Degradadas por incêndios florestais e secas, as florestas europeias têm menor capacidade de absorver as emissões de dióxido de carbono (CO2). Esta preocupação foi uma das principais razões pelas quais os governos da União Europeia acordaram em 2025 diluir a nova meta de redução de emissões para 2040.
No início de Novembro, os países da União Europeia apoiaram uma iniciativa para reduzir as emissões líquidas de gases com efeito de estufa em 90% até 2040, em relação aos níveis de 1990 — uma meta concebida para mantê-los no caminho certo para o compromisso europeu, juridicamente vinculativo, de atingir a neutralidade carbónica até 2050.
O acordo, contudo, também trouxe flexibilidade a vários sectores. Uma opção era que as futuras reduções da meta para 2040 fossem feitas caso as florestas, turfeiras e pastagens da Europa fossem incapazes de absorver e armazenar milhões de toneladas de dióxido de carbono para compensar a poluição das indústrias.
Durante as negociações sobre a meta para 2040 nos últimos meses, vários governos — da Suécia à Letónia, passando pela França e Portugal — alertaram que as florestas da Europa estão a absorver muito menos emissões de CO2 do que o esperado, em parte devido aos incêndios florestais e às secas agravadas pelas alterações climáticas.
“É uma conquista positiva que o acordo tenha em consideração as grandes incertezas relacionadas com a absorção de CO2 pelas florestas”, afirmou a ministra do Ambiente da Suécia, Romina Pourmokhtari.
Portugal em risco
As alterações climáticas estão aumentar a frequência e a intensidade das ondas de calor e episódios de seca hidrológica, que secam as árvores, retardam o seu crescimento e preparam o terreno para incêndios florestais e infestações mais severas de pragas.
Os fogos queimaram mais de um milhão de hectares de terras da União Europeia em 2025, a maior quantidade anual já registada. A quantidade de CO2 absorvida pelas florestas e pelo sector de uso do solo europeu caiu quase um terço na última década devido aos impactos climáticos, mas também devido ao aumento da exploração madeireira, afirmou a Agência Europeia do Ambiente.
Para Portugal, a floresta é um elemento determinante para atingir a neutralidade carbónica – um objectivo estabelecido na Lei de Bases do Clima para 2050, mas que o Governo pretende antecipar para 2045 -, uma vez que o país precisa de garantir uma capacidade de sequestro agrícola e florestal de cerca de 13 milhões de toneladas de CO2 para equilibrar as suas emissões líquidas.
Portugal enfrenta riscos críticos que podem comprometer este papel de sumidouro da floresta, com fenómenos extremos como os incêndios rurais cada vez mais intensos a libertar, em média, 14 toneladas de CO2 por cada hectare ardido. Em anos trágicos como 2017, o sector do Uso do Solo, Alteração do Uso do Solo e Florestas (LULUCF, na sigla em inglês) em Portugal deixou de ser um sumidouro para passar a ser uma fonte de emissões, lançando para a atmosfera 15,1 milhões de toneladas de CO2 equivalente, o que representou um quinto das emissões do país nesse ano.
Além dos fogos, o agravamento das condições fitossanitárias e as alterações climáticas reduzem a vitalidade dos povoamentos florestais, algo que se observa, por exemplo, no declínio do montado de sobro, o que diminui a eficiência na absorção de gases com efeito de estufa.
Florestas aquém das metas
Na Finlândia, as florestas têm emitido mais carbono do que absorvem desde 2021, de acordo com o Instituto de Recursos Naturais da Finlândia. O sumidouro florestal de CO2 da Suécia caiu mais da metade nos últimos 20 anos. A Suécia e a Finlândia apoiaram a meta europeia de redução de 90% das emissões e rejeitaram, nas negociações de última hora, as tentativas de outros países de enfraquecê-la ainda mais, de acordo com diplomatas da União Europeia.
No entanto, tanto a Finlândia como a Suécia alertaram em Setembro que não cumpririam as metas de emissões florestais da União Europeia para 2030. E afirmaram que enfrentariam consequências económicas “terríveis” se fossem obrigados a colher menos madeira para cumprir os objectivos climáticos.
A ministra do Clima da Finlândia, Sari Multala, disse à Reuters que cerca de 14 dos 27 países do bloco europeu estão fora da rota para cumprir as metas relativas ao uso da terra, mudança no uso da terra e silvicultura para 2030. As florestas cobrem cerca de 70% da Suécia e da Finlândia. Os produtos de madeira representam cerca de 10% das exportações suecas e quase um quinto das finlandesas. Cerca de 140 mil pessoas trabalham no sector na Suécia.
Em Outubro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu medidas para abordar as preocupações sobre as leis associadas ao uso do solo e à silvicultura numa carta aos governos da União Europeia, enquanto Bruxelas buscava o apoio desses líderes para a meta climática de 2040.
Acordo dá flexibilidade
A meta climática para 2040, acordada após negociações que duraram toda a noite entre ministros em Bruxelas (ainda antes da Cimeira do Clima das Nações Unidas ocorrida no Brasil), incluiu várias opções para responder a essas preocupações. Uma delas foi a introdução de um freio de emergência que permite aos governos reduzir a meta climática para 2040 se ficar claro que as florestas, e outras actividades ligadas ao uso do solo, estão a descarrilar no que diz respeito à absorção das emissões de CO2. Essa opção foi proposta pela França.
Outra opção era permitir que os países comprassem créditos de carbono estrangeiros para cobrir até 5% da meta de redução de 90% das emissões, potencialmente reduzindo em 5% a meta doméstica global.
Indústrias desde a fabricação de automóveis até o sector de defesa mostram-se preocupadas com a possibilidade de terem que compensar qualquer défice se as florestas e zonas húmidas desempenharem um papel menor na mitigação das emissões. A meta final especificou que, se os ecossistemas naturais tiverem um desempenho inferior ao esperado, outras indústrias não serão forçadas a reduzir as emissões mais rapidamente para cumprir a meta de 2040.
Desafios políticos à vista
O Centro Comum de Investigação (JRC, na sigla em inglês) da Comissão Europeia afirmou que os riscos climáticos para as florestas podem ser geridos através da redução da exploração florestal intensiva, ou mesmo do plantio de espécies de arbóreas mais diversificadas, o que pode aumentar o armazenamento de CO2.
A Agência Florestal da Suécia afirmou que reduzir o abate em 10% e permitir que as árvores cresçam por mais tempo foram as medidas mais eficazes para aumentar a absorção de CO2 nas florestas nacionais.
A Comissão de Objectivos Ambientais da Suécia, um órgão governamental, recomendou também a redução do abate e o incentivo às empresas florestais para que deixem as árvores crescer por mais tempo. Mas fazer isso pode ser politicamente desafiador para os governos, dada a relevância económica da indústria florestal e os milhares de empregos que o sector gera.
A Federação Sueca das Indústrias Florestais afirmou que as propostas da comissão governamental levariam a uma queda de 5% a 6% na produção madeireira, decréscimo que representa um valor de 721 milhões milhões de euros e pode custar cerca de 7200 empregos.