Um outro relatório da mesma organização detalha que entre janeiro de 2020 e junho de 2022, se verificou um aumento de ataques contra civis, mas apenas em 5% desses ataques foi possível identificar uma relação direta entre o ataque e a “identidade religiosa” das vítimas. Na maior parte dos casos, notam os especialistas, os ataques não têm motivações religiosas, mas étnicas ou materiais. Os casos mais recentes de violência no norte do país, onde predomina a comunidade muçulmana, foram registados em quintas agrícolas detidas por cristãos. Contudo, estas pessoas não foram mortas pela sua religião, mas por acesso à terra ou a fontes de água, em muitos casos por Fulani, um grupo étnico nómada e semi-nómada que habita a região.

Esta caracterização do problema é feita pelos analistas, mas também pelos líderes políticos nigerianos que, mesmo quando apoiam a intervenção externa dos EUA, salientam a necessidade de proteger todos os civis, “sejam muçulmanos, cristãos, ateus ou de qualquer religião”, como declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros, em entrevista à CNN, em que se focou no aumento generalizado da violência contra civis e não na argumentação da Casa Branca. Vincent Foucher, analista no National Center for Scientific Research de França, faz questão de notar que, nestas áreas, as comunidades muçulmanas nas mesmas condições também são “aterrorizadas”. “Há claramente um problema de governo na Nigéria. Mas não é como se o Estado estivesse a coordenar ou feliz com isto“, argumentou ao Washington Post.

James Barnett, especialista no país sediado entre Lagos e o Reino Unido, declara ao mesmo jornal que seria expectável que uma organização religiosa desse atenção ao tema da morte de cristãos, mas revela preocupação que esta seja empregada como uma “narrativa oficial de política” por parte dos Estados Unidos. Isto porque o argumento de Donald Trump falha em captar a “realidade complexa” e reduz a violência a uma questão de discriminação religiosa, deixado de forma as origens étnicas, políticas e económicas do problema.

O foco na religião, apontam os especialistas, pode ter o efeito inverso: em vez de travar a atividade armada, pode aprofundar divisões na sociedade nigeriana.”Qualquer ação militar para salvar membros de um grupo religioso poderia polarizar os nigerianos em torno de linhas religiosas, minar os esforços locais para melhorar as relações inter-religiosas e encorajar mais extremismo”, remata Nnamdi Obasi. Em alternativa, os especialistas apontam que a cooperação económica e política entre Washington e Abuja seria uma resposta mais eficaz para pôr fim à violência que assola a Nigéria.