas estou muito feliz, porque este lançador nasceu bem. Se compararmos com o Ariane 5, é um ótimo foguetão, mas foi difícil aperfeiçoá-lo. O primeiro lançamento foi um falhanço, o segundo só meio-falhanço. Foi só ao terceiro que correu bem. Tivemos uma anomalia no décimo voo, outra grande no 17.º… não foi nada fácil. E este é perfeito, porque desde o primeiro voo que corre tudo bem. A reignição do motor foi um problema no voo inaugural, mas arranjámos e ficou tudo melhor no seguinte. Este voo até foi um pouco mais complicado, porque queríamos mesmo que acontecesse ainda este ano. Tentamos sempre não ter lançamentos perto do Natal, pelo que normalmente planeamos uma margem de segurança de quatro ou cinco dias. Mas uma das baterias rebentou há duas ou três semanas, o que nos obrigou a trocar cabos e a testar tudo a tempo da data de lançamento.

Tiveram de esperar por peças novas vindas da Europa ou conseguiram arranjar tudo cá?
Conseguimos arranjar diretamente na plataforma de lançamento, graças àquela margem de segurança que criámos para poder lançar hoje [quarta-feira, dia 17 de dezembro]. De resto, foi mesmo tranquilo, o que é ótimo, considerando que a quantidade de lançamentos vai aumentar de forma drástica no próximo ano, vamos passar de quatro para oito. São oito para o ano, mas já temos espaço para lançar 10 vezes.

E o primeiro lançamento do ano vai ser logo em grande, certo?
O próximo será a primeira versão do Ariane 6 com quatro propulsores [o dobro do atual], por isso vamos ter de o acompanhar com muita atenção. Ao longo do ano também vamos atualizando os modelos atuais. Por exemplo, vamos aumentar a capacidade dos propulsores, de 140 para 160, porque é preciso um maior desempenho para lançar a Constelação [de satélites da empresa] Amazon, que é espetacular.

Vamos ter um grande número de satélites [será o equivalente europeu do Starlink de Elon Musk], e para reduzir o preço por utilização, temos de reduzir o número de lançamentos. Graças a esta nova versão, será possível fazê-lo. Portanto o primeiro lançamento do ano será em fevereiro, com a estreia do Ariane 64 [com quatro propulsores], o segundo será um igual, mas o terceiro já será com esta versão atualizada com uma melhoria de cerca de 30% da performance. Terá a capacidade de transportar o maior número de sempre de satélites.

Sabemos estes detalhes dos próximos lançamentos já com alguma antecedência. Lembra-se quando é que soube que ia estar envolvido no primeiro lançamento do Ariane 6, em julho do ano passado?
Eu acompanhei o desenvolvimento do Ariane 6 desde o princípio. Estava em Paris, em 2014, quando decidiram avançar com esta nova versão. Na verdade, estava envolvido num projeto para melhorar o Ariane 5, chamado “A5 Life Evolution”, mas depois passaram-me para o projeto do Ariane 6 e acabei por redigir todas as especificações para a missão no terreno — mas fiquei em Paris até assinarem o contrato oficialmente para avançar com as obras em Kourou.

Portanto, cheguei a Kourou em 2015, com o objetivo de acompanhar todo o processo de raiz. O primeiro passo foi construir as instalações cá, os edifícios para a montagem e todo o tipo de infraestrutura que temos agora. Depois, tivemos de garantir que estava tudo operacional, um ensaio técnico com a CNES [a agência espacial francesa] e depois o teste combinado. Chamaram-me para ajudar no teste combinado, porque já estavam apertados em termos de prazos, uma vez que o primeiro voo estava marcado para 2020, mas foi muito desafiante. Fui o adjunto — o número dois no comando — para o teste combinado, mas mais para o fim pediram para ser o responsável pela missão neste voo inaugural. O gestor de missão é o responsável pela parte de cima, tudo o que envolva a missão, os satélites, etc.

No caso deste voo em concreto, por exemplo, seria o responsável pela integração dos satélites dentro do Ariane 6?
Exatamente, e garantir que a missão ia correr bem para os satélites. Sentava-me no centro de controlo entre o Diretor das Operações [DDO] e o cliente [que quer lançar o satélite]. Tinha à minha frente o botão vermelho para parar a missão [risos]. Não há muitas pessoas que tenham acesso a isto, só o gestor de missão e o DDO.

Há mesmo um botão vermelho ou é metafórico?
Há mesmo, é verdade. Aqui no Júpiter [o centro de controlo], não fazemos nada, mas coordenamos todas as operações, somos os chefes de todas as equipas espalhadas pelo Porto Espacial, mas também à volta do mundo. Ao longo do dia de lançamento, as equipas metem o estado das suas operações como “verde”, para indicar que está a correr conforme planeado. Se uma das estações tiver um problema, colocam-se a “vermelho” e todos param. A contagem é interrompida e todos param de trabalhar. É engraçado, porque há uns anos estiveram cá uns engenheiros da NASA que disseram que este sistema era genial.

Não usam nada assim do género na NASA?
Não, fazem-no à antiga, tal e qual como se vê nos filmes. O DDO pergunta a toda a gente, individualmente, se está tudo bem e pronto para o lançamento. E é isso, depois lançam quando todos confirmarem. Connosco é tudo automatizado e ficaram incrédulos quando o viram a funcionar. Mas o meu botão só é para utilizar caso os clientes detetem um problema. À minha direita está o responsável por fazer a comunicação com a equipa responsável pelos satélites. Se virem que há algo de errado nesse sentido, avisam-me e eu carrego no botão para parar tudo, para garantir que têm tempo para arranjar o problema em questão. Às vezes, dependendo da missão, não podemos continuar. Se for com antecedência, uma ou duas horas antes do lançamento, temos tempo para arranjar. Mas se for naqueles dez segundos finais em que o DDO já está a fazer a contagem decrescente, não dá.