A Rússia anunciou planos para construir uma central elétrica na Lua dentro de pouco mais de uma década, num projeto que visa reforçar o seu estatuto de potência espacial e garantir uma presença permanente no satélite natural da Terra. Segundo o ‘El Español’, a iniciativa surge num contexto de crescente competição geopolítica no espaço, marcada pelo avanço dos Estados Unidos e da China.

A agência espacial russa Roscosmos confirmou ter assinado um contrato com a empresa Lavochkin Association para a construção da infraestrutura lunar até 2036. Embora Moscovo não tenha especificado formalmente a natureza da central, a participação da Rosatom, a corporação estatal de energia nuclear, e do Instituto Kurchatov indica que se tratará de uma instalação nuclear.

O objetivo é fornecer energia ao programa lunar russo, que inclui veículos de exploração, um observatório científico e a futura Estação Internacional de Investigação Lunar, um projeto conjunto com a China. A Roscosmos sublinha que esta central permitirá passar de missões pontuais para um programa de exploração lunar de longo prazo, com funcionamento permanente.

O anúncio surge num momento em que a Rússia tenta recuperar protagonismo num setor em que perdeu terreno nas últimas décadas. Após o fim da União Soviética, Moscovo ficou progressivamente atrás dos Estados Unidos e, mais recentemente, da China, enquanto novos atores como a Índia, o Japão, a Europa e o setor privado ganharam peso na exploração espacial.

O revés mais simbólico ocorreu em agosto de 2023, quando a missão não tripulada Luna-25 se despenhou durante uma tentativa de aterragem na Lua, num contraste evidente com o dinamismo do programa espacial americano e com a ascensão da SpaceX, de Elon Musk, que revolucionou os lançamentos orbitais.

A corrida lunar, contudo, não envolve apenas a Rússia. Os Estados Unidos também anunciaram planos para instalar um reator nuclear na Lua até ao início da próxima década. A NASA defende que a energia nuclear é essencial para sustentar bases lunares, garantir a presença humana a longo prazo e preparar futuras missões a Marte.

Apesar das restrições internacionais à colocação de armas nucleares no espaço, o direito internacional não proíbe fontes de energia nuclear, desde que cumpram determinados critérios de segurança. Este enquadramento legal abriu caminho a uma nova fase de militarização e competição estratégica no espaço cislunar.

A administração americana definiu como meta o regresso de astronautas à Lua em 2028 e a criação de uma base permanente até 2030, integrada no programa Artemis. A estratégia aposta fortemente no envolvimento do sector privado e assume uma clara dimensão geopolítica, com a Lua a ser encarada como um ponto-chave de supremacia tecnológica e militar face à China e à Rússia.

Para além do valor estratégico, a Lua é vista como um ativo económico de longo prazo. Estimativas da NASA indicam a existência de grandes reservas de hélio-3, um isótopo raro na Terra, bem como de metais de terras raras essenciais para tecnologias avançadas. Acresce a presença de água congelada no polo sul lunar, fundamental para produzir oxigénio e combustível diretamente no local, reduzindo drasticamente os custos das missões espaciais.

Este conjunto de fatores transformou o satélite natural da Terra num verdadeiro campo de testes do século XXI. Estados, agências espaciais e empresas privadas disputam agora um território onde se cruzam ciência, economia, defesa e poder geopolítico, e onde poderá ser definida uma parte decisiva da liderança global nas próximas décadas.